1 – O papel da família na cultura dos filhos. 2 – Pais cultos sabem cultivar os filhos. 3 – O tempo gasto em mídias sociais empobrece a criança. 4 – Caminhos para fomentar a cultura familiar.

1 – O papel da família na cultura dos filhos

     A arte, atividade humana criadora de beleza, é regida pelo sentido da estética e não pelo de utilidade, que é próprio da ciência e da técnica. A beleza tem algo de divino e inspira o coração e a mente das crianças. O teatro, a pintura, a escultura, a poesia e a arte narrativa (conto, romance, novela) tornam rico o espírito humano, que passará a produzir do que se alimenta.

     Cultura é um termo que indica a ação de cultivar. Toda pessoa humana recebe em sua natureza faculdades que a distinguem dos animais: inteligência, vontade e afetividade. Quem irresponsavelmente não cultiva esse rico patrimônio − os pais devem ajudar as crianças a cultivá-lo! − torna-se uma pessoa em estado bruto ao não se permitir desenvolver toda a riqueza para a qual está chamado.

     A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura que, por ser o ambiente mais próximo da pessoa, deve ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para a verdade, o bem e o belo. Gustave Thibon dizia que “uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”.

     Se os pais não desejam que as filhas pequenas imitem as danças sensuais que veem na TV e cantem letras ofensivas − mesmo que no momento não compreendam o que dizem −, precisam criar no lar uma atmosfera de cultura vivida ao colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo. Assim, as filhas saberão fugir da subcultura e de seus sucedâneos.

2 – Pais cultos sabem cultivar os filhos

     Hoje, muitas pessoas se conformam apenas com a cultura profissional. As especializações modernas vêm produzindo homens doutos num campo científico, mas com uma visão parca sobre a família, filhos, vida humana, relações sociais, sentido da arte, da religião, do bem-comum e da sociedade. Com isso, não desfrutam da beleza que se esconde atrás de tantas outras realidades. Muitos pais dedicam tempo ao conhecimento profissional, mas descuidam a sua formação humanística e com isso empobrecem também os filhos. Não basta dar aos rebentos abrigo, alimento e segurança física, porque isso também fazem os animais. Oferecer a uma criança apenas a sobrevivência é exilá-la do mundo dos homens, que é mais rico que o dos animais.

     Os pais conseguem que seus filhos rapidamente se cultivem se eles, pais, forem cultivados: a qualidade da educação que oferecem é proporcional à qualidade da formação que possuem. O exemplo educa mais do que as palavras. Sêneca dizia que é “longo o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”.  A falta de interesse e esforço dos pais pela própria formação cultural decepciona os filhos, que logo se lamentarão de não valorizarem essa educação porque seus genitores agiram preguiçosamente nesse campo.

3 – O tempo gasto em mídias sociais empobrece a criança

     As crianças precisam ser introduzidas pelos pais no mundo da cultura a fim de descobrir a beleza estética encontrada nas diversas manifestações artísticas: escultura, pintura, música, teatro e literatura. Não subestimem as crianças! Foi incrível a experiência narrada por Helena Lubienska com a Divina Comédia, de Dante Alighieri, lida com avidez em sala por meninos de 7 a 12 anos. Ela se surpreendeu com a atenção que colocavam na narrativa e a facilidade com que decoravam trechos da obra; e por fim, apresentaram uma peça teatral baseada nesse texto.

     O tempo dedicado à leitura de um bom livro oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade, do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. Se queremos que as crianças tenham riqueza interior e desenvolvam uma sadia imaginação que as levará a serem criativas em suas brincadeiras e a terem grande força de expressão e inteligência no falar e agir, fomentemos nelas o paladar pela leitura e boa música; incitemos o gosto por estar em contato com a natureza;  ajudemos a que amem o silêncio contemplativo que faz perceber a beleza oculta nas pequenas coisas, e não na estrondosa agitação das telas que roubam o tempo da reflexão.

    O amor pelos livros será um forte antídoto para as crianças se verem livres do vício de celulares, tabletes e TV. Promover uma rica cultura familiar é o melhor antídoto para os pais afastarem as crianças do vício da chupeta eletrônica, que as torna hiperativas e entediadas com o mundo real. A leitura e outras expressões artísticas fortalecerão o potencial imaginativo da criança e dará a elas grande força de expressão e inteligência no falar e no agir.

4 – Caminhos para fomentar a cultura familiar

     Os primeiros e principais educadores dos filhos são os pais, que devem promover a cultura familiar por meio de tertúlias ou bate-papos familiares, refeições e momentos de lazer para ilustrar as crianças sobre a profissão do pai e da mãe, seus gostos artísticos, seus hobbies. Muitas crianças não sabem como é o trabalho do pai e da mãe porque estes dialogam pouco com elas sobre isso (pensam erradamente que elas não compreenderão). As vivências e experiências narradas enriquecerão as crianças, que se sentirão valorizadas pelos pais.

     Os pais não são os únicos responsáveis pela cultura familiar: filhos mais velhos, tias, tios e avós podem colaborar nessa promoção ao falar de suas experiências, estudos, hobbies. Podem também convidar amigos para contar alguma experiência interessante que tiveram: viagem, alpinismo, mergulho, pintura, música, colecionismo. A transmissão do patrimônio cultural da família pode ser feito com fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.

     Para uma cultura familiar programada os pais podem se valer do colégio ou criar em casa um clube familiar com encontro semanal onde seus filhos possam brincar com outras crianças, aproveitando os vários vídeos do Youtube com jogos que fomentam a convivência entre pais e filhos, além de vivenciarem no clube outras atividades culturais.

     É interessante visitar com as crianças livrarias ou sebos e deixá-las escolher um livro; percorrer feiras de livros, bibliotecas, exposições de quadros ou esculturas; participar de audições musicais de diferentes gêneros que sejam esteticamente bons; levá-las ao teatro infantil e programar sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos; irem ao cinema e depois incentivar as crianças para que façam comentários sobre o filme.

    A vista a museus é de grande valia, e para isso os pais devem dar a sensação de aventura. Seria tedioso explicar a uma criança a história da arte por meio de palestras sobre os diferentes gêneros de pintura. Para evitar isso é só criar um jogo para divertir as crianças, sem alterar o silêncio, a paz dos museus e o sorriso complacente dos guardas e seguranças do local. Antes de ir ao museu, veja no site dele as obras em exposição, e pergunte à criança qual ela mais gostaria de ver. Depois, coloque no celular as imagens escolhidas e no museu peça que a criança localize cada tela escolhida. Não manifeste sua opinião contrária ao gosto da criança, pois irá deixá-la confusa e inibirá sua inclinação. Quando ela encontrar o quadro, pergunte o que mais ela colocaria nele, se fosse o pintor, a fim de que se fixe nos detalhes da tela.

Texto produzido por Ari Esteves. Imagem de Ron Lach

O Autor

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