Em pleno século XXI e em tempos de inteligência artificial (IA), falar sobre o tema “cuidar-nos” parece algo de pouca relevância. Será que precisamos de outras pessoas para vivermos bem e sermos felizes? Será a inteligência artificial capaz de responder às necessidades do ser humano?
Esses questionamentos me vêm à mente quando escuto relatos de pessoas que estão utilizando a IA como conselheiro de relacionamento, terapeuta e mesmo companhia para conversar.
Confesso que sinto certa perplexidade ao ouvir esse tipo de comentário. Por outro lado, a leitura desse livro trouxe reflexões sobre a importância das relações humanas e em especial sobre o cuidado.
A autora inicia o tema com um relato de sua experiência pessoal como paciente. Aborda a dificuldade de aceitar a própria vulnerabilidade e como permitir-se ser cuidada fez toda a diferença em seu processo de convalescença. Ela faz uma provocação: “Será necessária uma lei que nos obrigue a cuidar uns dos outros ou seremos capazes de encontrar, dentro de nós mesmos, uma fonte ética natural que nos leve a servir aos demais?”.
Isabel cita o filósofo espanhol Higinio Marin, na sua obra Mundus, onde o cuidado é abordado como uma dimensão essencial do ser humano. Precisamos uns dos outros para o florescimento pessoal. Ao permitir ser cuidado, a pessoa proporciona condições para que o outro desenvolva atitudes e competências novas para o seu desenvolvimento pessoal.
O isolamento e a solidão estão nos levando a uma sobrecarga de sofrimento. A falta de sentido para a vida é um elemento que contribui para esse sofrimento. No processo de busca de sentido e de crescimento individual, a autora menciona a importância de reconhecer e aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa própria dor e a dor do outro.
De forma didática, Isabel Sanchez descreve 6 dimensões sobre as quais podemos edificar a nossa melhor versão:
- Autonomia. Estar aberto aos questionamentos que os outros fazem. Importante as “colisões” de ideias nesse processo;
- Interdependência: Âmbito dos vínculos fortes e saudáveis. Relação de confiança com outras pessoas que leva a uma segurança pessoal. Está relacionada com empatia;
- Aceitação pessoal: Conhecer e aceitar nossos pontos fortes. Libertar-se das comparações angustiantes;
- Crescimento pessoal: Necessidade desenvolvimento contínuo, viver abertos a novas experiências. Olhar para nós mesmos requer coragem e honestidade;
- Viver com sentido: Não temos apenas uma história, mas somos uma biografia escrita a partir de escolhas livres;
- Saber criar ambientes seguros: Viver bem tem muito a ver com viver bem acompanhado.
Será que a IA poderia oferecer o passo a passo, tipo checklist, de como alcançar essas 6 dimensões? Confesso que não tenho intimidade com a IA para fazer esse tipo de questionamento. Por outro lado, segundo relatórios da OMS, o cultivo das artes e das humanidades, o estudo da filosofia e da história, além de incidirem nas 6 dimensões, oferecem recursos para nos tornarmos cidadãos competentes e preparados, verdadeiros protagonistas na construção do nosso mundo.
Vivemos em uma era na qual se valoriza o que fazemos — e, com maior intensidade, aquilo que pode ser mensurado. No entanto, quando falamos de relações humanas e em especial do amor, estes não se traduzem em fazer. “Amar é colocar-se a disposição, abrir-se. Amar é confiar e deixar que conheçam as suas misérias. Para poder cuidar, é preciso conhecer. Ser amado é ser conhecido”
Texto de Graziela Moreto, que comenta o livro “Cuidar-nos. Em busca do equilíbrio entre a autonomia e a vulnerabilidade”, de Isabel Sánchez, Editora Cultor de Livros, em:https://pablogonzalezblasco.com.br/2026/02/27/cuidar-nos-em-busca-do-equilibrio-entre-a-autonomia-e-a-vulnerabilidade/
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