1 – O que é a mentira? 2 – A mentira nas crianças pequenas. 3 – A mentira na adolescência. 4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade. 5 – Não dramatizar se seu filho mentiu. 6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira. 7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

1 – O que é a mentira?

    Verdade é a adequação entre a mente e a realidade, diz a definição clássica. Portanto, a mentira consiste em pensar uma coisa diferente da realidade, com a intenção de enganar. Parece mais fácil ocultar a verdade do que enfrentar suas consequências. A mentira surge como atrativo para mudar a realidade e buscar benefício próprio. A gravidade da mentira é medida pelas consequências que produz. O poder da mentira faz com que existam mitômanos ou pessoas que mentem compulsivamente para construir um mundo irreal com suas próprias falsidades, o que pode trazer até consequências psicóticas porque faz perder a referência da verdade. Distorcer, aumentar ou diminuir a realidade; dissimular uma situação, não fazer o que se diz, prometer o que não irá cumprir, utilizar-se de ambiguidades para confundir, ocorrem como meios para fugir de responsabilidades, evitar punições, ficar bem com os demais, auferir ganhos, entre outras motivações.

    A veritas é a virtude baseada na tendência de manifestar-se como se é, ou manifestar-se sobre a realidade tal como ela é. Essa virtude faz parte da autenticidade que deve iluminar qualquer pessoa; autenticidade que é contraposta ao artificialismo da mentira, pois reflete coerência própria da luz da verdade, e está ligada à autorrealização humana, que só ocorre quando a ação é moralmente boa. Os pais devem educar as crianças desde pequenas para que sejam autênticas, verazes, pois seus filhos, quando forem adultos, saberão dizer um não bem grande à corrupção e ao ganho fácil e desonesto.

2 – A mentira nas crianças pequenas

    Assim como os adultos, as crianças podem mentir por diversas razões: não desapontar os pais, conquistar algo que desejam, fugir das responsabilidades, chamar a atenção para impressionar, evitar castigos. Também podem mentir para demonstrar desejos ou algo que as incomodam. Observar se a mentira da criança é intencional ou não. Depois, procure compreender se os motivos que a levaram a distorcer os fatos foram a angústia, frustração ou medo. Isso não significa que você é conivente com a mentira, mas que pretende conversar de maneira franca sobre as consequências da mentira, porque isso é fundamental para o desenvolvimento da personalidade da criança, que precisa aprender desde cedo que a mentira é indesejada, seja qual for o motivo, e para que esse defeito não se torne recorrente. Mesmo que, por vezes, a situação pareça cômica, deixar claro que mentir é errado, que prejudica a quem conta e aos demais, além de abalar a confiança e afetar o relacionamento.

    Até a idade de 5 ou 6 anos, a mentira da criança pode representar uma certa confusão entre realidade e imaginação (ou fantasia), e a imaginação se torna tão viva que a criança chega a falar consigo mesma ou manter diálogos com amigos imaginários: tudo isso faz parte do desenvolvimento do pensamento. Após os 6 anos as fantasias começam a rarear. Aos 7 anos a criança já tem consciência do que é verdade ou mentira, sendo esta, portanto, intencional. Então, precisa ser relembrada que a mentira prejudica os outros e trai a confiança que depositam nela. Entre 7 e 8 anos, a criança vive um período de ostentação e autoafirmação, e ao desejar ser a melhor em casa e na escola pode mentir em algo. A partir dos 10 anos, a mentira surge comumente para fugir de responsabilidades.

3 – A mentira na adolescência

    Mentiras na adolescência preocupam mais porque nesta idade a consciência e o querer da vontade estão mais desenvolvidos. Mas isso não significa que o adolescente seja um mentiroso compulsivo: apenas vive intensamente e tem dificuldade para lidar com as frustrações, e porque não quer decepcionar. Por vezes, quer guardar algum segredo para preservar a própria intimidade ou conquistar independência: pode não contar que foi à casa de um amigo que os pais não consideram boa amizade, a fim de afirmar sua autonomia.

    Mesmo que compreenda a diferença entre verdade e mentira, isso não é suficiente para impedir que o adolescente não diga alguma inverdade para impressionar. Se ele planeja algo que parece ousado demais, dizer simplesmente um “não” é pouco razoável: reflita com ele sobre as razões que tornam seu plano inconveniente.

4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade

    O modo como os adultos dizem as coisas podem influenciar a imagem e a estima que a criança tem de si, e isso pode afetar-lhe o caráter e a personalidade de forma positiva ou negativa. Há forte conexão entre o modo como a criança se sente e como se comporta: se a chamam de mentirosa, poderá sentir que não há outro remédio senão seguir por essa via; se é admirada e respeitada, agirá tendo presente esses valores. Fomentar a autoestima do filho torna-o seguro de si, e sem necessidade de mentir para se autoafirmar: ressaltar à criança que as pessoas verazes são mais estimadas.

    Nunca rotule de mentiroso seu filho, porque este não é seu modo habitual de ser. Demonstre confiança nele, que não é um mitômano, e considere a mentira como um incidente passageiro ou gafe que ele deve retificar. Se o filho reconheceu que mentiu, valorize esse fato.

    Os adultos têm um papel importante para educar a criança na verdade e honestidade, ao deixar claro desde muito cedo que falsidades e pequenos furtos nunca serão aceitos. A criança pode mentir porque observa o comportamento dos adultos, que são modelos ou espelhos para elas. Mentiras leves também são um mau exemplo: dizer para a esposa que você não está em casa, a fim de não atender o telefone, é mentira; se você riscou o móvel da casa e pediu para a criança não contar isso à mãe, é outra falsidade. Pais que mentem terão filhos mentirosos.

    A verdade nem sempre é boa de se ouvir, mas não há outro remédio. Esteja preparado para entender o que de fato aconteceu, tendo presente que todos somos capazes de cometer desatinos, se não contarmos com a ajuda de Deus e dos demais, pois assim seremos compreensíveis com os erros dos outros. Entenda por que a criança mentiu: medo, frustração, fantasia, chamar atenção. Depois, acolher a criança com respeito e explicar a ela que não agiu corretamente.

    O clima de confiança faz a criança se sentir confortável e sem medo de contar a verdade. Conversar muito com os filhos e criar momentos lúdicos em família, como brincar com eles, assistir juntos desenhos ou filmes infantis e ler antes de dormir, ajudam a criar um clima de confiança e de empatia que evitam mentiras para impressionar os pais.

    Não minta para as crianças! Para construir uma relação de confiança, os pais devem ser verazes: se não pretendem comprar algo que a criança pede, não diga que “na volta farão isso”, a fim de que ela esqueça o pedido, e sabendo que não comprarão. É melhor informar que a compra não é necessária, e que deverá aprender a esperar por outra ocasião: Natal, aniversário ou outra festa.

    Não invada a intimidade da criança quando ela não se sente à vontade para tratar determinados assuntos. Por vezes, é melhor mostrar-se acolhedor e deixar-se enganar uma ou outra vez a fim de demonstrar confiança para com a criança que, se mentiu, ficará dolorida por ter traído a confiança que os pais depositam nela.

5 – Não dramatizar se seu filho mentiu

    Se você flagrou seu filho contando uma mentira, tente manter a calma. Embora o adolescente não seja mais uma criança, ainda é um ser humano em formação. Portanto, cuidado com suas reações ao ouvir uma mentira. A criança poderá se sentir insegura e amedrontada se os adultos ficarem nervosos ou agitados, e terá mais dificuldade para assumir a mentira. Não é preciso aceitar as mentiras dos filhos, mas reajam com calma. Se os nervos estiverem à flor da pele, dê um tempo e fale mais tarde ou no dia seguinte que foi errado o comportamento do dia interior, e que se tivesse dito a verdade não precisaria temer nenhuma reação ruim.

    Conversar sobre o motivo que levou a mentir torna-se ocasião para dialogar. Fuja de frases do tipo “você falhou comigo” ou “não vou confiar mais em você”, muito próprias para o teatro de melodramas. Faça a criança ver que se tivesse dito a verdade seria ajudada a consertar o erro.

    Não crie armadilhas para contradizer a criança: ao perceber que ela está mentindo, fale abertamente sobre o assunto. Se os pais sabem que o filho não fez a tarefa da escola, em vez de perguntar se fez a lição, perguntar sobre o motivo de não ter feito. Se a criança de 4 a 5 anos traz da escola um objeto diferente e afirma que ganhou ou achou, confirmar a realidade do fato e, se retirou da carteira escolar de alguém, dizer que aquilo não pertence a ela, e que deve devolver no mesmo lugar. Se tiver dúvida sobre a história da criança, peça para contar de novo horas mais tarde e compare as versões.

    Os pais conhecem bem os filhos e logo percebem se estão mentindo: não finja que não percebeu, mas faça um comentário enaltecendo a imaginação fértil da criança, que perceberá ter inventado a história. Um garoto ao retornar da escola contava fatos irreais que afirmava ter realizado. Os pais, que não queriam chamá-lo de mentiroso, combinaram entre si e com o filho que diariamente, durante o jantar, cada um – pai, mãe e filho – contaria um fato ocorrido durante o dia, e uma história inventada. E assim faziam todas as noites. E quando a criança retornava da escola e contava algo fantasioso, perguntavam se a narrativa fazia parte das inventadas. O garoto pensava em silêncio e respondia que era das inventadas, e assim foi se corrigindo sem nunca receber a pecha de mentiroso.

6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira

    Muitas crianças acham que a mentira vale a pena porque pode evitar um castigo ou repreensão. O clima de medo é prejudicial. Caso os pais descubram a verdade, não usem de violência, não gritem, não percam a cabeça. Conversem sobre as consequências da mentira; expliquem que a pessoa mentirosa quebra a confiança que nela se deposita, que magoa as pessoas. Dar à criança a oportunidade de corrigir o erro, de reparar a injustiça que fez, é mais eficiente do que aplicar um castigo, além de contribuir de maneira positiva para o amadurecimento emocional da criança.

    Não seja um fiscal rígido que impossibilite o diálogo com os filhos. Talvez ele tenha mentido para não envergonhar-se ou envergonhar os pais. Quanto mais punitivo forem os pais, maior é a chance da criança ou adolescente mentir para não ser punido, e não aprenderá com os próprios erros. Ao invés de punir, escute-o, compreenda o motivo da mentira e explique com exemplos as consequências das inverdades, que sempre têm pernas curtas. Ressalte os benefícios da sinceridade e os prejuízos da insinceridade na formação do caráter e da personalidade.

7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

    Assistir com os filhos filmes que revelam como a mentira é destrutiva. Muitos roteiros são construídos a partir de uma inverdade que enreda e afunda os personagens em espiral negativa, sendo que o remédio teria sido dizer a verdade. Livros também ajudam abordar o tema da mentira, e são uma ótima ferramenta para ensinar valores e modelos de conduta de uma forma lúdica. A leitura auxilia na introdução de temas espinhosos quando não se sabe por onde começar. Leiam para as crianças pequenas, e depois conversem sobre como agiu a mentira na história. Se a criança souber ler, proponha uma leitura individual e depois reflita com ela sobre o livro.

    Sugestões de leituras: “A verdade segundo Arthur”, de Tim Hopgood. Arthur resolveu fazer o que sua mãe havia proibido: dar uma volta na bicicleta de seu irmão mais velho, e acabou riscando um carro estacionado na frente da casa. Para fugir da responsabilidade inventou uma série de histórias fantásticas que não convenceu ninguém.

    “Pig, o Travesso”, de Aaron Blabey. Trata-se de uma fábula onde o cachorrinho egoísta,  malcriado e ganancioso conta mentiras e vive culpando Tobias, um cão da raça salsicha, fiel e paciente amigo que não desiste de buscar algo de bom no Pig.

    “Pinóquio”, de Carlo Collodi. É clássica a história do boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Suas mentiras fazem o nariz crescer, o que demonstra o poder deformante da mentira. A história é para crianças de todas as idades.

    “O menino e o lobo”, de Esopo, é fábula onde um menino cuidador de um rebanho de ovelhas, que se divertia ao alarmar os moradores da vila ao mentir que seu rebanho estava sendo atacado por um lobo, a fim de que viessem acudi-lo. Certo dia, porém, o rebanho realmente foi atacado, e o menino gritou por ajuda, mas ninguém veio, pois julgavam que se tratava novamente de uma mentira.

Texto elaborado por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br

Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

O Autor

Gostou deste Boletim?

Se puder contribuir com nosso trabalho, envie sua contribuição para o PIX: 

ariesteves.pedagogo@gmail.com