Por que temer que os filhos se sintam frustrados ao lhes faltar algum meio material? Precisam aprender que ganhar a vida é custoso e terão de aceitar que há pessoas com maior inteligência, fortuna ou prestígio social; deverão enfrentar suas carências e limitações materiais ou humanas e assumir riscos, caso queiram empreender o que vale a pena e lidar com o fracasso sem que isso provoque um colapso na personalidade. O desejo de aplainar o caminho dos filhos para evitar o mínimo tropeço ou esforço debilita e os incapacita para enfrentar as dificuldades que encontrarão na universidade, no trabalho e nas relações com os demais. Só aprenderão a superar os obstáculos enfrentando-os.
Não é necessário que os filhos tenham de tudo prontamente, nem se deve ceder aos seus caprichos. Na vida há muitas coisas que podem esperar e outras que devem esperar; é preciso aprender a renunciar e a ser austeros, sóbrios. A atitude protecionista desvirtua a verdadeira educação, pois poupar os filhos de qualquer contrariedade os torna fracos diante do ambiente.
Ao invés da atitude protecionista, convém proporcionar aos filhos oportunidades para tomar decisões e assumir suas consequências, incentivando-os a resolver os seus pequenos problemas com fortaleza. É objetivo de qualquer tarefa educativa promover situações que favoreçam a autonomia pessoal do educando, tendo em conta que essa autonomia deve ser proporcional à capacidade para exercê-la. Não tem sentido dotar os filhos de meios econômicos ou materiais que não necessitam nem saibam como empregá-los com prudência, por exemplo, ao oferecer telas digitais como modos principais de entretenimento ou ignorar os conteúdos dos videogames que possuem.
Os pais não devem confundir felicidade com bem-estar, nem colocar seus esforços para que os filhos tenham muitas comodidades, ou que não sofram nenhuma contradição, pois não é um bem para eles encontrar tudo feito, sem ter que lutar para conseguir. O esforço é imprescindível para crescer, amadurecer e conduzir a vida com verdadeira liberdade, sem sucumbir diante das dificuldades.
A criança ou adolescente largado em seus gostos e inclinações desce ladeira abaixo e termina por transformar a liberdade em libertinagem, criando sérias dificuldades para realizar um projeto de vida que valha a pena. Amar os filhos é pô-los em condição de alcançar domínio sobre si mesmos; é fazer deles pessoas livres e responsáveis. Para isso, é necessário fixar limites e impor regras a serem cumpridas pelos filhos e pelos pais.
É necessário fomentar a autoexigência como meio para aprender a atuar retamente com independência dos pais. Educar é também propor virtudes como abnegação, laboriosidade, lealdade, sinceridade, ordem, apresentando-as de forma atrativa, mas sem diminuir suas exigências. Motivar os filhos para que façam tudo com perfeição, e sem exagerar ou dramatizar diante dos fracassos, mas ensinando a retirar deles experiências. Animar cada filho a ambicionar metas nobres sem temer o esforço.
Com paciência mostrar aos filhos quando agiram mal, não deixando passar a oportunidade de ensinar de distinguir o bem do mal e o que devem fazer ou evitar. Com raciocínios adequados à idade dos filhos, ajudá-los a se darem conta do que agrada a Deus e aos outros, e os motivos, para que formem uma consciência reta. A criança por natureza vive centrada em si e vai amadurecendo à medida em que compreende que ela não é o centro do universo, e quando começa a se abrir à realidade e aos outros. Assim, aprende a sacrificar-se pelos seus irmãos, a servir e a cumprir suas obrigações no lar, na escola e com Deus. Ensiná-las a obedecer e a renunciar seus caprichos. A missão dos pais é ajudar os filhos a dar o melhor de si, ainda que isso doa um pouco.
Com carinho, imaginação e fortaleza os pais devem ajudar os filhos a ganhar uma personalidade sólida e equilibrada. Com o tempo, os filhos compreenderão com mais profundidade o sentido das exigências dos pais, e os agradecerão por fazê-los sofrer um pouco, a fim de aprenderem a agir retamente. Os pais que procuram sinceramente o bem dos seus filhos, depois dar os conselhos oportunos, devem se retirar discretamente para que estes exercitem a sua liberdade.
Texto adaptado por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br, com base no capítulo “Educar para a vida”, de A. Villar, no livro “A educação em família”. Artigo disponível em https://odnmedia.s3.amazonaws.com/docs/educacacao_em_familia-pt.pdf. Imagem de All Murat Üral.
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Ariovaldo Esteves Roggerio
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