1 – A criança e a mentira. 2 – A criança colérica. 3 – A criança orgulhosa
1 – A criança e a mentira
Para as crianças triunfarem sobre seus defeitos, necessitam ser ajudadas com calma, paciência e muito amor. Uma mãe ficou desnorteada porque seu filho mentiu ao dizer a ela que havia andado de barco no dia anterior. O que ocorreu foi que a criança viu em um filme outros pirralhos passearem de barco a vela, e como para ela sonho e realidade por vezes se confundem, e também para gabar-se a fim de se impor um pouco diante dos olhos dos outros, fez tal afirmação à mãe. Mais do que propalar que o filho é mentiroso, a mãe poderia dizer a ele que percebeu o gosto dele por andar de barco, e que procurará fazer isso no próximo passeio familiar. A afirmação da criança foi uma manifestação de orgulho? Não, mas talvez amor-próprio porque é preciso ter algum para crescer no mundo sem se sentir esmagado por ele, e para alimentar grandes desejos. Muitas crianças que atravessam o período da mentira, o fazem por alimentar grandes desejos e têm vontade de que as tomem como pessoas importantes e mais crescidas do que efetivamente o são. É uma crise normal que deve logo deve desaparecer.
Outras vezes a criança mente porque receia as consequências dos seus atos, e ao negar obstinadamente o faz como se estivesse dizendo que não queria fazer o que fez. Ao invés de perguntar abruptamente se foi ela, a criança, que queimou a ponta da toalha, poderia perguntar onde foi que ela encontrou fósforos: − “Na gaveta”, teria respondido, como que assumindo o fato da toalha chamuscada. Se a criança for tímida ou sensível, e teme muito um castigo, ou porque sente muita vergonha, será preciso compreender que às vezes sua saída será uma mentirota. Cabe, então, aos pais ajudá-la e encorajá-la a que tenham confiança neles, e que pode dizer com tranquilidade as coisas que saíram erradas. Para dar essa confiança, os pais não devem levar as coisas para o lado trágico, pois quanto mais dramatizarem, mais esmagam a criança sob a vergonha. A melhor maneira de desencorajar a mentira da criança é demonstrar plena confiança nela, e mesmo que por vezes possam ser enganados, jamais devem dar mostrar de que desconfiam da criança, pois só assim a criança sentirá remorsos de ter mentido para aqueles que a amam tanto. Pelo fato de uma criança mentir algumas vezes, não desconfiar sistematicamente dela, nem dizer isso a outras pessoas, pois seria julgá-la ou considerá-la mentirosa, abandonando-a no seu defeito e diminuindo a sua imagem ou boa fama diante dos outros, o que seria injusto. A criança confessa espontaneamente seu erro quando há um ambiente de amor, de calma, de confiança. Por isso, não procurar que ela confesse um erro diante de pessoas estranhas.
É claro que, com delicadeza, se pode estimular que a criança confesse a mentira, sabendo que ela já sente remorso pelo que fez de errado. Pode-se repor a verdade com um sorriso, sem gritar para não dramatizar e tornar a situação violenta demais. A criança deve ter a possibilidade de reparar o que fez: se quebrou o vaso deve limpar o chão e colar as partes quebradas ou comprar outro com o dinheiro do seu mealheiro. Pode se mostrar mais ou menos contrariado, mas nunca com cara de tragédia. Crianças que procuram autenticamente enganar, a atitude dos pais deve ser como a de Cristo: mostrar se amável e compreensivo, dispostos a desculpar e perdoar, mas ao mesmo tempo ser exigentes, firmes, para que a criança perceba que os pais têm grande paixão pela verdade, e por isso procuram dar exemplo.
2 – A criança colérica
Gritos, pontapés nos móveis, injurias, quebrar objetos, rostos fechados e contrariados. O que na verdade está ocorrendo é que a criança está tendo uma crise de cólera, e não se deve provocá-la ainda mais ao forçá-la a se submeter, porque ela julga ter razão. Se o que se pretende é o bem da criança deve-se arranjar uma maneira de obter a colaboração dela. Para isso, os pais não devem se enervar ou dramatizar o incidente e nem responder cólera com cólera, rir ou debochar, pois seria humilhante para a criança. O bom senso aconselha manter-se sereno e firme, pois isso acalma e desarma a criança, e evita dizer algo que possa magoá-la. É melhor esperar que passe o surto de raiva e, horas depois, ou talvez no dia seguinte, quando a criança já estiver calma, conversar com ela sobre o modo errado com que agiu no supermercado, porque não quiseram comprar a barra de chocolate que ela pediu. Pedir para não repetir mais a falta de respeito que teve. Até pode, nesse momento, dizer qual a medida corretiva que passarão a ter diante de tais comportamentos: por exemplo, não irá à casa dos primos no fim de semana; ou não assistirá desenhos naquele dia.
Uma criança pode se exaltar porque se viu frustrada em algo, ou porque foi contrariada em ponto essencial para ela: pretendia sair na rua para brincar, mas lhe foi pedido que não fosse. Pode-se desviar o interesse para outro sentido ao concluir o que havia de legítimo e bom no desejo da criança, e propor algo que corresponda à sua aspiração: se queria correr na rua, pode-se indicar que o faça no pátio; se queria desenhar ou pintar na mesa da cozinha, que o faça no quintal ou na varanda.
Algumas crianças têm dificuldades de se dominar e acabam por explodir quando seus instintos são contrariados. Realmente, os pais têm diante de si a tarefa de ajudá-la a não ser marionetes de seus sentimentos e paixões, ao não entregar-se irracionalmente a eles. Para isso, deverão observar as reações da criança ao perder uma partida de futebol ou outro jogo para os amigos. Fazê-la cair em si ao perceber que a amizade é um bem maior que deve ser preservado, e que perder uma partida não é o fim do mundo. Muitas vezes será necessário aplicar uma medida corretiva na criança colérica, vítima de seus instintos, de suas zangas, a ponto de se encerrar numa cara enfezada que parece não ter fim. É preciso intervir para libertar e ajudá-la a dominar tanta impetuosidade: pode-se isolar a criança e dizer que volte para junto dos demais quando estiver mais calma. Porém, o essencial é que os pais não se exaltem: o rosto sereno e a atitude calma e firme dos pais desarmam a cólera da criança.
3 – A criança orgulhosa
O orgulho não parece ser um defeito verdadeiramente profundo nas crianças. Por vezes, se tem por orgulho aquilo que não o é: se a criança mostra um desenho e afirma que está bonito porque ela o fez, talvez haja um pouco de vaidade e não de orgulho, pois ela tem necessidade de ser apreciada pelo adulto, e quer avaliar a sua obra. Pertence aos pais o dever de apreciar os progressos que a criança faz, pois para progredir ela necessita ter autoestima e confiança em si mesma. Ao afirmar que ela progrediu, mas que pode fazer melhor, já a coloca longe de fomentar uma atitude de orgulho, ao mesmo tempo que a deixa contente com o progresso realizado. A menina que diz − “Veja como sou bonita”, a mãe pode dizer: – “Sim, você tem um vestido bonito”; ou: − Sim, hoje seu cabelo está arrumado, mas nem sempre”. Com isso, desvia um pouco a atenção da criança sobre si mesma.
Em geral, as crianças que garganteiam seus feitos e que são vaidosas, muitas vezes têm falta de confiança em si mesmas, ou complexo de inferioridade que as fazem andar sempre à procura de saber o quanto valem, a fim de crescer diante dos próprios olhos. O remédio será demonstrar amor por elas, e não pelas suas qualidades. Sentir-se amadas e não levar a sério as gabarolices que dizem; ensiná-las a ver que somos amados por Deus porque somos seus filhos, e não porque podemos fazer ou ter isso ou aquilo; e se podemos fazer isso ou aquilo, é porque Ele nos deu gratuitamente essas qualidades, que devemos agradecer.
A criança precisa ser ajudada a reconhecer seus erros e a descobrir as suas fraquezas: – “Hoje você não fez o seu trabalho escolar”. Ao dizer isso com calma, bondade e um sorriso, transmite o recado de que se confia que ela o fará. Pode-se acrescentar que compreende que não fez a lição, mas que conseguirá fazer se estiver um pouco mais atenta aos seus horários. O orgulho é uma espécie de mentira, mas se os pais fizerem a criança perceber com coragem seus pontos fracos, ajudando-a a corrigir-se e a sair de si, o orgulho, que é culto a si mesmo, se esvai porque ela aprenderá a ser humilde e a admirar as qualidades dos outros, e não a invejá-las. Quando uma pessoa se compara com outra e procura afirmar-se à custa de rebaixá-la, segue a trilha do orgulho, sendo necessário trabalhar com muito cuidado para extirpar essa erva daninha.
Pais e educadores muitas vezes são os primeiros a comparar a criança com um irmão ou um amigo, e isso não é nada bom, pois ao invés de buscar o bem da criança, procura-se o bem de si próprio ao diminui-la. No caso de crianças com tendência à comparação, como forma de se sobressair, pode-se restabelecer sempre a estima do outro fazendo ela perceber as qualidades que possui a outra criança, e criar entre elas um clima de amizade, de comunidade.
Ninguém tem o direito de humilhar a criança, pois isso não é um princípio de educação. Humilhar é desencorajar e matar qualquer coisa no interior da criança. Nunca se deve contar em público algo que a criança fez de errado. Sendo a humildade a verdade, cada pessoa deve reconhecer sem vergonha ou tristeza suas próprias fraquezas e lutar para corrigi-las; e amar os outros como eles são, ajudando-os a que melhorem ao corrigir com oportunidade, carinho e respeito. Os pais também devem reconhecer seus erros e corrigir-se, e pedir desculpas aos filhos quando foram injustos com eles. Ao aplicar alguma medida corretiva nos filhos, devem fazê-lo com o fim de ajudar a criança, e não como reação do amor-próprio ferido.
Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim das que se queixam demais, e das que parecem estar sempre com a cabeça no mundo da lua.
Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal. Imagem de Ketut Sublyanto).
Ariovaldo Esteves Roggerio
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