Concessões contínuas e mimos excessivos são uma espécie de visgo que seduz e prende os filhos no cordão umbilical psicológico da perpétua e desvirtuada dependência que, falsificando o verdadeiro amor, alimenta possível caráter possessivo da paternidade ou da maternidade.
Dar mimo é uma forma de demonstrar amor e carinho, mas quando se torna excessivo, pode trazer consequências negativas, especialmente no desenvolvimento emocional e comportamental de crianças: baixa tolerância à frustração ou diante de um não; falta de autonomia ou capacidade para desenvolver problemas, tomar decisões e ser responsáveis pelos seus atos; comportamentos egocêntricos ao acreditar que o mundo deve girar à sua volta, o que dificulta a empatia e o respeito pelos demais; dificuldades sociais em partilhar, colaborar, aceitar regras no ambiente escolar e com amigos; pouca resiliência na juventude e vida adulta ao se sentir frustrados e abatidos diante das dificuldades…
À supermãe ou ao superpai corresponde um infrafilho, com pouca capacidade de voar alto. Autoridade e carinho devem partir tanto do pai como da mãe, sempre de modo dosado. Um lar com excessiva de autoridade e sem carinho transforma-se em quartel; um lar com excesso de mimos e sem autoridade se transforma em fábrica de doces maria-mole. Mimos que levem pais e mães a exigirem pouco formam desfibrados para assumirem responsabilidades.
O verdadeiro carinho opõe-se tanto ao autoritarismo como ao mimo que escraviza os filhos. Mimo não é carinho, mas elevada dose de açúcar que faz aumentar a “diabetes do espírito” e se converte em busca de frivolidades e compensações egoístas. O amor autêntico deseja o bem da pessoa amada, sendo oferecido com coragem, paciência e intransigência diante dos deveres.
Pais que tiveram de lutar a sério na vida e ultrapassaram barreiras sem conta, mas que depois dão aos filhos uma vida cômoda, mole; ou que foram educados autoritariamente e agora adocicam excessivamente a vida dos filhos, pagarão alto preço por esse erro pedagógico.
Proteger os filhos de toda espécie de dificuldades enfraquece o caráter e debilita a vontade deles ao retirar-lhes as ocasiões de crescerem em fortaleza, resiliência. Grande é a sabedoria de habituar os filhos ao esforço de dormir e acordar na hora certa, de não fugir dos encargos familiares, de estudar na hora certa, de comer o que se põe na mesa, de arrumar a própria cama e não deixar esse serviço para a empregada… Quando são poupados dessas tarefas, os filhos se enclausuram em planos pessoais, e dão de ombros às necessidades dos demais.
Certa vez, um taxista foi chamado por uma mãe para levar o filho dela, adolescente, à escola. A primeira pergunta que ouviu da senhora foi se o carro tinha ar-condicionado. Sendo negativa a resposta (o equipamento seria reparado no dia seguinte), a mãe disse: – Meu filho só anda em carro com ar-condicionado. Sem comentários… Outra mãe, superprotetora, deu o seguinte conselho ao seu filho recém-saído da academia de aviação: – Meu filho, voe baixinho e devagar, sem desconfiar que a pior orientação a ser dada a um piloto. Cabe lembrar o velho ditado que diz “Com churros não se faz alavanca!”.
O carinho é fundamental e todos necessitam dele. Mas não do carinho mal-entendido, meloso e desequilibrado, que fomenta fraquezas e deforma o caráter devido às concessões e dispensas do cumprimento do dever. Filhos não são reis que imperam sobre servos que lhes suprem em tudo o que deveriam fazer. O verdadeiro carinho suaviza o trato, mas não teme exigir, o que faz crescer a autoridade legitima dos pais. Filhos assim educados agradecerão por toda a vida a compreensão de que não terem sido criados apenas como sujeitos de direitos, mas também de obrigações filiais-paternais.
Texto produzido por Ari Esteves. Sugestão de leitura: livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyford-pike, Editora Quadrante, São Paulo.
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