1 – Os sentimentos e paixões podem impedir de agir corretamente. 2 – Juízo de eleição e juízo de consciência podem entrar em conflito. 3 – Onde entram as virtudes? 4 – Só a inteligência é capaz de ver todos os aspectos da realidade. 5 – A pessoa virtuosa não se deixa enganar pelas tendências interiores. 6 – A afetividade da pessoa bem formada deseja o que convém.
1 – Os sentimentos e paixões podem impedir de agir corretamente
Dizer que uma vontade é débil ou fraca significa afirmar que débil ou fraca é a pessoa que por meio de sua inteligência e vontade atuou de modo errado e não de acordo com um juízo de valor correto, pois se deixou influenciar por sentimentos ou paixões contrárias à verdade que deveria seguir.
Quando há reta intenção, o juízo de eleição tende a ser bem realizado, mas pode haver falha se a razão sofrer a influência de tendências sensíveis que dificultem distinguir o valor das coisas, tornando equivocada a eleição: por exemplo, ao invés de dizer a verdade alguém decide mentir para ficar bem diante dos amigos ou para obter vantagem econômica.
2 – Juízo de eleição e juízo de consciência podem entrar em conflito
Sentir atração pela verdade é tendência natural de todos os homens, pois ninguém gosta de errar ou ser enganado. Porém, a pessoa pode sentir atração pelo prestígio de modo a conflitar o juízo de eleição com o juízo de consciência, que são diferentes, mesmo que pertençam à razão prática. O mal ocorre quando o juízo de consciência diz que algo está errado, mas a pessoa decide praticá-lo (juízo de eleição).
Se há discordância entre esses dois juízos, não convém seguir o de eleição, mesmo que este ofereça algum tipo de vantagem, que sempre será parcial e enganadora. Chama-se razão fraca ou débil aquela cujo juízo não concluiu bem. A pessoa pode ser muito inteligente, mas se o juízo de eleição estiver influenciado negativamente pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), será uma inteligência fraca ou débil.
3 – Onde entram as virtudes?
Juízo de consciência é o do conhecimento da realidade e juízo de eleição é o conhecimento aplicado sobre a afetividade: a pessoa sabe que não deve mentir, mas a atração sentimental de ficar bem diante dos amigos a faz falsear os fatos, o que revela um problema afetivo de se sentir apreciada ou valorizada pelos demais, ou pela cupidez de ganhar dinheiro fácil em prejuízo da verdade (a voz do prestígio ou a da cupidez “gritou” mais forte que a voz da consciência).
As virtudes ajudam a resolver o conflito entre juízo de eleição e juízo de consciência ao impedir a influência da afetividade, se esta tende a desviar a pessoa da decisão correta. Ao facilitar a identificação do que é bom, as virtudes tornam-se um vestígio de racionalidade na afetividade. A pessoa virtuosa deixa de apreciar o que é mau, porque dentro de seu mundo interior isso soa como nota musical destoante, desarmônica. Ao contrário, a falta virtudes dificulta não só a realização do ato bom, mas também dificulta saber o que é bom.
4 – Só a inteligência é capaz de ver todos os aspectos da realidade
Comer, beber, descansar, buscar segurança ou prestígio são tendências humanas. Cada tendência instintiva busca apenas a satisfação de sua inclinação porque só alcança esse aspecto da realidade. Porém, para decidir bem necessitamos de uma apreciação que abarque todos os ângulos de uma questão. A inteligência é a única faculdade que tem visão global e pode apreciar todos os aspectos da realidade, a fim de saber se algo convém ou não à pessoa como um todo, e não apenas ao que é bom à tendência em si. Se vejo um delicioso pastel o meu instinto de alimentação me inclinará a comê-lo o quanto antes, pois isso é o apreciável a essa função. Só a inteligência observará que não me convém comê-lo, caso tenha problema de colesterol ou porque o delicioso acepipe pertence a outra pessoa.
As virtudes oferecem dois atos fundamentais que se relacionam ao realizar qualquer ação moral: a intenção, que se refere ao fim que se busca, e a eleição dos meios para alcançar esse fim. A virtude assegura a reta intenção e facilita a pessoa selecionar os meios honestos para alcançar esse fim.
Querer um fim é a primeira premissa do raciocínio prático: eu quero tal coisa; depois determino quais os meios adequados para alcançá-la. As intenções virtuosas são universais e iguais para todas as pessoas, mas os meios com o qual será realizada essa intenção não é o mesmo para todos, dadas as circunstâncias de cada pessoa. Alguém quer alcançar a virtude da temperança para não engordar, e todos entendem da mesma forma o que significa essa ação temperada. Porém, o modo de realizar essa intenção não será o mesmo para todas as pessoas: um estivador ou trabalhador braçal passará a comer menos para não engordar, mas dado o seu gasto diário de energias, a quantidade de comida poderá ser maior do que a de um trabalhador sedentário, sendo que este poderá comer menos que o outro e não ser temperado. Esse discernimento é feito pela razão, ajudada pelo equilíbrio que a virtude oferece à afetividade.
5 – A pessoa virtuosa não se deixa enganar pelas tendências interiores
A pessoa virtuosa é realista porque sabe dar o real valor às coisas, sem se deixar enganar por outros fatores que possam afetar um juízo correto. Isso é o que se chama dimensão cognocitiva da virtude, que ao facilitar a apreciação dos fatos segundo a moral, é ponto chave para distinguir a atitude voluntarista que age de bate-pronto movida apenas pelos sentimentos e vontade, sem avaliar todos os aspectos da realidade. Como foi dito antes, a dimensão cognocitiva da virtude facilita a realização do ato bom, e contribui para distinguir e amar o que é bom; e a falta de virtudes não só dificulta a prática do ato bom como impede de dar-se conta do que é bom.
A dimensão cognitiva ou facilitadora do conhecimento que tem a virtude se mostra no caráter antecipador da afetividade: a atração pelas coisas surge antes de que haja um julgamento se convém ou não, mas a pessoa virtuosa já sente que aquilo não é bom, mesmo antes do julgamento. O exemplo do pastel torna clara essa ação facilitadora da virtude: antes de que eu julgue se me convém ou não comer o pastel, o instinto de alimentação me faz sentir atraído por ele, porque essa é a função dessa tendência. Mas a virtude, que acaba sendo um ponto de racionalidade na afetividade, irá me propor afetivamente algo razoável porque isso está configurado com o que sempre julguei ser o correto: o pastel faz mal a você devido ao colesterol. Isso ocorre porque depois de ouvir uma e outra vez todas as vozes da realidade, e decidir bem, cria-se como que uma conaturalidade afetiva com o bem.
6 – A afetividade da pessoa bem formada deseja o que convém
A afetividade continua sendo afetividade, e não razão ou inteligência, mas, pela influência das virtudes, a afetividade terá pegadas ou sinais de racionalidade, o que faz a pessoa virtuosa desgostar do que é mau, porque isso lhe soa como nota musical destoante, desarmônica.
As tendências informadas pelas virtudes se tornam o melhor apoio para a razão decidir bem. Quem forma seu gosto de acordo com as virtudes, que é formar-se de acordo com a verdade, equilibra as vozes das tendências, que em seu conjunto apontarão para a verdade. Uma pessoa virtuosa nunca levará ocultamente, e sem pagar, algo do supermercado, porque tal ação, que não é bem-vista pela sua razão, desagrada-a profundamente, o que revela que sua paixão de possuir está sob seu controle.
Seria muito pouco para a pessoa virtuosa apenas evitar olhar o objeto a fim de não se sentir atraído a furtá-lo, porque isso teria um aspecto repressivo ou negativo e não atitude amada ou querida pela vontade. Se há virtude, aquilo que não concorda com o mundo interior rico e belo da pessoa já não interessa porque não é querido pela vontade (não quero olhar, me desgosta olhar, não necessito olhar). A pessoa bem formada tem a sua afetividade configurada para apreciar o que verdadeiramente convém e afasta-se do que a degrada ou causa mal (isso se chama dimensão cognoscitiva da virtude).
O equilíbrio afetivo, no caso da virtude da temperança, faz que interiormente a pessoa esteja bem constituída, de modo que as coisas prazenteiras não a atraiam contra o bem e a verdade, que seria ir contra a sua própria pessoa. Esse raciocínio prático é facilitado pela virtude.
Texto elaborado por Ari Esteves, com base em aula não publicada do professor espanhol Julio Diégues.
Ariovaldo Esteves Roggerio
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