1 – Família e cultura. 2 – Pais que promovem atividades culturais. 3 – Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

1 – Família e cultura

         O contato com a arte é essencial para qualquer pessoa, especialmente na fase educacional da criança e do adolescente, pois amplia o conhecimento e torna a sensibilidade mais criativa e com capacidade de contemplação para atentar aos detalhes importantes da vida. A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura, exatamente por ser o ambiente mais próximo da pessoa, e o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para o belo, que tem algo de divino e inspira o coração para os bens mais altos.

         “Uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”, disse Gustave Thibon. Os pais precisam compreender que são os responsáveis pela cultura familiar, ao introduzir as crianças e os adolescente no mundo da arte, ampliando assim o seu universo de conhecimentos para bens mais altos do espírito.

         Cultura é um termo que sugere a ação de cultivar o espírito, sair do estado bruto, tal como se cultiva a terra ao tirar as pedras e abrolhos para que se possa colocar sementes selecionadas que produzam bons frutos. Para o espírito humano isso pode ser feito por meio da arte, que é a atividade criadora de beleza, e regida pelo sentido da estética.

2 – Pais que promovem atividades culturais

         Para fomentar a cultura familiar não é necessário ser rico, mas saber escolher o que é bom nas imensas possibilidades disponíveis na internet, na busca de livros em bibliotecas públicas, na seleção de vídeos, nos inúmeros encontros artísticos gratuitos que acontecem nos espaços públicos, em visitas às exposições na própria cidade, navegar em sites dos importantes museus europeus, entre outras opções.

         Os pais conseguem que seus filhos rapidamente se cultivem se eles, pais, forem cultivados: a qualidade da educação que oferecem será proporcional à qualidade da formação que possuem, porque o exemplo educa mais do que as palavras: “longo o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”, dizia Sêneca. O esforço para vencer a preguiça nos fins de semana, e estimular a família para o encontro com o belo, é uma obrigação moral dos pais. A falta de interesse e esforço dos pais pela formação cultural decepciona os filhos, que um dia se lamentarão, por exemplo, de não terem gosto pela leitura porque seus genitores agiram preguiçosamente nesse campo.

         O fascínio perante o belo eleva a alma para os bens espirituais. Ao apreciar um quadro, escultura, poesia ou peça musical, há uma elevação do espírito, uma sensação de alegria e êxtase capaz de sensibilizar o coração. A arte é “capaz de expressar e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Aliás, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão além da vida quotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto” (Bento, XVI, Audiência geral, 31-08-2011).

3 – Algumas iniciativas culturais o desfrute familiar

         A título de sugestão seguem algumas iniciativas que os pais podem promover, a fim de enriquecer o espírito de cada membro da família, que passará a produzir do que se alimentar e participará com boas ideias do debate cultural e social:

  • Filmes: em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Os enredos possibilitem o diálogo familiar sobre as atitudes dos personagens. As cenas muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, e com isso ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores servir-se dos afetos como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.
  • Teatro: o teatro é uma expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o autoconhecimento como para o conhecimento da vida e das demais pessoas. As boas peças teatrais, sejam presenciais ou em vídeos, nos colocam com intenso realismo diante do bem e do mal: em O Auto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, vemos a fidelidade de Penélope e de Ulisses; Macbeth ensina onde o desejo de poder pode levar uma pessoa; em Hamlet, vivenciamos a tragédia onde um príncipe busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, circunstâncias a que pode chegar a condição humana. Devido ao forte realismo do teatro, aprende-se por meio da experiência alheia.
  • Pintura: a pintura amplia a capacidade de apreciar as cores, luzes, sombras e formas dos mais variados seres, reais ou imaginários; permite viajar ao passado e descobrir hábitos e costumes de cada época; revela a sensibilidade de cada artista para o belo e para o detalhe… Os diferentes estilos pictóricos são um desafio para a imaginação dos pintores, extasiam e provocam a admiração dos apreciadores das imagens. Antes de ir a uma galeria de quadros com criança (poucas, para que não se distraiam ao brincar umas com as outras), entre no site da exposição e selecione junto com a criança os quadros que ela mais gostou, e no local criar uma espécie de jogo de encontrar; ao encontrar a obra, pergunte à criança que mais ela acrescentaria naquela pintura, a fim de que comece a se fixar em detalhes: lembre-se, não manifeste uma opinião negativa sobre o gosto da criança para não desconcertá-la ou inibi-la.
  • Escultura é a arte das formas espaciais em terceira dimensão que transforma a matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore) em arte plena de significado e senso estético. A escultura é pensada muitas vezes para embelezar espaços públicos ou áreas privadas. O encontro com uma escultura sempre provoca admiração porque retrata a capacidade criadora do artista, e a difícil arte de manejar instrumentos para dar “vida” às pedras e outros materiais inertes.
  • Livros de literatura: o amor pelos livros será um forte antídoto para as crianças se verem livres do vício de celulares, desde que os pais lutem também para serem bons leitores, e não se esparramem no sofá para ficar diante da TV. Fomentar a leitura de contos, romances e novelas oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. Com a leitura, os filhos desenvolverão uma sadia imaginação e se tornarão criativos e com grande força de expressão e inteligência para a compreensão de textos. Leia para as crianças pequenas, visite com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e as deixe escolher um livro. Inscreva seu filho ou filha na biblioteca pública do bairro.
  • Passear pelo campo ou por grandes parques para apreciar a natureza desperta o espírito de contemplação. O silêncio da natureza e seu entorno fará perceber o canto dos pássaros, conhecer os infinitos seres que vivem junto ao verde das plantas. Com isso, aprenderão a perceber a beleza nas coisas simples, e não na estrondosa agitação das telas que roubam o tempo da reflexão. Gaudí, o grande arquiteto espanhol, foi um apreciador da natureza e colocou seus elementos na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona.
  • Poesia: promover saraus ou tertúlias em casa para a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Dentre os que manuseiam a palavra, os poetas são os que melhor utilizam cada vocábulo, que para eles têm grande ressonância: cor, cheiro, sabor, musicalidade; eles transmitem seus sentimentos com palavras bem pensadas, artisticamente colocadas, e com isso todos aprendemos a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.
  • Música: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem a exaustão nas mídias ou em pancadões, principalmente em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo. Para isso, devem levar as crianças a audições musicais de diferentes gêneros (Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz…), seja ao vivo em salas ou locais públicos de apresentação gratuita ou de baixo custo, que ocorrem habitualmente nas grandes cidades. Com isso, as crianças saberão fugir da subcultura e de seus sucedâneos que ficam de moda, mas que depois são esquecidos, não sem causar grandes danos à sensibilidade estética.
  • Bate-papo familiar: outra forma para os pais promoverem o amor mútuo e a cultura entre seus familiares é, por exemplo, fazerem juntos ao menos uma das refeições diárias, por exemplo, a do jantar, onde todos possam falar ao trocar impressões do ocorrido no dia, ouvir em silêncio e com atenção a fala dos demais, olhar-se nos olhos. Assim, as crianças passam a saber como é o trabalho do pai ou da mãe, e isso as enriquecem e as fazem sentir-se valorizadas. Ter um horário fixo para essa refeição facilitará a que todos deixem outros compromissos para chegar pontualmente a ela. No bate-papo familiar sentados na sala ou em torno da mesa da cozinha, após a refeição e com a TV desligada, será o momento de transmitir o patrimônio cultural da família por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.
  • Tertúlia é o encontro entre familiares ou amigos para abordar de modo descontraído algum tema de interesse comum, ou simplesmente conversar, conviver descontraidamente, rir. As tertúlias são um grande recurso para transmitir apreciações artísticas, esportivas, culturais, musicais… Os pais, que não são os únicos responsáveis pelas tertúlias, podem convidar amigos ou parentes para narrar alguma prática esportiva, estudos, cantar ou tocar um instrumento musical, falar de viagens ou excursão ao exterior, colecionismo… Pode-se programar também sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos, e depois trocar impressões sobre eles.
  • Clube familiar: fomentar em casa ou em outro local (área do condomínio, praça, quadra da escola…) uma vez por semana (por exemplo, aos sábados pela manhã), um encontro onde meninos ou meninas da mesma idade, mas separadamente, possam brincar e conviver entre si, e estar junto com o pai (as meninas com a mãe), é algo ansiosamente esperado pelas crianças ao longo da semana. No clube aproveita-se para transmitir às criança, por meio de uma palestra de 15 minutos, o modo de viver alguma virtude na semana (ordem nos brinquedos e roupas, espírito de serviço ao ter uma tarefa para ajudar em casa diariamente, fomentar a generosidade ao doar um brinquedo a alguma criança pobre…). Depois, organiza-se uma prática esportiva ou jogo entre as crianças e termina o encontro com um lanche para repor as forças (cada um trouxe algo que compartilhará com os demais). Uma vez por mês, todos juntos (pais, mães, filhos e filhas) podem fazer uma visita cultural ou excursão para passar o dia fora, e fazem juntos uma refeição compartilhada. O clube infantil fomenta a convivência das crianças entre si e com seus pais. Muitos adultos testemunham que seus melhores amigos, com os quais mantêm vivamente contato até os dias atuais (e entre si vários se tornaram até padrinhos de casamento ou dos filhos), são aqueles que conheceram quando crianças no clube familiar; afirmam que os amigos e colegas que conheceram em outras situações (ensino médio, universidade, trabalho…) não formaram laços tão profundos quanto aos do clube familiar.

         Ficam registradas acima algumas atividades culturais que enriquecem o espírito e tornam mais felizes as pessoas, que já não sentirão necessidade de modos de entretenimento exagerados, sofisticados e caros. Essa elevação da alma faz desprender-se dos bens materiais a que todos somos bombardeados a todo momento a consumir. Outro benefício dessas atividades culturais, é que as crianças e adolescentes se libertarão do vício da chupeta eletrônica, que as tornam hiperativas, preguiçosas para pensar (é mais fácil receber tudo pronto das telas) e entediadas com a lentidão do mundo real, porque não tem um botão para apertar e mudar a cena.

Texto de Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br. Imagem de Olia Danilevich.

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