1 – Alicerce da personalidade. 2 – Autoestima. 3 – Força de vontade. 4 – A criança e a tolerância à frustração. 5 – Senso de realidade. 6 – Altruísmo. 7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança
1 – Alicerce da personalidade
“Personalidade é um modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais e com o mundo”, diz George Kelly, citado por Francisco Insa. Durante a infância o papel dos pais e educadores é ajudar a criança a desenvolver vários aspectos do temperamento e caráter que serão o alicerce da sua personalidade.
Para se sentir acolhida desde os primeiros meses de vida, a criança precisa perceber que é amada e ter rostos alegres ao seu redor. Neste sentido, a mãe desempenha um papel importante: sua presença conforta e sua ausência, ou descaso, causa medo e insegurança, que poderá levar a criança à indiferença e a ter um caráter distante e frio com os pais.
2 – Autoestima
Para ter autoestima a criança necessita ser valorizada, sendo que isso é compatível com a correção de suas atitudes quando necessário. Aceitar o modo de ser da criança não significa que ela possa fazer o que quiser: é preciso corrigir com carinho e respeito seus defeitos de temperamento e caráter.
A criança não é um adulto em miniatura e seu aprendizado é mais lento. Não se pode ser desqualificá-la com apodos negativos (preguiçosa, burra, bagunceira, mentirosa…), porque ela internalizará tais etiquetas e passará a se conformar com seus fracassos. Essa compreensão evita os estereótipos que humilham a criança. Elogiar mais e criticar menos: pais resmungões criam na criança a sensação de impotência. Surpreenda seu filho ou filha todos os dias ao parabenizá-lo pelo que realizou bem, pois o subconsciente da criança registrará o agrado e incentivará a repetir a ação. A consideração e o apreço fazem a criança sentir que possui qualidades. Acreditem nos filhos: o otimismo dos pais transmite confiança neles, e a simpatia torna atrativa a figura do educador!
3 – Força de vontade
Também é importante que a criança desenvolva a força de vontade, que a levará a perseguir com afinco algo que custe esforço realizar: manter um horário diário de estudo, por exemplo. A criança se move inicialmente pelo imediato, sejam caprichos ou impulsos primários, porque deseja a todo custo se sentir fisicamente bem ou deixar de se sentir mal, mesmo que seja necessário fazer coisas menos boas (fugir do esforço de guardar seus brinquedos) ou deixar de fazer coisas boas. Será preciso explicar a ela que a satisfação de um capricho, por exemplo, ficar passivamente vendo desenhos o dia todo, não a tornará tão feliz quanto montar com paciência e esforço um quebra-cabeça ou construir um belo castelo com lego, ou ter ordenado suas roupas e brinquedos, porque qualquer destas ações a levará exclamar com alegria: − Eu que fiz isso!, como quem afirma ter sido capaz de realizar algo que valeu a pena. A criança compreende que a fuga do bem custoso deixa o mau sabor do fracasso, que além de ser fonte de tristeza, cria o vício da preguiça que a tornará molengona.
4 – A criança e a tolerância à frustração
A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Ela aprenderá a ser resiliente ao tentar uma e outra vez melhorar o resultado de uma meta não alcançada, e isso requer que os pais estejam ao seu lado para a consolar e animar afetuosamente a recomeçar, mas sabendo se retirar discretamente e a tempo de que a criança perceba que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto que a criança necessita aprender é receber um “não” a uma pretensão (não lhe compraram a barra de chocolate), sem achar que o mundo desabou sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar ao não temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de se adaptar positivamente frente a situações adversas.
Para que a criança desenvolva tolerância à frustração é necessário que tenha frustrações: crescer entre as almofadas e algodões da superproteção materna ou paterna, despersonaliza e a torna frágil frente aos inevitáveis reveses que a vida traz, já na infância e adolescência. A frustração pode começar desde o berço ao não ser atendida naquilo que pode esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade física (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como pegar no colo ou não acender a luz ao atendê-la de madrugada, a fim de que comece a aprender a esperar e que o silêncio da noite é para dormir (se os pais acenderem a luz ela não distinguirá o dia da noite).
Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham essas experiências, poupando-os de todos os sofrimentos. É uma boa preocupação desejar que eles não provem certas situações como a separação dos pais, a falta de carinho, violências sofridas… Mas é preciso pensar que muitas dificuldades que os pais passaram, principalmente a carência de bens materiais pela falta de dinheiro, lhes fortaleceu a vontade, fez crescer o espírito de sacrifício, deu-lhes critérios de vida como a consciência de poupança e o sentido de desprendimento e o de não criar falsas necessidades; também os fez compreender que as coisas se adquirem com esforço, sendo necessário saber esperar, etc. Por isso, dar tudo de mão beijada (principalmente dinheiro e excesso de objetos) priva os filhos dos valores que a virtude da pobreza ou desprendimento aporta à construção da personalidade, e torna-os moles e frágeis de caráter.
5 – Senso de realidade
Outra característica para se fomentar na criança é o senso de realidade. É normal na infância uma certa dose de pensamento mágico, uma certa confusão entre sonho, desejo e realidade até na resolução dos pequenos problemas. Entre os dois e três anos de idade é característica a aparição do chamado amigo imaginário, sendo preciso respeitar e não ficar incomodado por isso, consciente de que o pensamento mágico tem a função positiva de ajudar a criança a resolver certos medos e conflitos, e a desenvolver a criatividade. Porém, é preciso incentivar a criança, à medida que entra na pré-adolescência, para que vá se apoiando cada vez mais na realidade, principalmente porque os videogames e as telas digitais criam um mundo fictício e, no mundo real, as soluções não vêm ao apertar botões: se quebrou o vaso de flores não há varinha mágica que o conserte, mas a criança terá que gastar um bom tempo fixando as partes com a cola adequada.
6 – Altruísmo
À medida que o campo de relacionamento da criança se amplia, é o momento de fomentar nela o altruísmo, que permitirá superar o típico egoísmo infantil (que é diferente do egoísmo de um adulto, pois este tem conotação moral). A criança se lança instintivamente à maior fatia de bolo e comerá tudo que aguentar, sem pensar que na mesa há outros que também desejam comê-lo. Pouco a pouco, de maneira espontânea ou porque seus pais a fizeram olhar ao redor, saberá sacrificar seu próprio gosto em benefício dos demais. O ambiente familiar tem um papel chave, especialmente quando há vários irmãos, para ajudar a criança a renunciar seu próprio gosto pelo bem dos outros e para a formação de uma hierarquia de valor baseada no amor, que é base para uma rica vida espiritual, social e religiosa.
O altruísmo também é fomentado ao ter a criança tarefas ou encargos domésticos apropriados à idade que possui, a fim de colaborar com a ordem, beleza do lar e bem-estar de todos. É injusto pensar que a criança é incapaz de ser solidária e não tenha espírito de serviço para contribuir com seu esforço na construção de um lar alegre e feliz. Negar à criança tais atribuições é fomentar nela o espírito de mera hospedagem e a errônea ideia de que tenha apenas direitos e não obrigações, transformando-a em senhor feudal, cujos pais são meros servos. Evidentemente essa não é a via para a construção de uma personalidade rica e sadia.
7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança
Cabe aos pais apoiar o desenvolvimento da consciência moral da criança, à medida que ela começa a ganhar compreensão de si, da responsabilidade por seus atos e das necessidades dos outros (inicia por volta dos seis anos). Essa consciência será auxiliada pelas normas praticadas em casa desde os primeiros anos da vida da criança, onde o exemplo, as orientações e indicações dos pais se internalizaram e passaram a fazer parte da vida da criança como luzes ou faróis que sinalizavam o caminho. Aos seis anos surge o sentido moral e a criança começa a distinguir o bem do mal, não mais em função do que ensinaram seus pais, mas ouvindo a sua própria consciência, ao fazer um juízo crítico tanto do quem vem de fora quanto do que se passa em seu mundo interior. Para a melhor formação da consciência da criança, os pais devem continuar ajudando-a distinguir entre o bem do mal, dando razões esclarecedoras; evidentemente isso também exigirá que os pais melhorem continuamente a própria formação para educar bem.
Texto de Ari Esteves com base no livro “A formação da afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).
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