Às vezes pensamos que formar uma pessoa é transmitir-lhe conhecimentos, princípios e ideias sobre como deve viver. Nesse sentido, uma pessoa bem formada seria aquela que conhece muitas verdades e sabe distinguir o certo do errado. Mas isso não basta. Podemos saber muito sobre o bem e, ainda assim, não viver de acordo com aquilo que sabemos. Podemos conhecer a justiça sem sermos justos, compreender a importância da temperança sem sermos temperantes, defender a verdade sem sermos verdadeiros. A formação humana é algo mais profundo do que a aquisição de conhecimentos.
Formar não é simplesmente acrescentar informações nem revestir a pessoa de uma aparência exterior. É transformar o próprio modo de ser. É fazer com que aquilo que conhecemos como bom passe, pouco a pouco, a fazer parte de nós. É nesse processo que entram as virtudes.
As virtudes nos configuram para o bem
As virtudes são qualidades estáveis que se formam através dos nossos atos. Quando repetimos livremente o bem, o nosso modo de agir vai transformando o nosso modo de ser. Aquilo que inicialmente exigia esforço pode tornar-se habitual; aquilo que era uma decisão difícil pode tornar-se uma resposta espontânea. Por isso, a pessoa verdadeiramente formada não é simplesmente aquela que faz o bem, mas aquela que se tornou capaz de querer o bem.
Há uma diferença importante entre cumprir uma boa regra e possuir o bem como parte da própria vida. Podemos agir corretamente porque alguém nos mandou, porque tememos uma consequência ou porque queremos corresponder às expectativas dos outros. Tudo isso pode ter valor. Mas a formação alcança uma profundidade maior quando a pessoa começa a fazer o bem porque reconhece que ele é bom e, por isso, deseja realizá-lo.
Desejar agir bem
O objetivo da formação é chegar a uma espécie de conaturalidade com o bem: fazer o bem não como quem suporta uma imposição exterior, mas como quem encontra nele algo que corresponde àquilo que verdadeiramente deseja ser. É nesse sentido que se pode compreender a conhecida frase de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres.”
Essa frase não significa que qualquer desejo seja bom ou que a liberdade consista em fazer tudo aquilo que nos apetece. Significa que, quando o amor está ordenado para o bem, deixa de existir uma oposição necessária entre aquilo que queremos e aquilo que devemos fazer.
A pessoa verdadeiramente formada chega, de certo modo, a fazer aquilo que quer porque aprendeu a querer aquilo que é bom. São Josemaria Escrivá exprimiu uma ideia semelhante ao falar de fazer as coisas “porque nos dá vontade”. Não se trata da vontade entendida como capricho ou impulso, mas da vontade que foi educada, fortalecida e orientada para o bem. É uma das formas mais altas da liberdade: querer livremente aquilo que é bom.
Formação e liberdade
Aqui encontramos uma relação fundamental. A formação precisa da liberdade. Mas a liberdade também precisa da formação. Sem liberdade não há verdadeira formação, porque ninguém se transforma profundamente apenas por imposição exterior. E sem formação, a liberdade corre o risco de ser apenas aparente.
Uma pessoa pode conservar a capacidade de escolher e, ainda assim, não ser verdadeiramente livre. Os vícios mostram isso com clareza. Quando determinados hábitos se tornam fortes, podem alterar o nosso modo de ver a realidade. Aquilo que é mau pode começar a parecer atraente; aquilo que é bom pode parecer difícil, pesado ou sem interesse.
A pessoa continua a escolher, mas a sua escolha já não nasce de um olhar inteiramente livre sobre a realidade. Os seus desejos e hábitos podem ter-se tornado tão fortes que condicionam aquilo que ela consegue querer. Há, então, uma liberdade exterior e uma liberdade interior. A primeira consiste em poder escolher. A segunda consiste em poder escolher bem.
A verdadeira liberdade não é simplesmente ausência de impedimentos. É a capacidade de orientar a própria vida para aquilo que reconhecemos como verdadeiro e bom. Para isso, é necessário que a inteligência veja corretamente e que a vontade esteja suficientemente formada para seguir aquilo que a inteligência reconhece.
É por isso que a formação não limita a liberdade. Forma a liberdade. Educar uma pessoa não significa escolher por ela, mas ajudá-la a tornar-se capaz de escolher por si mesma.
No começo, uma criança precisa de regras. Precisa que lhe digam o que deve fazer e o que deve evitar. Ainda não possui maturidade suficiente para compreender todas as razões. Aprende primeiro através da confiança, da repetição e da orientação daqueles que a educam.
Mas a educação não pode parar na obediência. O objetivo é que, progressivamente, a pessoa compreenda as razões do bem, adquira critérios próprios, forme bons hábitos e se torne capaz de decidir mesmo quando ninguém estiver a observá-la. É nesse momento que a regra exterior começa a transformar-se em norma interior. A pessoa já não precisa simplesmente de alguém que lhe diga: “faz isto”. Ela compreende por que deve fazê-lo e começa a desejá-lo. Passa da obediência à liberdade.
Da regra à virtude
As boas regras são necessárias. São como os andaimes de uma construção: ajudam a levantar a casa, protegem aquilo que está a ser construído e oferecem uma orientação segura. Mas os andaimes não são a casa. O objetivo da formação não é criar uma pessoa que precise de uma regra para cada decisão. É ajudá-la a adquirir uma disposição interior que lhe permita reconhecer e escolher o bem nas diferentes circunstâncias da vida.
Por isso, formar não é acumular normas. É formar o critério, a inteligência e a vontade. A pessoa bem formada não precisa de viver permanentemente sob vigilância. Aprendeu a reconhecer o bem, deseja realizá-lo e possui a força interior necessária para fazê-lo. É aí que as virtudes se tornam decisivas.
A virtude não é simplesmente um comportamento correto repetido muitas vezes. É uma transformação interior produzida pela repetição livre de atos bons. Cada escolha constrói alguma coisa em nós. Escolhemos a verdade e tornamo-nos mais verdadeiros. Escolhemos a justiça e tornamo-nos mais justos. Escolhemos a temperança e adquirimos maior liberdade diante dos nossos desejos. Escolhemos o bem e, pouco a pouco, tornamo-nos pessoas para quem o bem se torna mais natural.
A formação é, assim, uma obra silenciosa. Não acontece de uma só vez. Faz-se no tempo, através de pequenas escolhas, de erros corrigidos, de esforços repetidos e de recomeços. Primeiro aprendemos. Depois tentamos. Erramos. Somos corrigidos. Tentamos novamente. Até que pouco a pouco o que antes era difícil começa a tornar-se espontâneo. O que era regra transforma-se em convicção. A convicção transforma-se em hábito. E o hábito transforma-se numa maneira de ser. É assim que a pessoa se forma.
Ser livre para querer o bem
Santo Tomás de Aquino ajuda-nos a compreender a profundidade deste processo ao distinguir aquele que age como escravo daquele que age como filho. Quem evita o mal apenas porque ele foi proibido ainda depende fundamentalmente de uma ordem exterior. Mas quem evita o mal porque reconhece que ele é mau, porque compreendeu que não corresponde ao bem que deseja para si e para os outros, já possui uma liberdade diferente.
Não faz o bem apenas porque deve. Faz porque quer. Esta é talvez uma das metas mais elevadas da educação: chegar ao ponto em que o dever e o querer deixam de estar em permanente conflito. Não porque tudo aquilo que desejamos seja automaticamente bom, mas porque a própria vontade foi sendo educada.
A liberdade amadurece quando aprendemos a querer o que merece ser querido. Por isso, formar é libertar. Não é retirar à pessoa a possibilidade de escolher, mas ajudá-la a tornar-se capaz de escolher com verdade. Não é substituir a sua vontade pela vontade de outro, mas formar nela uma vontade suficientemente forte e lúcida para conduzir a própria vida. No fundo, a verdadeira formação não pretende produzir pessoas que simplesmente obedeçam. Pretende formar pessoas que compreendam, escolham e amem o bem; pessoas que não necessitam ser constantemente dirigidas desde fora porque adquiriram dentro de si uma direção. Ou seja, pessoas capazes de fazer aquilo que é bom mesmo quando ninguém as veem; pessoas cuja liberdade não esteja dominada pelos impulsos, pelos vícios ou pelas circunstâncias, mas orientada por uma inteligência que reconhece a realidade e por uma vontade que aprendeu a amá-la naquilo que ela tem de verdadeiro e bom.
Talvez seja este o sentido mais profundo de toda a formação humana: transformar pouco a pouco o nosso modo de conhecer, de julgar, de desejar e de agir, até que o bem deixe de ser apenas algo que reconhecemos como correto e passe a ser aquilo que livremente queremos. No início, alguém nos mostra o caminho. Depois, aprendemos a caminhar. Finalmente, tornamo-nos capazes de escolher o caminho por nós mesmos.
E então descobrimos que a verdadeira liberdade não consiste em fazer simplesmente o que nos apetece, mas em chegar a um ponto em que, ao fazer livremente aquilo que queremos, queremos aquilo que é bom. Essa é a liberdade de uma pessoa verdadeiramente formada.
Ideias extraídas do artigo “Fidelidad y formación en las virtudes – Algunas cuestiones de Teología Moral aplicadas a la formación, de Julio Diéguez, em https://pt.scribd.com/document/669041397/Formar-personas-libres-Dieguez
Siga o canal “Ari Esteves – Pedagogo” no WhatsApp, pois oferece conteúdos sobre educação do comportamento de crianças e adolescentes, virtudes humanas, literatura, entre outros: https://whatsapp.com/channel/0029VajxYZL9Bb5sDBqASU09
Gostou deste Boletim?
Se puder contribuir com nosso trabalho, envie sua contribuição para o PIX:
ariesteves.pedagogo@gmail.com

Chave Pix copiada!