1 – A educação integral da pessoa humana. 2 – Fortalecer o caráter. 3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos. 4 – A dor e sofrimento educam. 5 – Desprender-se do supérfluo. 6 – A importância da família. 7 – Ensinar a viver o amor
1 – A educação integral da pessoa humana
A pessoa humana deve ser educada em sua totalidade, e não apenas no aspecto profissional, artístico, científico ou esportivo. Falar da educação do coração é falar da totalidade do homem (inteligência, vontade e afetos). No período de 6 a 11 anos há uma predisposição natural para deixar-se educar o coração, mais que em outras idades, sendo que esse ensinamento é base para o desenvolvimento posterior de capacidades diferentes para a realização de outras tarefas e compreensão de outras realidades: saber viver o sentido do amor, da família, do trabalho e da sexualidade (temas não abordados – ou mal abordados – nas escolas, mas vitais para a verdadeira felicidade da pessoa, e que competem aos pais como primeiros e principais educadores dos filhos).
Durante o processo educativo os pais devem ensinar aos filhos a querer, a servir e a pensar (estes dois últimos aspectos serão abordados nos próximos boletins). Ensinar a querer é ensinar a viver com fortaleza e com alegria as inevitáveis contrariedades da vida; é cultivar a finura e a sensibilidade ante a grandeza e a beleza; é deixar o coração se comover ante a dor alheia para que a vontade responda com generosidade, a fim de remediar as necessidades dos demais (ensinar o coração a condoer-se); é fazer notar que o trabalho ou tarefa é um serviço aos demais… A indiferença é hoje uma doença progressiva em nossa sociedade, que se constata na passividade e na apatia frente às dores dos demais: viver fechado no mundo pessoal leva ao egoísmo e este conduz à tristeza e ao embotamento da alma.
Entre 6 e 11 anos a criança pode viver verdades e valores não como hábitos irrefletidos, mas por meio de sua vontade, quando educada, pois nela reside o querer livre e consciente. É o momento de iniciar a conscientização dos filhos de que não basta pensar no modo como ganharão dinheiro com a profissão que um dia escolherão, mas em ter uma vontade forte para que queiram o bem e não cedam ao mais fácil ou cômodo, nem temam assumir ideais grandes que exijam esforço para serem conquistados.
Educar o coração e os afetos se consegue com uma vontade forte, que saiba querer. Para ensinar a colocar o coração naquilo que vale a pena, a criança precisa ser orientada, pois sua tendência é ir ao mais fácil e prazenteiro, é sentir-se bem mesmo fazendo o que não é bom (deixar seus brinquedos e roupas desordenadas, não ajudar nas tarefas do lar, comer a qualquer hora, não ter disciplina…).
Se pode considerar o coração como o princípio não apenas localizado no órgão corporal do lado esquerdo do peito, mas em toda a sensibilidade da pessoa, que se vê afetada integralmente pelas realidades que a circundam. Na educação do coração é primordial compreender o sentido da dor, da contrariedade, do cansaço e da morte, que e o fim de todos.
2 – Fortalecer o caráter
Podemos afirmar que o caráter é para o coração o que os músculos são para o corpo. É óbvio que músculos flácidos não resistem a pesos, e se rompem. Assim se passa com o coração quando a vontade e fraca e o caráter é débil: se rompe ante as penas ou dificuldades. Muitas neuroses ou doenças de origem emocional procedem da falta de fortaleza ou debilidade de caráter. Dar ao filho tudo o que pede e evitar dizer um “não” a ele, e poupá-lo das exigências normais da vida é torná-lo débil de caráter, é despersonalizá-lo, é impedir que cresçam em espírito de serviço. Uma parte importante da educação para a dor e para o espírito de serviço apoia-se na virtude da fortaleza.
Na estrutura da personalidade humana somente é possível educar para o serviço se, depois do autodomínio, sabemos forjar um coração forte, ordenado e que saiba amar. Compreender, perdoar, desculpar e corrigir os filhos a sós e com carinho, não impede a clareza da mensagem e o emprego de energia almofadada quando necessário, pois tais normas marcam definitivamente a etapa dos 6 aos 11 anos.
O carinho que educa é oferecido sempre num marco de exigência e de serviço ao outro, e tem algo de divino que se manifesta no olhar, no gesto, na atitude festiva (o amor converte a vida em festa); na compreensão das fraquezas e defeitos, mas animando a corrigir-se; em saber prestigiar sem adular; é carinho ofertado a todos, mas que se manifesta como exclusivo para cada um.
3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos
Não basta querer aos filhos: o ambiente de carinho que deve rodeá-los não elimina a exigência e a correção, quando necessárias. Não basta também que sejam instruídos em muitos saberes técnicos ou culturais: é preciso formar seu caráter. Aprender a querer está em pequenos detalhes como ter sempre as mãos limpas para não deixar marcas nos estofados, paredes e portas; é esforçar-se para deixar cada coisa em seu lugar e cuidar de não estragá-las com modos bruscos ou maus tratos; é ter detalhes de cortesia e bons modos com pessoas que não são da família; é jogar ou brincar sabendo sacrificar o resultado para conservar a unidade entre as pessoas; é evitar discussões e tentar compreender a razão dos outros; é ser agradecido, principalmente com Deus pelos dons recebidos…
A sabedoria popular chama de “dureza de coração” ou “frialdade de sentimentos” a quem não manifesta um coração grande, magnânimo. A atmosfera que o lar deposita no coração da criança tem importância decisiva na formação da consciência dela. Frente a postura de dureza de coração cabe verificar o sentido que os pais dão à dor, pois a insensibilidade vai endurecendo o coração e perde-se o sentido purificador da solidariedade.
4 – A dor e sofrimento educam
A dor pode ser transformada em atitude de amor e de serviço. Aprende-se a sofrer, a amar, a servir e, concomitantemente, a ser feliz no lar, e desde o período de 6 a 11 anos, pois nele a criança desenvolve maior ressonância sensível.
Todos estão de acordo com a definição não científica, mas de grande sentido comum, que com o coração sofremos e nos alegramos. Parece que a afetividade humana se reflete no coração, mais que em outras partes, e de modo diferente em cada pessoa. É fácil observar como duas pessoas são afetadas de maneira distinta diante do mesmo fato; nem sequer se pode dizer que a intensidade de um sofrimento pode ser causada pela privação ou importância de um bem. Em certa escola, um grupo de quatro meninas, entre seis e sete anos, perdeu o pai no período de poucos meses de diferença, sendo que as reações foram desiguais: uma delas se afetou de tal maneira que durante quase seis meses não pôde voltar ao colégio, pois tinha febre e vômitos causados pelo estado emocional; outra voltou a chupar o dedo como costume que há mais de dois anos tinha abandonado; outra aproveitou sua situação para chamar a atenção ao falar continuamente dos detalhes que rodearam o acontecimento; outra se tornou retraída, desajeitada e nervosa, surgindo dermatite em sua pele.
Os acontecimentos, ainda que semelhantes, são rodeados de circunstâncias diversas que provocam dor cuja intensidade e resultado depende de cada pessoa. A dor é a resposta diante da perda de um bem devido à nossa natureza, mas cada ser humano sofre de maneira diferente. Se ante um pequeno acidente os pais reagem com serenidade, solucionando com naturalidade os problemas, as crianças compreendem que aquilo não tem grande importância. A fortaleza e a serenidade são ingredientes indispensáveis a pais e filhos para aprender a enfrentar e suportar a dor.
A dor, a contrariedade e o cansaço assumidos na realização dos deveres se identificam com o amor e o espírito de serviço, e estes tornam possível aceitar aqueles, sem se deixar enganar ao substituí-los por compensações absurdas. Quando a dor é rechaçada, adotando-se ante ela uma postura insensível, procurando o analgésico ou deixando-se levar pelo desespero ou pela fuga, se rompe a unidade e a harmonia interior da pessoa, provocando um novo sofrimento. Nos pequenos casos apresentados a seguir nota-se o desejo desordenado de compensação ou fuga.
Um menino de dez anos, depois de permanecer alguns meses na cama, engessado por todas as partes, o que provocou nele grandes feridas na pele, depois de curado se empenhava para que seus pais satisfizessem seus caprichos mais absurdos: ouvir música a todo volume até à meia noite, e se alguém se queixasse do incômodo o garoto exagerava com o que ele havia passado; exigia de seus pais gastos desproporcionados às suas possibilidades, argumentando que nada se comparava aos sacrifícios que ele havia sofrido; resistia a qualquer exigência, aludindo à injusta situação que viveu, considerando cruéis e culpando a todos os que não sofreram o que ele teve que aguentar, e a todos os que não estivessem dispostos a compensar o que ele havia sugerido.
Uma menina de sete anos, cujo pai abandonou a família, viu sua mãe que, dedicada a resolver a situação econômica do lar, descuidou de preencher de sentido o sofrimento que causou na filha a fuga paterna. Enquanto isso, a menina encontrou na casa da avó um refúgio gratificante, pois esta, com pena da menina, a satisfazia com mimos e presentes. Com isso, a menina se tornou grosseira e desrespeitosa para com a mãe, e queria estar sempre na casa da avó. A mãe achava que essa reação da filha era consequência “normal” do que havia sofrido, e com falsa compaixão, sem perceber acabou mantendo o ressentimento da filha contra ela. A mãe deveria ensinar a menina a sofrer e a dar sentido à dor provocada pela injustiça que sofreu, e que já não seria possível remediar, pois assim a teria feito crescer em maturidade e misericórdia, que é uma meta alta que deve aspirar o coração humano. Fugir é ocupar-se de qualquer coisa que impeça estar consigo mesmo para não aceitar a dor.
Existem fugas tão bobas que vão desde comer chocolates a toda hora, comer por comer, buscar uma diversão atrás da outra, ouvir rádio ou ver televisão indiscriminadamente, etc. Aceitar a dor, a contrariedade, o cansaço, a doença, a morte é aceitar a vida. Não há ninguém que possa mudar tais realidades: “da morte ninguém escapa, nem o pobre, nem o rei, nem o Papa”, disse Santa Terezinha. Falsificar a dor é colocar a pessoa a caminho de perder a saúde mental. Em troca, aceitá-la é dar sentido àquilo que é difícil, é transformá-la em amor purificador e redentor, e esse amor engrandece a alma e a salva.
5 – Desprender-se do supérfluo
Há sofrimentos não necessários, mas provocados pela frustração de muitos desejos inúteis que se despertam num coração desavisado e que se vê bombardeado de múltiplos estímulos sensíveis: muitos sofrimentos são evitáveis ao educar o coração para se desprender do supérfluo.
Hoje é necessário ensinar as crianças a manter o coração desprendido de tantos bens supérfluos que são apresentados a todo momento e de forma atraente. A cada cinco minutos a publicidade digital descarrega inúmeras ofertas com o recado de que são “indispensáveis” para a nossa vida. As crianças são vítimas de modismos e grifes, e devem ser alertadas por seus pais sobre esse assédio consumista. Que aprendam a ser criativas ao inventar suas brincadeiras com embalagens e outros objetos simples, por exemplo. A imaginação da criança é mais rica que os produtos comerciais! O botão deve estar dentro das crianças, e não em aparelhos elétricos ou digitais.
6 – A importância da família
O homem tem por natureza uma estrutura familiar, e em seu âmbito psíquico-afetivo existe uma necessária ressonância que procede desse recinto vital que é o seu lar. A segurança emocional da pessoa procede principalmente da estabilidade da família. A unidade dos pais se projeta na identidade de cada filho. Pode-se dizer que uma criança tem tudo − mesmo que careça de muitas coisas materiais −, quando em seu lar exista uma unidade familiar fundamentada no carinho entre marido e mulher.
Sem um lar verdadeiro, o homem se despersonaliza e se perde ao buscar sua identidade entre a massa. Chama a atenção ver como a moda é adotada de maneira mais intensa em jovens com famílias desestruturadas. Adolescentes que provém de famílias unidas, onde reina o carinho, manifestam uma personalidade mais definida e se apegam muito menos às imposições dos modismos e das grifes.
Filhos que desde pequenos desempenharam tarefas no lar para o bem de toda a família, são impulsionados por motivos de amor porque percebem que servir é mais que um dever: é atitude de amor aos demais. Tal comportamento se manifesta também entre seus amigos da equipe esportiva, nas excursões, no ambiente escolar e de vizinhança, pois seu ânimo e alegria são evidentes e contagiosos.
No lar se aprende a viver esses valores que dão calor à vida cotidiana e deixam marca na alma infantil. A fé, ilustrada com as narrativas bíblicas, transmite uma imagem luminosa que se imprime na alma da criança. Logo virá a etapa seguinte, onde o estudo dos temas relacionados à fé reforça na razão as convicções que agora se semeiam no coração. A força e o dramatismo da leitura de bons contos transmitem valores que despertam nas crianças desejos de heroísmo, de grandeza, de generosidade, de desprendimento, de magnanimidade, de ternura, de sacrifício…
7 – Ensinar a viver o amor
O amor e a dor se unem somente nas fronteiras da misericórdia. Seria absurdo pensar que a educação somente pode ocorrer no marco perfeito da família ideal. É preciso educar de modo a contar com a deterioração mais ou menos grande da saúde das pessoas com o passar do tempo: amar ao fraco é padecer com paciência a sua dor. Diante da deterioração do corpo de quem se ama, se buscam os mil meios para que seja curado, e não se despreza a pessoa pelas feridas que sofre, sejam físicas ou espirituais.
Todo ser humano, por pior que seja sua conduta moral, terá capacidade de erguer sua vida, se sabe prender-se na mão que vem do alto e das mãos que o amor humano alarga como um ponto entre a miséria e grandeza. Este caminho somente decorre entre o oceano da misericórdia divina e o Céu da esperança. O homem tem que ser completo não apenas momento presente, mas em todas suas possibilidades de transcendência eterna. Não se deve centrar a atenção no pior momento da vida de alguém, como se não houvesse uma história na qual se pudessem destacar coisas boas entesouradas, ou como se não existisse um futuro com mil possibilidades para refazer-se.
A misericórdia é tecida com fortaleza e paciência, com exigência e suavidade. Amar com um amor misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, compreendendo e desculpando, sem se tornar cúmplice ou vítima em atitude doentia. O amor sabe suportar a dor presente e olhar o futuro com esperança e serenidade; o amor nos torna bons, nos impulsiona e eleva, nos purifica e renova.
Quem na adolescência não aprende a lutar contra o egoísmo, dificilmente aprenderá a servir e a amar, pois a lógica consequência de um coração sensível ante a dor e a necessidade dos demais é o serviço. Ensinar a viver o amor que se transforma em misericórdia é ensinar a esperar com otimismo; é buscar os remédios possíveis, humanos e sobrenaturais, para resgatar e elevar aquele que caiu.
Mesmo antes da puberdade o coração deve ser exercitado na compreensão, no perdão e na alegria. Com a puberdade chega um novo período em que a solidariedade humana deve arraigar sobre o terreno bem preparado de um coração magnânimo, forte, e que seja capaz de vencer seu próprio egoísmo. Ninguém é capaz de servir se não foi treinado na fortaleza para resistir com paciência a dor e a contrariedade, encontrando nelas um sentido. Este período deve ser aproveitado para fazer a criança ver as necessidades e carências dos que a rodeiam; carências e necessidades que ela deve procurar remediar, umas vezes por estrita justiça e outras por caridade. A criança deverá encontrar neste período motivos sensíveis que a levem a servir.
Ao final da etapa de 6 a 12 anos convirá insistir na ideia do dever como um requisito da justiça. No período sensitivo de 0 a 6 anos, os pais transmitiram suas atitudes e o sentido que dão à própria vida. Agora, antes da puberdade, a criança irá descobrir com mais força as vivências paternas, e saberá qual é a atitude que deve adotar ante as exigências de sua própria dignidade, ante a vida humana, ante a dor e a contrariedade, ante trabalho e o cansaço, ante o amor e a sexualidade humana, ante o mal e a injustiça, ante a doença e a morte.
Se os pais vivem se queixando do trabalho, se realizam mal e às pressas suas tarefas, se buscam fugas ou compensações, se seus juízos são implacáveis para com as demais pessoas, se não sabem compreender e perdoar, se não sabem ver um aspecto positivo em situações mais duras, então não haverá teoria suficiente para educar o coração. Pais sensatos criam oportunidades para que seus filhos aprendam a servir, a fim de que gradualmente estes aumentem a capacidade de esforço e passem a agir aceitando livremente a responsabilidade, reconhecida como um dever de justiça ou de misericórdia. Ao chegar o período da juventude, quando foram bem aproveitadas a inclinação natural à justiça na adolescência, os jovens saberão lutar contra seu próprio egoísmo e realizarão grandes ideias de serviço aos demais.
Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha.
Gostou deste Boletim?
Se puder contribuir com nosso trabalho, envie sua contribuição para o PIX:
ariesteves.pedagogo@gmail.com

Chave Pix copiada!