1 – O emotivismo. 2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem. 3 – Educam-se os sentimentos desde a infância. 4 – Sentir alegria ao agir corretamente. 5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade. 6 – Educar o coração
1 – O emotivismo
A afetividade humana é essencial, pois sem ela seríamos incompletos. Quando se põe o coração – sinônimo de pôr os sentimentos – naquilo que se faz, como por exemplo na atividade profissional que se exerce, tende-se a fazer melhor. Pôr o coração não significa deixar-se arrastar pelos afetos, já que a razão ou inteligência é quem deve dirigir a pessoa; apenas se pretende afirmar que os sentimentos dão cordialidade à razão e torna agradável, e não fria, a realização do bem.
Chama-se emotivismo a característica de dar primazia aos sentimentos. A afetividade (sentimentos, emoções, paixões) deve ter como ponto de referência a razão, que permite discernir se os afetos são autenticamente humanos ou não (os animais também possuem afetividade). A intensidade sentimental sem inteligência pode levar a desvios de conduta: diante da morosidade do trânsito pode-se ficar nervoso, enfadar-se, xingar, esbravejar, mas ao colocar racionalidade nesse sentimento – já que não há alternativa para escapar do engarrafamento –, pode-se colocar uma boa música para relaxar ou ouvir um podcast sobre educação comportamental dos filhos, etc., e com isso evita-se a absolutização dos sentimentos em detrimento de opções mais razoáveis.
2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem
A afetividade facilita a ação voluntária: uma jovem que por gostar de animais decide estudar veterinária, fará com determinação e entusiasmo esse curso. Portanto, mais do que eliminar as paixões ou dificultá-las, se trata de encaminhá-las à realização do bem, que é aproveitar-se não apenas da força de vontade, mas também do apetite sensível para agir: “O meu coração e a minha carne gritam de alegria para o Deus vivo”, diz o Salmo 84,3. Não se deve suprimir ou as paixões como se fossem algo mau ou recusável. Claro, se as paixões ou sentimentos se desordenarem e levarem a não cumprir o que é certo, será preciso corrigi-los porque nem tudo o que sentimos será bom ou reto. Isso significa que é preciso orientar ou dirigir a emotividade para os bens verdadeiros: o amor a Deus e ao próximo, por exemplo.
É um engano fazer equivaler autenticidade com espontaneidade, ao julgar ser autêntica a pessoa que, sem pensar, segue espontaneamente seus sentimentos. Por exemplo, alguém com forte temperamento (colérico) poderá ser espontaneamente bruto com quem, sem querer, venha a empurrá-lo no metrô; ou será autenticamente humano se souber perdoar ao conscientizar-se da situação em que ambos se encontram. A espontaneidade irracional é própria dos animais, e a autenticidade humana é fruto do discernimento em seguir aquilo que se percebe como correto. O conceito errado de “espontaneidade” e “naturalidade” com frequência fere o decoro, rebaixa a própria sensibilidade e animaliza as reações afetivas. Por isso, os pais devem transmitir aos filhos uma atitude de recusa à vulgaridade, não apenas em questões de cunho sensual, mas na escolha de formas de divertimento ou entretenimento, no modo de portar-se ou vestir-se em casa… O mesmo acontece com a liberdade que, sem ética ou sem critérios de discernimento entre o bem e o mal, deixa de ser autêntica para se tornar libertinagem ou puro individualismo (a liberdade é autêntica quando se conforma com a verdade). A educação da afetividade não se identifica com a educação da sexualidade, pois esta é apenas uma parte do campo emocional, que certamente deve ser educada em ambiente familiar de confiança e por meio da educação dos sentimentos e crescimento em virtudes.
3 – Os sentimentos se educam desde a infância
Cabe aos pais normalizar os afetos dos filhos ao ensiná-los a manifestar seus sentimentos de modo proporcional à realidade que os despertou: se perdeu um jogo ou não teve a refeição que esperava, deverá ser ajudado a controlar o sentimento de raiva e compreender que a causa dessa ira é má por ser egoísta, injusta, desproporcionada e mal-agradecida. A morte de uma pessoa querida ou a notícia de uma doença inesperada torna-se ocasião para ensinar a ser forte e controlar os sentimentos ao aceitar os acontecimentos, pois se Deus o permitiu será para um bem maior, mesmo que no momento não se compreenda isso. Diante de uma reação de medo, antipatia ou indiferença pelos que sofrem, os pais devem abordar o tema com o filho para ajudá-lo a pôr os afetos em seu lugar: não admitir medos bobos, saber que desprezar uma pessoa porque os sentimentos (que são irracionais) não se simpatizaram com ela é uma injustiça, não ter misericórdia nem se condoer diante do sofrimento de alguém é inumano… A educação sentimental permite que na adolescência e juventude os filhos superem com facilidade qualquer crise sentimental, pois o equilíbrio emocional adquirido favorece a harmonia dos sentimentos, o crescimento de hábitos bons e o fortalecimento da vontade.
4 – Sentir alegria em agir corretamente
Os pais devem procurar que os filhos desfrutem ao fazer o bem, e isso se consegue com a educação dos sentimentos, especialmente durante a infância, que é o período em que se formam os hábitos bons ou ruins. Os afetos são um poderoso motor para a ação, pois tendem ao que mais agrada e fogem do que desagrada. Educar os sentimentos é fazer com que as tendências naturais coincidam com o bem da pessoa: se dedicar um tempo ao estudo ou à leitura fora do horário escolar é um bem a ser alcançado, o quanto antes é necessário ser criativo para estimular a criança a que aprenda a ter gosto em cumprir esse horário, mesmo que tenha que superar um sentimento inicial de desagrado. Fazer a criança e o adolescente perceber, com calma e insistente paciência, a fealdade da ação de esparramar-se por horas no sofá para ver televisão, será para que não pratique essa ação e aproveite melhor o tempo. Se os afetos conduzem a criança a fugir do dever de ordenar seus brinquedos, roupas ou enxugar o box após o banho, deverá ser esclarecida de que não deve se deixar levar pela preguiça ou comodismo, mesmo que no início seja necessário aplicar alguma medida corretiva. Os pais podem ter a certeza de que, se insistirem com carinhosa paciência, chegará um momento em que a criança passará a fazer espontaneamente o que deve ser feito, sem necessidade de grandes raciocínios ou súplicas, e o fará com gosto e sentirá desagrado em agir erradamente.
5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade
A criança e o adolescente precisam reconhecer seus próprios sentimentos. Para isso, os pais podem valer-se das histórias oferecidas pela literatura ou pelo cinema, pois atuam fortemente sobre os sentimentos e tornam mais fácil aprender a dar respostas sentimentais ou afetivas de modo proporcionado ao fato que as desencadeou. As narrativas lidas ou ouvidas movem os sentimentos em determinada direção, sendo grande a influência delas nas crianças (daí a importância de ler para elas os clássicos contos infantis, pois materializam o bem ou o mal em seus diferentes personagens). As cenas de uma história de aventura, suspense ou romântica contribuem para reforçar os sentimentos adequados a cada situação: indignação frente à injustiça, compaixão e solidariedade pelos sofrimentos de alguém, admiração diante de atos de fortaleza, encantamento pelo que é belo, o perdão como compreensão da debilidade humana, aprender o que é amar frente a uma cena fidelidade ao cônjuge… As boas histórias educam o gosto estético, previnem contra a falta de tom humano que por vezes degenera em vulgaridades, aumenta o senso crítico ou a capacidade de avaliar a qualidade das narrativas.
6 – Educar o coração
A educação das emoções fomenta nos filhos um coração magnânimo, capaz de amar verdadeiramente a Deus e as pessoas, e torna possível perceber as necessidades e preocupações dos demais. Um ambiente sereno e de exigência contribui para dar confiança e estabilidade ao complexo mundo dos sentimentos. Se os filhos se sentem queridos incondicionalmente, se comprovam que agir bem é motivo de alegria para seus pais, que seus erros não levam à perda da confiança neles e são corrigidos com carinho, terão facilitada a sinceridade, crescerão em clima interior de ordem e sadia manifestação afetiva. E certamente saberão desenvolver sentimentos positivos de compreensão, alegria e confiança para superar as zangas, birras, invejas, egoísmos e preguiças, atitudes que por tirarem a paz e a harmonia da alma serão entendidas como convite para ações concretas como pedir desculpa, perdoar, dedicar tempo aos demais…
A vida de oração e de trato filial com Deus é condição importante para ordenar os afetos do coração e assegurar a capacidade de amar verdadeiramente e de ser generosos. Tem enobrecido o coração, que se converte em depósito de imensas riquezas, aquele que luta contra os sentimentos de egoísmo e de vaidade, quem controla a imaginação e a memória para colocar os cinco sentidos naquilo que faz, quem tem autodomínio para moderar seu apetite nas refeições, quem fomenta convivência amável com os desagradáveis, quem solidariza-se diante das necessidades dos demais…
O coração é um motor que deve ser educado, cuidado e afinado para orientar toda a sua força na direção do bem. Como vimos, isso se consegue ao lutar diariamente em pequenas coisas para vencer o apego à comodidade, ao egoísmo de pensar só em si, a tendência à exaltação pessoal… Assim, pouco a pouco o coração vai se tornando magnânimo e capaz de dedicar os seus melhores esforços à execução de grandes ideais ao serviço do próximo.
Texto produzido e adaptado por Ari Esteves com base em aulas de Luis Romera Oñate, da Pontificia Università della Santa Croce (Roma); e do artigo “Educar o coração”, de J.M. Martín e J. Verdiá, em https://opusdei.org/pt-br/article/educar-o-coracao/
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