1 – A criança deve se admirar com as coisas simples ao seu redor. 2 – O perigo da superestimulação das telas. 3 – A perda da curiosidade e da criatividade infantil. 4 – Fomentar brincadeiras imaginativas.

1 – A criança deve se admirar com as coisas simples ao seu redor

O essencial na educação da criança é a qualidade do relacionamento dela com seus pais ou educadores. A criança necessita olhar para rostos carinhosos e dispostos a dedicar tempo a ela, e não se fixar em telas de tabletes ou tv. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: a cor e o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha. É assim que ela vivencia suas próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção.

As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas próprias experiências, e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com as pessoas e o mundo ao seu redor. A admiração é um sentimento de elevação diante de algo que supera a própria pessoa. A curiosidade provoca o interesse e isso é fundamental no desenvolvimento psicológico da criança, que passa a tirar suas próprias conclusões. As perguntas das crianças de dois ou três anos não exigem respostas profundas, pois são a maneira de se admirar com a realidade: “Pai, por que não chove para cima?”, “Mãe, por que as abelhas não fabricam doce de leite? “As formigas não sentem preguiça?”.

2 – O perigo da superestimulação das telas

A criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das tecnologias, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. A televisão ligada diante do campo de visão do bebê é algo imprudente, pois desvia o olhar dele do entorno em que vive – e com o qual deve se deliciar: ver os pais e irmãos, sentir os cheiros e os sons da casa – para fixar sua atenção no campo frenético da tela.

Encontrar estimulação em detalhes que passam despercebidos aos adultos é próprio das crianças: sua baixa estatura a faz atentar às pequenas realidades ao seu entorno. Porém, pais ou educadores com pouca sensibilidade ou dificuldade para colocar-se no lugar da criança, ao pô-las diante de telas digitais – julgam que a ajudarão se divertir e aprender mais – entopem-na de estímulos artificiais que anulam a curiosidade e a capacidade dela de se motivar com a vida real. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia a imaginação. A criança se torna passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. Quando sai à rua com os pais não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e sua imaginação se acomodou.

3 – A perda da curiosidade e da criatividade infantil

A falta de limites e o consumismo vertiginoso das crianças atuais vêm destruindo a curiosidade delas, pois acham que tudo deve vir à la carte pela tela. O modo mais fácil de matar a curiosidade delas é deixar a vida ao alcance do botão play. Uma mente assim acostumada fica preguiçosa e pouco imaginativa. Contudo, a criança se torna hiperativa, nervosa e com desejo de chamar a atenção quando é afastada desse mundo irreal dos videogames, etc. Como um fumante ansioso, a criança acostumada às sensações aceleradas necessita de conteúdos cada vez mais agressivos, o que a tornará um adolescente desejoso de estímulos novos e mais agressivos (pornografia, drogas), porque já viu e se acostumou com tudo.

Muitas crianças hoje são hiperativas, dispersas e com dificuldades para se relacionar, estabelecer vínculos e demonstrar afeto ou aceitar a autoridade (fenômenos raros antes das telas!). São crianças-troféu para serem exibidas, mas que crescem sem limites e pouco acostumadas a receberem um “não”. É comum ver nos supermercados e shoppings a tirania das que pedem aos gritos, xingam e batem porque não aguentam receber uma recusa, nunca dita a elas.

4 – Fomentar brincadeiras imaginativas

É importante que os brinquedos escolhidos não tenham pilhas ou botões, que devem estar dentro da criança, e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A brincadeira é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade.

Vários estudos associam a brincadeira imaginativa da criança com a melhora e controle de sua impulsividade, porque a capacidade de imaginar e de desejar algo faz a criança refletir, começar e recomeçar, agindo ativamente. Filmes, desenhos e videogames, ainda que com o fim educativos, tornam a criança passiva, preguiçosa e sem iniciativa, dado o pouco esforço que é exigido dela.

Brincar é o trabalho da criança. Mas isso não se confunde com o lançar-se sobre o sofá e jogar videogames a tarde toda, como recurso para matar o tédio do mundo real. A brincadeira deve ser a realização de uma tarefa que a criança faz com o coração, colocando nela a imaginação e a criatividade. A criança que passa horas concentrada em montar um castelo de lego ou armando uma cabana de lençol entre os móveis da sala, usa criativamente a imaginação e faz descobertas vivenciais.

    Nos fins de semana, quando não há atividades estruturadas ou formais – sejam as da escola ou de outro local que dizem às crianças o que devem fazer −, é um bom momento para observar se, no espaço aberto de um parque, seu filho brinca por horas sozinho ou com o irmão, sem outros brinquedos, mas imaginando as diversões que a natureza pode proporcionar. No entretenimento livre a criança equilibra os estados de tédio com o de ansiedade (tédio quando algo é fácil de realizar; ansiedade quando é difícil demais). Caso ela fique entediada em pouco tempo e ansiosa para retornar às telas, é que sua mente já se tornou hiperativa e dependente do ritmo dos ambientes artificializados, estruturados e com níveis altos de estímulos.

A criança não se educa sozinha, mas necessita ser ajudada por adultos com sensibilidade para preparar um ambiente que não cede ao mais fácil (colocar nas mãos dela um tablete, por exemplo), mas deixam que ela seja a protagonista da sua própria educação. Ao invés de perguntarem à criança se deseja ver televisão, indagam sobre o que ela gostaria de construir com os tijolos de lego. Assim, permitem que a iniciativa seja da própria criança, que utilizará sua imaginação e aumentará suas habilidades.

Texto produzido por Ari Esteves, com base na obra “Educar na curiosidade”, de Catherine L´Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 3ª. Edição, São Paulo, 2016.

O Autor

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