1 – Educação integral da pessoa. 2 – O que é afetividade humana? 3 – A afetividade educa-se com virtudes. 4 – As crianças esperam ser educadas pelos seus pais. 5 – Preparar-se bem para melhor educar.

1 – Educação integral da pessoa

    Educação integral é aquela que atende não apenas a um aspecto − o profissional, por exemplo −, mas tem em vista toda a pessoa: inteligência, vontade e afetos. Crescer em apenas um aspecto suprime a beleza do conjunto, como aconteceria se os membros do corpo não se desenvolvessem harmonicamente: um profissional tecnicamente competente pode ser uma pessoa de péssimo caráter e de difícil convivência.

2 – O que é afetividade humana?

    A afetividade humana é o conjunto de tendências sensíveis e inatas que ressoam no mundo interior por meio dos sentimentos, emoções, paixões. São reações involuntárias que experimentamos diante das diferentes circunstâncias, e de acordo com a personalidade, pois cada pessoa tem uma forma peculiar de captar a realidade, que sempre a afeta em modos e graus diferentes: perante o mesmo fato as reações pessoais podem ser distintas.

    A afetividade é uma poderosa realidade que dá calor, cor e intensidade ao nosso modo de ser. Um profissional que coloca sentimentos naquilo que faz, faz melhor. Sem paixão seria difícil reunir as forças necessárias para superar os obstáculos em vista da realização de um ideal. Essa força é facilitada pela sensibilidade ou sentimentos humanos, que impulsionam a pessoa a arrostar as dificuldades.

    A dimensão afetiva possui no homem a mesma dignidade de sua dimensão espiritual (inteligência e vontade). Cada esfera é diferente e ambas se completam, dando unidade à personalidade, ao nosso “eu” espiritualizado, que é o que nos torna imortais, livres e capazes de amar. As duas dimensões − afetiva e espiritual − necessitam continuamente ser edificadas pelo nosso “eu”, que é quem julga e decide. Para facilitar essa tarefa a pessoa necessita de formação (para o adulto) ou educação (para a criança). Se essas dimensões não estiverem equilibradas conduzirão a pessoa a cometer muitos erros − alguns irreparáveis –, seja na adolescência, juventude ou idade adulta.

    Tanto a absolutização dos sentimentos quanto a do espiritualismo que desconsidera os sentimentos, são contrários à dignidade humana: não somos só afetividade (sentimentos, emoções, instintos), nem somente espiritualidade (razão e vontade). Separar a inteligência dos afetos desumaniza, pois a natureza humana se consubstancia na união harmoniosa dessas duas dimensões.

3 – A afetividade educa-se com virtudes

    As tendências informadas pelas virtudes se tornam o melhor apoio para a razão decidir bem. Quem forma seu gosto de acordo com as virtudes, que é formar-se de acordo com a verdade, equilibra as vozes das tendências, que em seu conjunto apontarão para a verdade.

    O mundo afetivo-emocional é muito rico, quando bem orientado. Por vezes, a afetividade nos faz sentir algo bom (alegria, compaixão) ou mau (ciúmes, inveja). Por meio do juízo cada um avaliará a qualidade dos seus sentimentos, aceitando uns e corrigindo outros. Essa tarefa é facilitada pelas virtudes, que fazem sentir alegria diante do que é bom e verdadeiro e tristeza pelo que julga ser um mal, mesmo que agrade aos sentimentos. Se a afetividade oferecer resistência ao ato visto como bom pelo juízo, é o momento de corrigir-se. Porém, o objetivo não é simplesmente vencer ou submeter a afetividade, mas desenvolver o gosto pelo comportamento moralmente bom.

    A pessoa virtuosa nunca levará ocultamente e sem pagar algo do supermercado, porque tal ação, que não é bem-vista pela sua razão, desagrada-a profundamente, o que revela que sua paixão de possuir está sob seu controle. Seria muito pouco para a pessoa virtuosa apenas evitar olhar para o objeto que a atrai, a fim de não se sentir impulsionada a furtá-lo, porque isso teria um aspecto repressivo ou negativo e não uma atitude amada ou querida pela vontade. Se há virtude, aquilo que não concorda com o mundo interior rico e belo da pessoa já não interessa porque não é querido pela vontade. A pessoa bem formada tem a sua afetividade configurada para apreciar o que verdadeiramente convém e afasta-se do que a degrada ou causa mal (isso se chama dimensão cognoscitiva da virtude).

    O esforço alegre e esportivo é necessário para desenvolver as virtudes que ordenam os sentimentos: levantar-se da cama pontualmente para atender as responsabilidades do dia pode custar, mas quem o faz se sente feliz por ter agido bem. Chegará o momento em que essa atitude alegrará mais do que ceder à preguiça, que incomodará e deixará um sabor amargo. O afeto ou sentimento de alegria diante do bem realizado, ou o sabor amargo diante do mal praticado, não é um efeito colateral da virtude, mas um componente essencial dela: a virtude faz desfrutar com o bem.

4 – As crianças esperam ser educadas pelos seus pais

    Ao não ter ainda capacidade de discernir sobre o bem ou o mal, a criança necessita ser ajudada pelos pais. Ela deseja que o educador tenha a iniciativa de fazê-la adquirir algo que por si só não saberia avaliar a importância. Por isso, ela aceita de bom grado e colabora com a ação educativa que recai sobre ela.

    É tarefa dos pais educar a criança desde que nasce para que tenha autodomínio ou controle de sua afetividade, a fim de não comer fora de hora, controlar impulsos agressivos, deixar uma atividade prazerosa para cumprir um encargo, dormir e acordar no horário, manter em ordem seus brinquedos e roupas. Com entusiasmo e paciência devem os pais aproveitar as pequenas circunstâncias familiares para ir desenvolvendo bons hábitos ou virtudes nos filhos.

    Cada idade da criança e do adolescente oferece um período propício para ganhar hábitos ou virtudes que as conduzirão mais facilmente ao desenvolvimento de suas capacidades intelectuais e ao domínio de sua afetividade: as virtudes da ordem, sinceridade e obediência podem ser conquistadas até os sete anos; dos oito aos doze anos pode-se desenvolver a da fortaleza, perseverança, laboriosidade, paciência, responsabilidade, justiça e generosidade. Leia os nossos boletins que tratam das virtudes por idade.

    Giuseppe Zaniello diz que educação é a ação que se propõe fazer da criança um ser moralmente livre e responsável pelos seus atos. A atividade educativa − diferentemente da formativa − se dirige a pessoas muito jovens, que ainda não adquiriram a capacidade de eleição moral livre, porque ainda não ganharam a forma humana que faz unitários os múltiplos conhecimentos, habilidades e competências. Daí, se conclui que os adultos têm o dever de educar as crianças, e estas, de fato, esperam ser educadas por eles.

    Cada pessoa é responsável por dedicar tempo à sua formação, e essa é a sabedoria que dá frutos valiosos e permanentes. Para Zaniello, formação é a ação que busca aperfeiçoar o adulto em algum aspecto de sua vida. A formação é possível quando uma pessoa, à medida que vai sendo livre e responsável pelos seus atos, decide aperfeiçoar-se em aspectos particulares: caráter e temperamento; vida espiritual e doutrinal-religiosa; atividade profissional, cultural e política; arte, esporte etc.

    A demanda da formação só pode partir do adulto interessado e por ele deve ser buscada, não apenas aceitada como sucede na educação da criança.

5 – Preparar-se bem para melhor educar

    Em conclusão, podemos deduzir que os pais e educadores devem dar especial atenção à própria formação, pois só educa quem tem bom preparo, que deve ser continuamente buscado com sentido profissional. Os pais não precisam ser profissionais da educação, mas devem buscar sua formação com sentido profissional em palestras, cursos, leituras, lives, pois a família é o seu melhor negócio e principal âmbito de realização pessoal. Mulheres e homens que “deram certo” profissionalmente, mas que se sentem frustrados como cônjuges ou como pais, não se sentem felizes ou realizados (há muitos testemunhos sobre isso).

Texto produzido por Ari Esteves com base nos ensinamentos, entre outros, de Giuseppe Zaniello, Professor of Special Education. Department of Psychological and Pedagogical Sciences at the University of Palermo, Italy; e de Julio Diéguez, professor de Teologia Moral na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma).

O Autor

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