1 – Não basta ao homem seguir os instintos. 2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade. 3 – As várias dimensões do crescer para dentro. 4 – Viver para um ideal grande.

1 – Não basta ao homem seguir os instintos

         A vida moderna pode tornar a pessoa inquieta, preocupada com o resultado de muitas coisas, nem sempre as mais importantes. Em sua dimensão integral, o homem necessita crescer não apenas biologicamente, mas exercitar suas potencialidades psíquicas – entendimento, vontade e sentimentos –, e desenvolver-se espiritualmente, que é o mais importante, pois aqui reside o seu “eu”, fonte de todas as suas decisões sobre o caminho a seguir. Evidentemente, essas duas últimas dimensões não ocorrem ao animal, pois basta-lhe a primeira, que é seguir seus instintos para assegurar sua melhor forma de viver. Ao deixar-se levar por suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, buscar segurança e acasalar –, o animal atua bem, porque seus instintos orientam as suas ações para a conservação da espécie, e nada mais do que isso.

         Ao homem não lhe basta seguir os instintos, pois necessita idealizar projetos mais profundos, além de que seus instintos são inseguros e não lhe garantem a sobrevivência porque cada um procura apenas a sua satisfação, sem se importar com todo o organismo: o desejo de se alimentar pode impelir o diabético a comer os doces que não deveria, o desejo de beber leva alcóolatra a enxarcar-se de álcool, o sensual a alimentar as desordens da sexualidade.

2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade

         O espírito humano – o eu consciente – é que deve orientar as ações para a verdade. Ao não crescer espiritualmente, a vida estaciona no biológico e numa fraca psicologia que não dará respostas às questões mais profundas da alma humana: amor, liberdade, sentido da vida… Com um eu rebaixado não haverá inquietação ou busca de grandes ideais, mas apenas alegrias pontuais, pequenos momentos de satisfação dos sentidos e nada mais.

         Quem não interioriza grandes valores a perseguir acomoda-se no medíocre e narcotiza a consciência para não se inquietar a participar na construção de uma sociedade melhor, e fecha-se no egoísmo de pensar só em si mesmo, e nas pequenas satisfações que os instintos solicitam. A falta de valores gera uma interioridade estreita, unidimensional, conduzida pelos impulsos recebidos do exterior, pelo que diz a opinião pública em cada momento, e não por sonhos e ideais mais relevantes.

         O homem exterior teme o silêncio, o estar só para refletir e comprometer-se. Então, preenche o seu interior com o ruído em forma de muita música, de mil informações desencontradas, de impressões epidérmicas, curiosidades e opiniões da moda. Com isso, seu pensamento é pouco profundo, alimentado mais com imagens do que com textos escritos que podem conduzir ao fundo das questões.

         Como diz Servais Pinckaers, crescer para dentro não se confunde com a interioridade psicológica do homem ensimesmado em seus sentimentos, num fluxo e refluxo estéril, egoísta; nem na espécie de abrigo íntimo dos tímidos que se assustam com o mundo exterior carregado de lutas e exigências. A verdadeira interioridade é a moral, que é mais profunda e consiste na capacidade de acolher em si verdade e o bem até ficar fecundado por esses valores, gerando com isso ações que transformam a si e o mundo ao redor. Quando essa interioridade se abre a Deus mediante a oração e a consideração da filiação divina, ganha em profundidade nova e insondável, capaz de produzir obras imperecíveis e livres do egoísmo humano: a interioridade humana unida à divina não permanece encerrada em si mesma, mas alarga-se em grande espectro.

         Não se transforma o mundo com um mexer-se superficial, já que este é movido por ideias que nascem dentro de alguém, sejam de consumo ou de ânsias de poder e dinheiro, ou de ideias comprometidas com a verdade e o bem. Sem uma interioridade comprometida com a verdade não há matriz onde se gestam as melhores ações do homem. Todas as grandes obras da humanidade – seja no plano moral, literário ou científico –, foram gestadas no silêncio da vida espiritual de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Camões, Jeronime Legeune, Tomás de Aquino, Dostoiewisky, Shekespeare.

3 – As várias dimensões do crescer para dentro

         Ensina Pinckaers que a interioridade implica várias dimensões, sendo a primeira a profundidade ou capacidade de refletir e deixar para trás as impressões, sentimentos, ideias e representações superficiais, para penetrar no fundo das realidades humanas e das questões morais. Para fazer crescer dentro de si os grandes valores, é necessário meditar neles. Alfonso Quintás ensina que pensar com rigor é penetrar no núcleo de cada realidade ou acontecimento. Por exemplo, uma moça decidiu se casar e criar um lar com o seu marido. Surgiram problemas no decorrer da união e ela vai pedir ajuda à mãe, que diz: – Você quis se casar, agora agente. A mãe agiu bem ou foi profunda na questão? Aguentar é o termo correto?, pergunta Quintás. Aguentar o peso dos males como uma coluna aguenta o peso de um telhado não é próprio do ser humano. Para suportar uma situação é necessário pensar nos valores que estão em jogo. Ser fiel supõe uma atitude criadora, ativa, responsável, e não um simples e passivo aguentar, ensina Quintás. Em vista de um bem maior, a mãe poderia ter orientado a filha que para ser fiel e levar o lar adiante o lar teria que sacrificar algo, como o bem-estar, para seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra dada a Deus, ao marido e à sociedade, visando a formação dos filhos e reconquistar a alma do marido, levando-o ao céu. Porém, a mãe da moça por não ter uma interioridade rica, alimentada com a verdade sobre a família, foi infeliz no comentário infra-humano que fez: o “agora aguente”, não abriu à filha o caminho certo para a solução do problema.

         A segunda dimensão da interioridade é a altura. Porém, o elevar-se custa esforço e o moralmente baixo, a preguiça, por exemplo, não custa sacrifício algum. Por isso, para subir alto requer-se fortaleza para enfrentar-se consigo, humildade para reconhecer os próprios erros e fé em Deus. Quem não abraça um grande ideal e prefere a vida medíocre porque teme o sacrifício para construí-lo, não tem altura e voa como galinha e não como águia: o crescimento nas virtudes ajudará a conquistar a altura.

         A terceira dimensão da interioridade é a densidade. A superficialidade é leve porque lhe falta substância. O homem interior é de pensamento denso, resultado de paciente acúmulo no espírito e no coração das reflexões, experiências e esforços. É fruto da lenta aquisição das experiências da vida, do pensamento adquirido no estudo e nas leituras de boas obras literárias, na oração. Tudo isso eleva as ideias. Um livro é bom quando se presta à releitura. Quem não desenvolve o gosto por ler obras clássicas da literatura e prefere as notícias ou fofocas do dia a dia ou vídeos divertidos e fáceis, revela sintoma de preguiça mental. Quantos livros eu li neste mês ou no último ano? Não digo livros técnicos exigidos pela profissão, mas aqueles que buscamos com liberdade e fruto de um descanso criativo: A morte de Ivan Ilishit, de Tolstoi; O jogador, de Dostoiéwisk, Hamlet, de Shekspeare; entre tantos outros autores (Cronin, Ernest Emingway, Saint Éxpery).

         A quarta dimensão da interioridade é a amplitude de quem não se contenta com as impressões parciais, e se esforça para fugir do moralmente baixo. A amplitude permite compreender os diferentes pontos de vista e opiniões, às vezes opostas, e extrair delas ideias que enriquecem o espírito, e faz compreender também o pensamento de outras épocas da história para discernir nelas a continuidade viva da tradição espiritual.

4 – Viver para um ideal grande

         A realização de um ideal de felicidade que dá sentido à vida deve ser maior que toda esperança puramente humana, porque esta é finita e o homem necessita de uma felicidade que ultrapasse os umbrais desta vida: Deus. A questão do sentido e fim último da vida é chave para a felicidade, pois nada é mais difícil do que suportar um vazio na própria existência. O homem moderno perdeu o sentido de finalidade última de sua vida, e substituiu essa carência pelo simples evitar o sofrimento e desfrutar das pequenas e pontuais felicidades que a sociedade de consumo oferece.

         Crescer para dentro é uma dimensão essencial da ordem moral, e meio para escapar da visão unidimensional da vida. Possuir altura de pensamento, ter densidade ou capacidade de acumular na cabeça e no coração as reflexões e as experiências da vida, ganhar amplitude de alma e magnitude ou alargamento do espírito, leva a pessoa à melhor expressão de si mesma, e às ações para melhorar com seu esforço o entorno em que vive. Crescer para dentro, eis a questão. Só a experiência do silêncio e da oração faz amadurecer e desenvolver uma interioridade verdadeira: “Não se viam as plantas cobertas pela neve. E o agricultou, dono do campo, comentou jovialmente: “agora estão crescendo para dentro”. Pensei em ti, na tua forçosa inatividade. E, diz-me uma coisa: também cresces para dentro?” (Caminho, n.294).

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Texto produzido por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br, com base nas obras “Las fuentes de la moral cristiana”, de Servais Pinckaers, Ediciones Universidad de Navarra (Pamplona), 2007; e “Cómo formarse en ética a través de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madri, 1994. Imagem de Felix Mittermeier.

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