“Desejar saber é uma primeira etapa, mas saber desejar é refinada atitude. Entre um e outro vai a distância do canibal ao gourmet”, disse Affonso Romano de Sant’Anna.

         A experiência avassaladora da hiperconectividade com seus vídeos, memes, notícias, esportes, publicidades, entretenimentos, parece não ter limites e desvia o olhar para se deter em algo muitas vezes não procurado, mas que veio por último e captou a atenção.

         Os algoritmos, que hoje decidem para muita gente o que consumir, se não forem adestrados com rédeas curtas ao clicar o “não tenho interesse nisso”, se tornam verdadeiros algozes e canibais que devoram o tempo com informações inúteis, diminuem a capacidade de pensar profundamente, fazem perder o foco para o que vale a pena e tornam a vida insubstancial. A curiosidade sem freio empequenece o coração e leva a viver na superfície das coisas.

         Saber o que desejar requer silêncio reflexivo para examinar as qualidades pessoais que todos carregam em si, e que são únicas, irrepetíveis, e devem ser desenvolvidas para servir aos demais, sejam elas técnicas, científicas ou artísticas. É na reflexão interior que nasce o verdadeiro conhecimento e a maturidade pessoal para transformar os algoritmos e a inteligência artificial em aliados do aperfeiçoamento pessoal.

         A verdadeira interioridade é moral e não conduz ao isolamento egoísta de quem se fecha nos próprios interesses, mas torna a pessoa capaz de acolher a verdade e transformá-la em ações que mudam a própria vida e a dos demais. As grandes obras da humanidade foram gestadas na interioridade e no silêncio reflexivo de pessoas como Louis Pasteur, Dante Alighieri, Miguel de Cervantes, Luís de Camões, Thomas Aquino, Fiódor Dostoievsky, William Shakespeare e tantos outros.

         Não precisamos ser gênios para fazer algo que vale a pena, mas ser protagonista da própria história e não se despersonalizar ao imitar o que os outros fazem. Não ser conformista é o recado que o Papa Francisco deu aos jovens ao dizer para não “balconear a vida”, ou seja, não observar a vida passar desde a varanda, mas descer na arena de combate.

         Cabe a cada pessoa a tarefa de ser autora e protagonista de sua própria história, produzindo uma obra única, irrepetível. Para isso, a maturidade pessoal deve alcançar equilíbrio nas três dimensões humanas: intelectual, ao buscar conhecimentos profundos e verdadeiros; sentimental ao orientar os afetos para não ser dominado por eles; social, para agir com espírito de serviço e afã de melhorar o mundo ao redor de si.

         Fugir da lei do menor esforço ao selecionar bons conteúdos digitais. Educar ou conduzir os algoritmos e não ser conduzidos por eles; fazê-los trabalhar para aproximar palestras, vídeos, filmes ou podcasts de expertos que podem ajudar no aperfeiçoamento das próprias habilidades.

         Todos necessitam de uma missão ou tarefa que dê sentido à vida. Desenhar um projeto que transforme as convicções em ações concretas, sem visar as motivações egoístas que buscam apenas o benefício pessoal, mas o serviço aos demais. Toda tarefa nobre envolve riscos e traz a possibilidade de fracasso. Mas quem não tentar algo se torna um fracassado antes de começar. Sem um projeto, a pessoa se desorienta e passa a viver apenas de pequenos prazeres. A crise atual de sentido nasce da falta de ideais e de valores.

         Elementos para realizar um projeto de vida: melhorar a si mesmo por meio das virtudes, saber o que desejar, ter entusiasmo e esperança, buscar conselho, estudar… O estudo, que amplia a formação e desenvolve o discernimento, não está apenas em adquirir conhecimento técnico, mas em compreender melhor o ser humano e o mundo ao redor, seja por meio da leitura de bons livros ou dos recursos digitais de qualidade disponíveis na internet. A estudo unicamente profissional forma pessoas competentes em uma área, mas com visão pobre sobre a vida, a família, o casamento, a religião, Deus, o bem comum. A técnica é útil, mas não responde às grandes interrogações da existência humana.

         O crescimento pessoal enfrenta obstáculos como falta de tempo, comodismo ou outras dificuldades, que devem ser enfrentadas com paciência. Essas dificuldades não devem paralisar o crescimento interior. Como recordava Escrivá de Balaguer, assim como as plantas crescem por dentro quando estão cobertas pela neve, também o ser humano pode aproveitar as dificuldades para fortalecer a vida interior. O importante não é fazer muitas coisas, mas dedicar-se às mais importantes.

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