1 – A experiência da fraqueza humana é universal. 2 – A preguiça é causa de muitas injustiças. 3 – Com a virtude da fortaleza se combate a preguiça. 4 – Não matar o tempo. 5 – Ajudar as crianças a vencerem a preguiça

1 – A experiência da fraqueza humana é universal

    Cansaço é o que sentimos depois de um dia de trabalho; preguiça é o que sentimos antes de trabalhar, disse Agostinho, de Hipona. Preguiça é a tendência de fugir dos deveres; é o desgosto ou tristeza diante do esforço que o cumprimento das obrigações reclama. Já se disse que a eficácia da vida de uma pessoa tem muito a ver com a sua capacidade de vencer a preguiça, pois as coisas importantes custam, e as mais importantes custam mais. Só quem é capaz de vencer-se realiza algo que vale a pena.

    A experiência da fraqueza humana é universal, e atire a primeira pedra quem não falhou muitas vezes por preguiça diante do que deveria fazer. Quantas vezes nos propomos a realizar algo que nos custa um pouco e fugimos da tarefa: regime para emagrecer, exercícios físicos, iniciar pontualmente um trabalho material ou intelectual… É que no fundo há um querer incompleto − um querer-não-querer – devido a resistência da própria afetividade, que é o conjunto das emoções, afetos, sentimentos e paixões que nos fazem gostar ou desgostar das coisas: se algo custa esforço, os sentimentos podem protestar e se resistirem a realizar, mesmo que a inteligência tenha revelado que deveria ser feito. Uma vontade fraca torna-se cúmplice dos sentimentos, e leva a chamar de preguiçoso aquele que se deixou vencer pelo sentimento de desagrado diante do que deveria fazer.

2 – A preguiça é causa de muitas injustiças

    Não se dá muita importância à preguiça, pois ela se apresenta com cara divertida, marota, inofensiva: não fazer o bem parece ser menos grave do que fazer o mal. Mas a preguiça é um câncer e causa de muitas injustiças, sejam familiares, quando os pais que não corrigem os filhos; profissionais, quando se realiza um trabalho mal feito; ou sociais, quando um funcionário público ou de empresa privada não realiza bem sua tarefa; quando as autoridades não intervêm para que seja prestado melhor serviço público. A preguiça também é causa de injustiças quando os cidadãos de uma comunidade não dedicam tempo para ajudar aqueles que mais necessitam, seja por meio de ONGs ou por outras iniciativas.

    O excesso de conforto, o tempo demasiado em divertir-se, o afeiçoar-se desordenadamente a um trabalho ou esporte podem paralisar em detrimento de outras responsabilidades, como por exemplo, familiares, onde a pessoa pode ceder sem contradizer suas atividades prazerosas. Algumas atividades que afagam os sentimentos ou as paixões são rapidamente deletérias: jogos de azar, álcool, drogas, pornografia, pois quando se incrustam na imaginação fazem calar a consciência, que fica obscurecida, e debilitada a vontade. Só se conserva a liberdade e a capacidade de tomar decisões justas quando se consegue o controle dos bens que podem arrastar por sua forte atração. É necessário fazer com que esses bens ocupem o seu devido lugar, pois prometem muito e acabam por dar pouco: quem não controla suas paixões torna-se marionete de seus impulsos e desejos.

3 – Com a virtude da fortaleza se combate a preguiça

    As atrações afetivas ou sentimentais são boas e causa de felicidade quando apoiam as ações para a consecução do que deve ser feito, e não ao contrário, já que a preguiça é causa de insatisfações, tristezas e frustrações. É necessário educar a sensibilidade ao tirar o brilho demasiado que os objetos possam exercer sobre ela, fazendo a pessoa ceder sem a menor resistência.

    Importa combater os hábitos de preguiça, pois distorcem a biografia pessoal. Não existe outro tratamento contra a preguiça senão por meio de virtudes, principalmente a da fortaleza, que crescerá à medida que se vence em pequenas batalhas diárias: acordar e dormir no horário; deixar ordenados os objetos pessoais ao concluir um trabalho; servir aos demais nos diferentes encargos que exigem a familiar, tais como lavar os pratos, fazer as compras, manter ordenadas as roupas, enxugar o banheiro…; não adiar o cumprimento de uma tarefa; chegar pontualmente aos compromissos; atuar quando os filhos agem mal…

    É fácil esquecer as responsabilidades que pesam sobre os ombros de cada um, conformando-se apenas em dar um jeito nas coisas, e deixar-se arrastar por falsas razões para ficar de braços cruzados. Ao considerar as próprias responsabilidades, é preciso renovar cada dia, logo pela manhã, o propósito de não ceder à preguiça, mas de enfrentar os afazeres com otimismo, persuadido de que com isso se alcança a perfeição humana a que todos são chamados diante de Deus.

4 – Não matar o tempo

    Na vida de cada pessoa se apresenta a tentação da passividade e da preguiça, e em vez de procurar o modo de resolver as dificuldades objetiva, se deixa levar por falsas desculpas que paralisam o esforço. Muito interessante é a parábola narrada por Cristo, onde um administrador entrega parte de seus bens a três empregados, a fim de que estes negociem e obtenham algum lucro para ele, até que regresse de uma viagem. Essa história revela que Deus concede a cada pessoa dons ou qualidades com as quais deve negociar e servir aos demais mediante seu esforço pessoal, e que um dia será cobrado por isso. O interessante dessa parábola é que um dos funcionários foi preguiçoso e, ao invés de negociar com o único bem que recebeu, escondeu-o para não o perder, a fim de devolvê-lo intacto ao patrão. Agiu assim porque não queria ter trabalho algum, mas apenas se refugiar na passividade. Talvez se tenha achado mais esperto que os outros por ter abandonado o seu único instrumento do seu trabalho, e optado pelo comodismo para matar o tempo. Nessa história, o “espertinho”, contrariamente aos outros dois funcionários que fizeram render os bens recebidos, ficou sem argumentos para justificar sua poltronice diante do patrão, que o despediu do trabalho.

    É pena viver matando o tempo, que deve ser aproveitado para fazer render as qualidades pessoais. Se alguma vez a preguiça invade em qualquer das suas manifestações, é o momento de lutar contra a excessiva compreensão que cada um tem para consigo mesmo. Por vezes pensamos demasiadamente na saúde e no descanso, que não devem faltar porque são necessários para voltar ao trabalho com forças renovadas. Porém, descansar não é ficar ocioso, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços.

5 – Ajudar as crianças a vencerem a preguiça

    Os pais não devem temer exigir dos filhos. Com paciência e carinho devem ajudar as crianças a vencerem a preguiça, pois elas também são vítimas desse defeito e, por não terem experiência de vida, necessitam ser orientadas. Se ajudadas, em pouco tempo elas adquirirem hábitos para a vida afora, e ficarão agradecidas pela insistência de seus pais. É obrigação dos pais exigir dos filhos que coloquem no lugar as próprias roupas e o material esportivo, que façam diariamente a cama ao acordar, enxugar o box do banheiro para o próximo encontrá-lo seco, colocar no lugar a mochila, chegar pontualmente às refeições. É preciso admoestar a que abandonem formas sorrateiras de preguiça: interromper o estudo para ver o celular ou ir ate a geladeira. Vale insistir também que cresçam em espírito de serviço e cumpram os encargos familiares que lhe foram atribuídos, antes de sair para brincar. Outra forma de ajudar as crianças a vencerem a inatividade de ficar horas e horas vendo desenhos, é incentivá-las a praticar jogos de inteligência: xadrez, quebra-cabeça, damas, jogos de memória, montagem de legos, entre outros.

    Crianças a partir dos 2 anos ou 2,5 anos gostam de obedecer a seus pais para agradá-los, e facilmente ganham o hábito de serem ordenadas. Para isso, a menina deve ser exigida com afeto a se acostumar a colocar as bonecas na caixa de bonecas, os pratinhos na de pratinhos, as panelinhas na caixa de panelinhas; o menino, a guardar os soldadinhos na caixa de soldadinhos, carrinhos na de carrinhos, bolinhas na de bolas, lego na de lego, etc. O que não podem é jogar tudo dentro de um mesmo recipiente! Como não sabem ler nessas idades, é inevitável que os pais diferenciem as caixas ao colar o desenho correspondente do lado de fora. Evidentemente, a criança de 2 anos ou 2,5 anos não percebe que está adquirindo a virtude da ordem, mas logo notará que muitos coleguinhas do infantil ou fundamental são desordenados, bagunçados e preguiçosos, e que para ela não custa esforço algum agir corretamente. Ou seja, aos seis anos perceberá que tem a virtude da ordem, que faz parte da virtude da fortaleza.

Texto produzido por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br. Imagem de Pixabay.

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