Os primeiros anos de vida não são apenas uma fase de crescimento físico. Entre o nascimento e os sete anos, o cérebro da criança atravessa o período mais decisivo de toda a sua formação. É nesse tempo — e não apenas na adolescência ou na vida acadêmica — que se constrói a base emocional, relacional e cognitiva que acompanhará o indivíduo ao longo da vida.
A neurociência mostra que, nessa fase, o cérebro infantil funciona como uma matéria extremamente moldável. Cada experiência cotidiana — o tom de voz dos adultos, os abraços, os silêncios, os gritos, a presença ou a ausência, as rotinas da casa, o uso excessivo de telas digitais — vai deixando marcas profundas. A criança aprende não apenas conteúdos, mas formas de sentir, reagir, confiar e se relacionar com o mundo.
Vale que especialmente as mães (nessa fase, os cuidados maternais são muito importantes), pais e cuidadores façam pausas honestas para refletir: O que meu filho aprende com a maneira como falo com ele? O que ele sente quando chego cansada e impaciente? Que mensagens emocionais estou transmitindo nos momentos simples do dia?
O cérebro se constrói nas relações
Durante os primeiros anos, o cérebro cria milhões de conexões por segundo. Estudos do Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, mostram que as experiências precoces constroem literalmente a arquitetura cerebral. A criança não apenas cresce: ela vai sendo organizada por dentro, e os adultos próximos — pais, mães e cuidadores — têm papel central nesse processo.
Muito do que o cérebro aprende não vem de explicações ou discursos, mas das experiências repetidas. Quando a criança é acolhida, consolada, escutada e protegida, seu cérebro aprende segurança. Quando encontra rejeição constante, tensão ou indiferença, aprende alerta e defesa.
Isso acontece mesmo nos dias comuns, quando o adulto está cansado, distraído ou sobrecarregado. A criança registra o clima emocional do ambiente: calma ou caos, previsibilidade ou instabilidade, afeto ou distância.
Presença é mais importante que perfeição
Nenhuma mãe ou pai consegue acertar sempre. E não é isso que o cérebro infantil precisa. O que realmente constrói um desenvolvimento saudável é a presença emocional: responder ao chamado da criança, olhar nos olhos, escutar, acolher.
Na ciência do desenvolvimento, isso é chamado de interação afetiva — aquele diálogo silencioso em que a criança busca contato e o adulto responde. Um olhar que encontra outro olhar. Um choro que encontra colo. Um medo que encontra abraço. Essas pequenas trocas organizam circuitos cerebrais ligados à calma, à atenção e ao vínculo seguro.
Quando a criança chora e alguém a consola, o cérebro aprende: o mundo é seguro. Quando erra e não é humilhada, aprende: posso tentar de novo. Quando se assusta e é acolhida, aprende: não estou sozinha. Essas mensagens não ficam guardadas como lembranças narráveis, mas como memória emocional, que influencia toda a vida adulta.
O estresse infantil também ensina e cobra seu preço
Assim como aprende com o amor, o cérebro também aprende com o estresse. Gritos frequentes, tensão constante, pressa permanente, humilhações, violência verbal ou emocional ensinam a criança a viver em estado de alerta.
Nessas condições, o organismo libera cortisol, o hormônio do estresse. Em pequenas doses, ele é natural. Mas quando o estresse se torna repetido, o cérebro passa do modo de aprendizado para o modo de sobrevivência. A criança pode se tornar mais irritada, dispersa, ansiosa, chorosa ou excessivamente quieta. O corpo fala aquilo que ela ainda não consegue expressar em palavras.
Importante lembrar: o estresse não vem apenas de grandes traumas, mas também das pequenas atitudes repetidas todos os dias.
Sempre é possível reparar
A boa notícia é que o cérebro infantil é altamente plástico. Ele pode se reorganizar, aprender de novo e se acalmar quando encontra um adulto disponível e sereno. A ciência chama isso de corregulação: a criança aprende a regular suas emoções a partir da regulação do adulto.
Quando o adulto abaixa a voz, respira fundo, nomeia o que a criança sente e oferece contato físico, o cérebro infantil recebe uma mensagem poderosa: estou segura agora.
O lar não precisa ser perfeito. A infância não precisa ser livre de dificuldades. O que a criança realmente precisa é de um adulto que tente novamente: um olhar mais atento, um abraço mais demorado, uma escuta verdadeira.
Três cuidados essenciais para o cérebro infantil
Entre zero e sete anos, três elementos simples nutrem profundamente o desenvolvimento cerebral:
- Brincadeira livre, sem telas excessivas
- Linguagem viva: conversar, contar histórias, ler, nomear o mundo
- Contato físico afetuoso: abraços, carinho, presença corporal
Esses gestos não custam dinheiro, mas constroem a base emocional de toda uma vida.
No fim do dia pergunte-se, não para gerar culpa, mas afinar a consciência: – Meu filho escuta mais ordens apressadas ou sente que é escutado? A resposta pode doer — e justamente por isso pode abrir espaço para mudanças pequenas e possíveis. Sempre há tempo para recomeçar com um gesto mais gentil e um “estou aqui”.
Texto autoral inspirado em reflexões da psiquiatria e da neurociência do desenvolvimento, especialmente nas ideias divulgadas pela psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé. Vídeo de referência: “0 a 7 años: lo que haces hoy potencia o daña su cerebro” (YouTube).
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