Ajudar a criança a compreender os motivos de suas ações facilita-lhe o esforço para agir bem e se sentir feliz com isso. A racionalidade ainda não se desenvolveu plenamente na criança, e por isso age motivada pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões). Cabe aos pais fazerem o papel da razão e da vontade dela por meio de explicações claras e acessíveis ou servindo-se de pequenas medidas corretivas. Assim, aos poucos ela passa a compreender como deve se comportar, as consequências de seus atos, ganha hábitos que esclarecerem a inteligência em desenvolvimento e fortalece a vontade para não se deixar dominar pelos afetos. A infância é o período mais propício para aprender a equilibrar a afetividade e não se conduzir apenas pelos sentimentos. A educação dos afetos na adolescência e juventude é bem mais difícil. Educar a afetividade não significa reprimi-la, mas integrá-la à razão e à vontade.
Na sociedade atual, valoriza-se excessivamente o êxito exterior — riqueza, fama e poder — e subestima-se o êxito interior, essencial para a verdadeira felicidade. A educação, influenciada por muitos pais e professores, foca sobretudo em resultados académicos, competências técnicas e sucesso profissional, negligenciando o desenvolvimento emocional e humano. Falta, nos programas educativos, uma formação que ajude crianças e jovens a lidar com medos, inseguranças, impulsividade e emoções negativas como ira, inveja e ciúmes, promovendo maturidade, autocontrole e resiliência.
Muitas crianças sonham com a profissão que terão, mas desconhecem que tipo de pessoa devem tornar-se, pois a educação valoriza apenas conquistas externas. Os êxitos exteriores não se sustentam se a personalidade for malformada. O ser humano nasce imperfeito e tem como tarefa desenvolver plenamente as suas capacidades, especialmente inteligência e vontade, procurando conhecer e amar o bem e a verdade, e educar seus afetos para que se inclinem ao bem proposto pela inteligência. Cada ação influencia o mundo e molda o caráter: boas ações beneficiam o indivíduo e a sociedade; e as más ações prejudicam ambos. A educação deve ensinar a distinguir o bem do mal, refletir antes de agir para escolher as melhores atitudes.
A maturidade psicológica resulta da harmonia entre afetividade (coração), inteligência e vontade (cabeça), com a primeira apoiando as faculdades superiores. Esta harmonia deve ser construída desde cedo, através de atos guiados pela razão. Os educadores devem ajudar as crianças a refletir sobre os próprios sentimentos, avaliando se estes são adequados e se as ações foram corretas. Esse exercício fortalece a vontade e ajuda a controlar a influência das emoções. Com prática e orientação, é possível alcançar a harmonia hierárquica entre razão, vontade e afetividade, surgindo assim as qualidades da maturidade.
A educação para a maturidade psicológica visa desenvolver todas as faculdades — inteligência, vontade, afetividade, imaginação, memória e percepção — e harmonizá-las sob a liderança da razão e da vontade. A formação da razão implica refletir antes e depois de agir, analisando causas e consequências, o que conduz ao autoconhecimento e à melhoria contínua. Quanto mais cedo esse hábito for adquirido, mais firme se torna, funcionando como um “piloto automático” para agir corretamente.
Educar a vontade para dominar a afetividade significa motivar para realizar o que é correto, mesmo que seja difícil ou desagradável no momento. Durante a infância e adolescência, a afetividade é mais forte, levando à busca de prazer imediato fomentado pelo gosto ou sentimentos, por exemplo, comer doces o dia inteiro, ficar nas telas digitais o tempo todo e não cumprir suas tarefas… O objetivo é alinhar afetividade com a razão e vontade, para que o prazer venha ao fazer o que é certo. Mesmo quando se treina a vontade com objetivos superficiais, como o esporte, ou por meio de pequenas tarefas, como cumprir os encargos familiares, esses esforços fortalecem a criança para desafios maiores, como superar medos, inseguranças e preguiças, resultados de deixar-se levar apenas pelos sentimentos.
O pensamento, a imaginação, a memória, a percepção e a afetividade, junto com a vontade, formam as funções psíquicas humanas. Quanto mais orientadas pela razão, mais contribuem para a felicidade. Porém, guiadas sobretudo pela afetividade, geram conflitos. Coordenar estas funções exige treino psicológico, apoio e motivação constantes para não se deixar levar apenas pelo prazenteiro ou agradável. Os pais devem estar atentos para suprir o que a educação escolar atual não consegue fazer.
Texto elaborado por Ari Esteves com base no livro “Maturidade psicológica – A educação da afetividade”, do psiquiatra espanhol Fernando Sarráis, publicado pela Cultor de Livros, em 2020.
Ariovaldo Esteves Roggerio
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