“Por que meu filho não me obedece? Por que ele não respeita limites? Por que parece que tudo o que eu falo entra por um ouvido e sai pelo outro?”
O problema não está na criança, diz a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa, mas na forma como se transmite disciplina e respeito. Hoje se confunde amor com permissividade e pensa-se que dizer “não” traumatiza os filhos. O resultado é uma geração de crianças e adolescentes que não sabe lidar com a frustração, não sabe o significado de responsabilidade, e acredita que o mundo gira ao redor deles. Porém, nunca é tarde para estabelecer as bases de uma educação sólida.
Ana Beatriz ensina 7 hábitos psicológicos que podem ajudar a educar os filhos. Não se trata de fórmulas mágicas, mas de princípios baseados em neurociência, psicologia do desenvolvimento e de experiências clínicas que podem mudar não apenas a relação com os filhos, mas o futuro deles como pessoas íntegras, responsáveis e respeitosas.
1. Consistência: o princípio mais negligenciado
Quando as regras mudam com frequência, porque dependem do humor dos pais, estabelece-se no cérebro da criança o caos absoluto, a insegurança e a ansiedade. O cérebro infantil está em constante processo de mapeamento do mundo, e para isso necessita de previsibilidade e de padrões de causa e efeito.
Quando os pais dizem “não” hoje e “sim” amanhã para o mesmo assunto; quando estabelecem uma regra e não a cumprem; quando ameaçam e nunca agem, estão desorganizando o sistema lógico dos filhos, tal como ficaria confuso o motorista que entrasse numa cidade onde as cores dos semáforos fossem aleatórias: o verde significaria algumas vezes “pare”, o vermelho “siga” e o amarelo “fique desatento”. As crianças se sentem confusas diante de pais inconsistentes e perdem a confiança neles: consistência não é rigidez, mas confiabilidade, e esta é a base de todo respeito.
2. O poder do “não” amoroso
Uma frase que virou tabu na educação contemporânea é que dizer não causa traumas irreparáveis nas crianças. Com isso, desenvolveu-se um medo coletivo de frustrar os filhos, ofertando a eles passe livre para o que desejarem. Mas eis uma verdade inconveniente: os filhos precisam enfrentar frustrações, pois são essenciais para o desenvolvimento emocional saudável. Sem isso, criam-se crianças emocionalmente frágeis, incapazes de lidar com os desafios. Existe uma diferença entre um “não” autoritário e um “não” amoroso: o não amoroso é firme, empático, explicativo, porque valida o sentimento da criança, e mantém vivo os limites. Os sentimentos devem ser validados diante de um motivo justo que chateou ou irritou a criança, sendo necessário compreender seu estado de ânimo. Porém, não o mau modo como ela manifesta seus sentimentos: -“Compreendo que você ficou chateado porque seu irmão quebrou o seu brinquedo. Mas não está certo você bater nele. O que vamos fazer é pedir a ele para que dê a você um dos brinquedos dele”. O bater no irmão não foi aprovado, mas o sentimento de desconsolo foi compreendido.
3. Consequências naturais e lógicas
Aqui está outro conceito transformador: consequências naturais e lógicas não são punições arbitrárias, baseadas no medo, mas consequências consistentes que ensinam a ser responsável devido ao binômio causa e efeito. A vida é excelente professora: se o adolescente esqueceu de levar o lanche ou o casaco para a escola, apesar de ter sido avisado de o fazer, não saia correndo até a escola para entregar o que foi esquecido. A consequência lógica de passar fome ou frio educará o cérebro para ser mais pronto em alertar sobre as consequências.
4. Os pais ensinam pelo exemplo
Não se ensina o que não se pratica! Os filhos aprendem muito mais com o que veem os pais fazerem do que com mil palavras que proferem. As crianças são espelhos que refletem seus pais: se os pais querem ensinar respeito, sejam respeitosos; se querem ensinar serenidade, sejam calmos; se querem que os filhos assumam responsabilidade, devem assumir as próprias. Pais que pedem desculpas, admitem seus erros e mostram vulnerabilidade, ensinam que errar é humano.
5. Comunicação conectada
Comunicação conectada exige dos pais escuta real, validação emocional e presença no lar. Antes de corrigir, conectem-se com o filho; antes de ensinar, mantenham olho no olho, escutem e entendam; antes de disciplinar, sintam as disposições da criança, pois se não forem boas no momento, aguardem que melhorem antes de corrigi-la.
6. Autonomia progressiva
Quanto mais os pais substituem os filhos nas tarefas que estes podem realizar, menos os preparam para a vida. Ensinar autonomia é como subir uma escada com a criança pela primeira vez; depois, ficar atrás dela e apenas acompanhar. Errar faz parte do processo de aprendizado. Porém, a proteção excessiva rouba as oportunidades de a criança crescer em autoconfiança, que é uma das maiores heranças que os pais podem transmitir aos filhos.
7. Rituais familiares
Rituais criam previsibilidade, segurança e conexão emocional. Não precisam ser complexos, mas simples e constantes para construir a identidade familiar: ler para a criança antes de dormir; ao chegar do trabalho, sentar-se no chão e brincar com ela por 15 minutos; o beijo e o abraço quando ela sai para a escola; partilhar todos juntos ao menos uma das refeições diárias, sem celular e televisão, para ouvir e falar… Todos esses hábitos constroem saudável memória afetiva na criança
Ao aplicar esses 7 hábitos com paciência, logo ocorrerão mudanças profundas no comportamento dos filhos, e também na relação e no futuro emocional deles.
Texto baseado no vídeo “7 hábitos psicológicos para ensinar disciplina e respeito aos seus filhos”, da psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa: https://www.youtube.com/watch?v=aLhAXBft4WA&t=9s. Imagem: ChatGPT.
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