Um tabu da educação contemporânea é o medo de dizer não às crianças pelo receio de que frustrá-las causará traumas irreparáveis. A criança ao não ter desenvolvida a sua racionalidade necessita da direção dos pais para salvar-se de escolhas que lhe causem mal. O “não” é um parâmetro ou coordenada que a criança tem o direito de ouvir para evitar a ocorrência de algum prejuízo para ela, é bússola para não ficar à deriva num mar de possibilidades traiçoeiras.

         Um filho precisa ouvir o não para aprender a lidar com as negativas. A frustração é essencial para o desenvolvimento emocional. Proteger a criança de toda frustração, remover os obstáculos do caminho dela e dizer sempre sim aos seus desejos, a tornará emocionalmente frágil e incapaz de lidar com os desafios inevitáveis da vida familiar, escolar e social. O cérebro infantil necessita aprender a tolerar a frustração para se desenvolver resiliência emocional, tal como um músculo que necessita ser exercitado para não definhar.

         Ceder após uma birra transmite à criança que sua manipulação emocional é estratégia válida: se gritar, chorar ou fazer escândalo, o “não” se transformará em sim! Ninguém gosta de ver o filho chorando e fazendo escândalo no meio do supermercado, mas é o momento de ensinar a ele a grande lição da vida: nem sempre conseguimos o que queremos, e isso não é o fim do mundo.

         Um não precisa ser dito de forma amorosa, firme e explicativa. O não amoroso não é agressivo, autoritário, mas claro e acompanhado de empatia. Se a criança de 5 anos cada vez que vai ao shopping pede um brinquedo novo, pode-se dizer: – “Entendo que você quer esse brinquedo, mas hoje não vamos comprar porque você tem muitos brinquedos em casa e precisa valorizar os que já tem. No seu aniversário poderá escolher outro brinquedo”. A resposta foi educativa ao compreender o desejo da criança, mas atender esse sentimento seria uma desordem, e por isso ouviu um não dito de forma firme, educada e esclarecedora. O não amoroso valida o emocional da criança ao procurar entender a chateação dela, por exemplo, porque foi impedida de ficar acordada até mais tarde, mas não aprova o comportamento dela e explica que crianças precisam dormir cedo para crescerem saudáveis e não criarem hábitos corrosivos.

         Adolescente que entra em colapso emocional porque recebeu nota baixa e pensa em desistir da escola; ou porque se desentendeu com alguém de suas relações e fala em suicídio; ao não entrar na faculdade desejada diz que a vida não tem mais sentido, age assim porque passou a infância sem que nada lhe fosse negado e não desenvolveu tolerância à frustração. Nunca aprendeu a mudar de direção para recomeçar e tocar a vida adiante dentro das próprias possibilidades.

         Um “não” dito a torto e a direito, sem critério ou de qualquer maneira, deve ser evitado, não porque causará traumas, mas porque cansará a criança e criará nela resistência natural a expressões do tipo “não faça isso!”, “não pode”, “não vou deixar. Ter presente que a criança ao entrar na fase de afirmar a identidade testará os limites dos pais para conseguir mais autonomia, e os “nãos” indiscriminados ativarão automaticamente a resistência dela. Para não desgastar a força educativa do “não”, sempre que possível reformule positivamente suas expressões: ao invés de dizer “não corra”, diga: “ande devagar aqui dentro”; em vez de dizer “não grite”, diga “fale mais suave”; em vez de “não bata no seu cãozinho”, diga: “mãos são para acariciar”. Assim, se diz a mesma coisa e o ”não” amoroso, empático e educativo manterá sua força positiva e medicinal.

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