1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor. 2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos. 3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno. 4 – Ensinar a desejar o desejável

1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor

    Crianças nascidas a partir de 2010 pertencem à chamada Geração Glass (vidro em inglês, em referência às telas), porque nasceram em meios às imagens e podem passar horas e horas diárias diante de tabletes, smartphones, computadores, laptops. Vários estudos informam que crianças expostas por longas horas às telas digitais têm seu cérebro estimulado por altas doses de dopamina, que é um neurotransmissor relacionado ao prazer, à satisfação. A dopamina pode ocorrer dentro da normalidade, por exemplo, ao assistir a um bom filme, fazer uma boa refeição, praticar esporte; ou pode ser estimulada em altas dosagens provocadas pelos vícios, tal como o da bebida, drogas, pornografia, e agora também o das telas.

    A realidade normal, o convívio com os pais e irmãos, o estudo, a leitura de contos, as brincadeiras sozinhas ou com os amigos, um passeio na natureza, se tornam tediosos e desestimulante porque trazem menor nível de prazer para crianças acostumadas às telas. Habituadas a ver e a fazer apenas o que é agradável à sensibilidade, não conseguem controlar seus impulsos e dizer “não” a si mesmas, nem a ouvir um “não”: o resultado é a falta de autodomínio, o encerrar-se em si mesmas, ter atitudes de desobediências, fugir das responsabilidades. Há relatos de crianças que reagem com extrema rebeldia e agressividade ao ser retiradas delas as telas. Um adolescente, em verdadeira crise de abstinência porque o proibiram de utilizar o celular, chegou a bater a cabeça contra a parede para machucar a si, e logicamente a seus pais com tal atitude. É fácil antever nessas crianças o menor desempenho em matemática, linguagem, física, química. Soma-se a isso o risco a que estão expostas pelas muitas horas na internet: pornografia, pedofilia… Quando um adolescente envereda pelos sites pornográficos, obceca-se por isso e perde o interesse por estudar, conviver com as pessoas, sonhar com algum projeto, etc.

2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos

    Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de saber utilizá-la. O excesso de informações, sons, cores e estímulos deixam saturada a sensibilidade e o cérebro da criança, que não consegue ordenar tantos temas desencontrados. A quantidade de imagens e de situações apresentadas durante um minuto na televisão não permite que a sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões) tenha tempo de se manifestar corretamente, gerando com isso atitudes de indiferença diante de situações que reclamariam, por exemplo, um sentimento de dor ou de misericórdia, porque foram abafados pelas sucessivas imagens. Existe um período crítico em que as crianças precisam ter um nível de estímulo proporcional à capacidade cognitiva, e não uma enxurrada de estímulos que prejudica a atenção devido à entrada de tantas informações desencontradas, que mais do que estimular a inteligência, anula a capacidade de pensar e relacionar, e tudo fica reduzido ao periférico.

    Há pais que colocam telas diante dos filhos pequenos para ter tempo de descansar, cuidar da casa, trabalhar; ou porque são levados a isso pelos produtores de programas que afirmam ser importante para aumentar os neurotransmissores ou o nível de inteligência dos filhos; para que os filhos não sejam analfabetos digitais; ou para controlar onde eles estão (isso só fisicamente, pois a cabeça e o coração poderão estar em locais indesejados). O que se constata é que o excesso de telas torna as crianças passivas e com preguiça mental para criar seus jogos, estar sozinhas com seus próprios pensamentos; perdem habilidade para o que exige esforço racional como montar lego, encaixar cubos, xadrez, jogos de memória, quebra-cabeças. O gosto por estudar e o interesse pelas realidades ao seu entorno também vão por água abaixo. Essa inabilidade chega ao extremo de não saberem prestar atenção em alguém que pretenda manter uma conversação com elas. Afirmar que se tornam mais inteligentes e que são crianças multitarefas é uma balela que várias pesquisas de institutos norte-americanos vêm provando ao contrário (ler o livro Educar na realidade, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae). Quanto a serem analfabetos digitais, não se deve ter receio disso, pois quando os filhos crescerem e chegarem ao mercado de trabalho, toda a tecnologia de hoje será obsoleta e digna de exposição em museus.

    Inteligente não é quem recebe um monte de informações, mas quem sabe selecioná-las e conectá-las entre si com objetivos concretos. A farta exposição às telas tem aumentado o índice de hiperatividade e desatenção das crianças, cuja memória também deixa de apoiar a cognição porque se tornou um armário entupido de bugiganga. Além do analfabetismo funcional, temos agora crianças com déficit de inteligência porque utilizam mal a capacidade de pensar, desestimulada pela sucessão de imagens e estímulos visuais que apagam o encantamento e a curiosidade natural pela realidade, e o gosto por descobrir o ser das coisas.

3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno

    Sem a interface humana ou diálogo com um adulto, fica difícil para a criança criar vínculos afetivos profundos com seus pais, compreender a importância dos valores ou modelos de conduta que estão por detrás de certas realidades, captar critérios diretamente explicados a ela para que possa distinguir entre o certo e o errado. A criança necessita de um interlocutor que a olhe nos olhos e fale com ela para transmitir acolhimento, segurança e que a anime a fazer suas próprias experiências. Essa relação dialogal ensina a criança a gesticular, a manifestar seus pensamentos e sentimentos, a dar entonação normal a uma conversa, o que não ocorre com as crianças a quem lhes falta a interação humana, substituída pelas imagens com suas habituais cenas exageradas e situações limites para estimular nelas sentimentos de alegria, tristeza ou medo, com o fim de captar a atenção delas. Com isso, se tornam crianças desfocadas da realidade e de si mesmas, e não aprendem a interagir ou expressar-se sem imitar os modos exagerados dos personagens das telas.

    São os pais, e não as telas, que ensinam as crianças a serem temperadas e a terem valores firmes para saber agir em busca do que é bom, a fim de não ficarem à mercê do que lhes é imposto pelas telas. Uma criança não tem o senso crítico desenvolvido, e necessita da carinhosa, paciente e insistente vigilância dos pais, que em curto espaço de tempo conseguem que seus filhos aprendam a distinguir entre conteúdos bons e ruins, para fazerem boas escolhas por si mesmos, já que muitas vezes os pais não estarão ao lado para ajudar na eleição.

    Os pais devem ser os intérpretes da realidade para seus filhos pequenos, ajudando-os a conhecer gradativamente as coisas ao seu redor. Se as telas são a interface entre a criança e o seu mundo, uma enxurrada de situações passará a acomodar-se dentro dela, sem distinguir entre o bom e o ruim, pois seus pais deixaram de ser seus intérpretes. A criança exposta ao excesso de telas age por motivações externas, dependente das iniciativas que lhe são impostas desde fora, e passa a viver à base de recompensa, tem medo ou ansiedade das coisas que são custosas, já que habituou-se a apertar botões de aparelhos eletrônicos para ter tudo facilmente. Torna-se uma criança não motivada para sair de si mesma e retornar à realidade e ser generosas para não brigar com o irmão, para visitar uma pessoa doente, para ajudar em alguma tarefa do lar.

    Crianças que agem por motivações interiores são capazes de criar o seu mundo a partir de dentro, de sua imaginação e das realidades que observou pausadamente e as incorporou dentro de si. Deve haver um tempo de maturação, de desenvolvimento daquilo que dever ser absorvido na biografia da criança. Se não há memória de vivências não haverá experiências. As brincadeiras são uma ferramenta importante para o aprendizado: o silêncio e a conversa consigo mesma para dar sentido aos potes de embalagens plásticas oferecidos a ela para brincar, a compreensão das regras dos diferentes jogos, o controlar seus impulsos para respeitar os parceiros de brincadeiras, são realidades que as crianças desvinculadas de telas digitais possuem. Porque passaram a explorar o mundo ao seu redor, elas sabem explicar melhor suas vivências, calmamente apreendidas; e quando não compreenderam algo, tiveram tempo de recorrer aos pais: a lagarta que se transformou em borboleta, a árvore que começou a transformar suas flores em frutos, os diferentes insetos que surgiram no jardim num dia de chuva ou aqueles que perambulam pelas paredes e vasos da casa… Mais facilmente essas crianças estarão dispostas a outras motivações interiores, tal como saber perdoar, privar-se de uma coisa para dar a alguém, preparar uma brincadeira para tornar felizes os irmãos e os amigos, perguntar para entender um assunto, ajudar os pais na arrumação da casa…

4 – Ensinar a desejar o desejável

    Platão diz que o objetivo da educação é ensinar a desejar o desejável, e o que é o desejável senão o bom, belo e verdadeiro? Ir ao encontro do que é belo e verdadeiro exige um querer racional, sendo necessário ajudar as crianças nessa tarefa, pois dada a inexperiência de vida, elas tenderão a procurar apenas o agradável aos sentidos. Cabe aos pais fomentar o gosto por realidades superiores: Deus, leitura de contos (ler para elas se forem muito pequenas), passeio pelo campo e parques sem medo de que se machuquem, brincadeiras que incentivem a criatividade; visitas culturais a museus e exposições, tornando essa atividade uma espécie de jogo onde a criança deverá encontrar as obras que viu antes no site da exposição.

Texto produzido por Ari Esteves com base em live do Canal Youtube de Sâmia Marsili. Imagem de Kaku Nguyen.

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