1 – Pensar é diferente de sentir. 2 – Conhecer o motivo que causa um sentimento. 3 – A pessoa virtuosa não vive em luta com seus sentimentos. 4 – Sentir alegria diante de uma ação má deforma o caráter. 5 – A educação da afetividade. 6 – O que são as virtudes? 7 – As três dimensões das virtudes. 8 – As virtudes libertam e os vícios escravizam.
1 – Pensar é diferente de sentir
Agir é diferente de sentir: pela inteligência e vontade agimos ao decidir, por exemplo, estudar ou visitar um amigo enfermo. Quanto aos sentimentos e paixões não agimos, mas somos surpreendidos por movimentos interiores que não decidimos por eles: raiva, tristeza, inveja, alegria, compaixão, etc.
Apenas sentir algo não traz valoração moral (certo ou errado, bom ou mau) porque não depende da razão e da vontade. Porém, se a pessoa aceitar ou der cabida ao que sente, a valoração moral dependerá da qualidade do sentimento.
As paixões e os sentimentos humanos garantem a ligação entre a vida sensível e a vida do espírito. Não se trata somente de conter as más paixões ou bloquear certos comportamentos, mas dar forma ao mundo dos sentimentos para que seus movimentos ajudem a querer fazer o bem de modo rápido e natural.
2 – Conhecer o motivo que causa um sentimento
É necessário fazer um juízo preliminar acerca do motivo que causou determinado sentimento, a fim de aceitá-lo ou não. É possível moldar os sentimentos aos poucos para que se ajustem cada vez mais à verdade e ao bem: um acontecimento bom faz surgir a paixão da alegria que sugere a ação de aplaudir, ou ajudar alguém movido pelo sentimento de misericórdia. Se um acontecimento mau causa ira ou tristeza, tendemos a nos afastar dele. Também pode ocorrer que um sentimento mau cause alegria, como ocorre com a inveja que se alegra diante do mal alheio. Fazer um juízo acerca do que se sente é o caminho para acolher o que é bom e rejeitar ou corrigir o que está desordenado, pois alimentar percepções equivocadas deforma a personalidade.
3 – A pessoa virtuosa não vive em luta com seus sentimentos
Uma pessoa que procura educar-se para orientar bem a sua afetividade, ao aceitar e amar o que é moralmente bom e recusar o que é mau, evitará a desgastante e desanimadora atitude de estar continuamente em luta contra os sentimentos. O dito popular “o que é bom engorda ou é pecado”, ficará sem sentido porque a consciência de quem se educou para o bem se rejubila com os valores que assumiu como norteadores de sua vida, e se entristece com o que percebe ser um mal.
4 – Sentir alegria diante de uma ação má deforma o caráter
Quando os sentimentos encontram satisfação no que é bom e verdadeiro, ocorre uma ressonância interior positiva, que é um sentimento de alegria, gratidão e serenidade. O que não pode surgir é um sentimento de contentamento ao fazer algo mau, ou sentir ira quando uma ocorrência impede a realização de algo moralmente reprovável (ficar chateado porque a internet caiu e não se pode ver um vídeo imoral), pois tais desordens tiram a harmonia da alma e revelam que os sentimentos e o caráter estão deformados. Para corrigir essas desordens são necessárias virtudes.
5 – A educação da afetividade
A pessoa deve educar-se para atuar sobre seus sentimentos ao iniciar neles um processo que os leve a agradar-se com o que é bom e desagradar-se perante o que é mau. A afetividade ordenada permite apreciar o bem porque o querer pessoal passa a coincidir com o plano inicial com que o Criador constituiu a natureza humana. Para atuar sobre os sentimentos a pessoa necessita de virtudes, e para isso é preciso compreender os motivos que fazem surgir os sentimentos. Há uma inclinação natural no ser humano para se sentir atraído pelo que considera um bem: o instinto de sobrevivência, a tendência sexual ordenada para o matrimônio, o desejo de conhecimento, a necessidade de trabalhar e de ter amigos, a busca de um sentido para a própria vida e o da transcendência da vida humana, entre outros, são inclinações naturais originadas no interior humano que, se bem dirigidas, vão em direção à felicidade pessoal.
6 – O que são as virtudes?
As virtudes não são algo concreto para colher com as mãos, mas para colhê-las com a inteligência e a vontade, que são nossas faculdades espirituais. As virtudes são qualidades que se estabilizam na alma por meio da repetição de atos ou hábitos bons. Mesmo não sendo visíveis como as formas e as cores, essas qualidades são facilmente percebidas na pessoa que as possui. Por exemplo, um matemático tem a ciência ou a virtude intelectual de fazer com facilidade operações e cálculos que não faria uma pessoa sem esse conhecimento. O mesmo ocorre com quem é temperado, pois come e bebe o razoável e sem grande esforço porque a virtude moral da temperança, que se opõe ao vício da gula, lhe facilita essa ação.
7 – As três dimensões das virtudes
- Ao pressupor o conhecimento do bem ou de uma vida reta, as virtudes têm o caráter de regular as reações: quem compreende a importância da virtude, por exemplo, do desprendimento (tem mais quem precisa de menos), saberá conduzir-se com soltura diante das ataduras de tantos bens de consumo que são oferecidos a todo momento, e que podem fazer alguém girar apenas em torno deles, empobrecendo as demais dimensões da vida.
- As virtudes possuem também uma dimensão ou natureza afetiva: introduzem-se nas tendências que se dirigem a cada bem concreto modificando-as pouco a pouco para que sua inclinação espontânea se conforme com um estilo de vida reto. Essa ordenação das tendências afetivas se consegue por meio da repetição de atos que sejam ao mesmo tempo livres e conformes ao que é virtuoso, sendo realizados precisamente porque são bons (querer realizá-los tem caráter intelectual). Quem possui o hábito de ser pontual aos compromissos não se deixará vencer pelo comodismo de evitar o esforço para chegar no horário combinado. Os atos que parecem bons (por exemplo, estudar), mas são realizados por temor (estudar por medo do pai) ou por outros motivos alheios ao bem (estudar por vaidade ou orgulho de mostrar as capacidades pessoais), não tornarão virtuosa a pessoa que permite sua afetividade alimentar-se de tendências viciosas.
- Geram, as virtudes, uma predisposição para o bem: o virtuoso tem especial facilidade e agudeza para distinguir o bem do mal, inclusive em situações complexas ou imprevistas que se apresentam de supetão, sem que deem tempo para uma avaliação mais demorada: − “É justo pagar o tributo a César?”, pergunta feita de chofre a Cristo para comprometê-Lo. Porém, Ele responde sem hesitar e de bate pronto porque sua alma estava configurada com o bem: − “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
8 – As virtudes libertam e os vícios escravizam
As virtudes ou bons hábitos tornam a pessoa mais livre e flexível ao permitir escolher, entre os diferentes bens que a cercam, aquele que parece ser o melhor: estudar línguas, dedicar-se profundamente a um campo científico, cultivar amizades, amar a literatura e outras manifestações artísticas, dedicar tempo a Deus e à família… Já os vícios geram automatismos e reações rígidas, inflexíveis e difíceis de abandonar: basta ver como o preguiçoso não tem mais opções do que se abandonar à comodidade; ou como o adicto à droga, álcool, pornografia ou games vê-se escravizado e submetido de modo inflexível ao seu vício, e sem ânimo ou forças para se abrir a outras realidades.
Texto elaborado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Angel Rodríguez Luño, autor do livro “Ética general”, Ediciones Universidad de Navarra (Espanha).
Ariovaldo Esteves Roggerio
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