Os filhos necessitam de limites, porque por trás de cada criança desafiadora, que testa os pais, existe um pedido silencioso de orientação, já que limites não são castigos, mas expressões de amor que oferecem à criança um território seguro para crescer emocionalmente e não se perder num mundo que ainda não sabe manejar. Ignorar os sinais de desrespeito e rebeldia ao pensar que “é normal para a idade”, cria adolescentes e jovens inseguros e incapazes de lidar com os demais respeitosamente.

         A seguir, estão os ensinamentos de Marian Rojas Estapé, psiquiatra espanhola (1).

         Um filho que responde com brusquidão ou desdém, e os pais, cansados, deixam passar, reforçam o padrão perigoso no qual a criança acredita que pode falar assim com todos, sem consequências. Isso corrói pouco a pouco a autoridade e o emocional familiar e se transforma em hábitos de desobediência e falta de respeito que se estenderá a qualquer figura de autoridade.

         Permitir o desrespeito cria rachaduras nos alicerces da família e enfraquece a estrutura emocional e ética da criança, já que os limites ensinam que amar é cuidar as palavras, gestos e atitudes. Toda fala inadequada deve ser enfrentada e não ignorada, porque é sempre um pedido de limite que aproxima o filho dos pais ao mostrar o caminho certo.

A manipulação infantil

         Os filhos aprendem rapidamente que se os comportamentos negativos trazem resultados, não por maldade, mas porque o cérebro busca recompensas, manterão a conduta. Chorar, gritar e comparar os pais com outros são modos de manipular emocionalmente para conseguir algo e, caso consiga, o cérebro registrará esse padrão e o repetirá.

         A manipulação infantil assume formas como a doce chantagem emocional, o drama exagerado, os discursos ilógicos, os desafios diretos, geralmente em momentos em que a mãe ou o pai está exausto, pronto para dizer “sim” pelo cansaço. Isso ensina ao filho que se o insistir ou dramatizar funcionam, deve ser repetido no futuro. O lar é um palco de aprendizagem: se diante do escândalo alguém cede, a criança conclui que exagerar funciona; se o adulto se assusta diante de ameaças, a criança aprende que o medo do adulto lhe dá poder.

         Não se educa apenas com palavras, mas com a forma de responder às emoções do filho: a manipulação premiada tende a se repetir, mas se encontra limites firmes, calmos e serenos, perde força. Quando o filho tenta manipular e o adulto mantém a calma, oferece contenção e ensina a lidar com a frustração e a saber esperar. Trata-se de um processo difícil, lento e por vezes doloroso, mas que prepara os filhos para a vida real, onde chefes e amigos não cederão aos dramas e chantagens.

Estabelecer limites

         Muitos pais evitam impor limites por receio de afastar o filho, mas acontece o contrário: a ausência de limite gera insegurança por desorientação, enquanto dizer “só até aqui”, de modo calmo, mas firme, provoca inicialmente raiva na criança, mas depois ela se sentirá segura porque foi indicado o espaço para agir. Se a criança desafia constantemente e ninguém a detém, aprende que amar é suportar os caprichos dela sem consequências, o que certamente a levará repetir esse padrão às amizades, à futura namorada, aos colegas de trabalho e professores, acreditando que pode desrespeitar aos demais porque nunca lhe foi ensinado o contrário.

         Os limites são como corrimãos: não tiram liberdade e evitam quedas. Quem não aprende a lidar com a frustração interpreta os limites como rejeição e contrariedades como humilhação, atitudes que nenhum pai deseja para seus filhos. Limite é amor que salva e educa, mesmo que os filhos relutem temporariamente em aceitá-los, mas logo compreenderão o motivo.

         Não premiar o drama dos filhos com atenção excessiva. Às vezes o pai ou a mãe não cede ao pedido, mas oferece uma hora de atenção exclusiva, e a criança aprende que o escândalo garante seu protagonismo. Por isso, é necessário manter o limite e reduzir o espetáculo. Os esforços da criança em aceitar um “não” devem ser recompensados com palavras estimulantes, pois o cérebro aprende também pelo reforço positivo. Dói aos pais ouvirem frases como “você não me ama”, mas amar não é satisfazer pedidos, mas sustentar o que é justo mesmo quando a criança não goste. Colocar limite não endurece o coração, refina-o e ensina que valor está em construir, que liberdade exige responsabilidade, que carinho verdadeiro não se negocia com chantagem.

Não se sentir culpado por estabelecer limites

         Pais que se sentem culpados ao estabelecer limites e com isso cedem, explicam demais e compensam com permissões, confundem a criança. Por isso, como sinal de maturidade devem libertar-se desse tipo de sentimentos. Amor sem limite vira permissivíssimo; limite sem amor vira autoritarismo. O equilíbrio é a chave. Os filhos aprendem mais pelos gestos do que pelas palavras: se os pais pedem respeito, mas são agressivos, ensinam agressividade; se pedem paciência, mas se irritam, ensinam impaciência; se pedem autocontrole, mas se desequilibram, ensinam descontrole. Porém, quando demonstram serenidade, firmeza carinhosa e autoridade sem autoritarismo, ensinam que não se pode ter tudo. Com isso, o respeito e admiração por pais coerentes crescem na criança.

As crianças testam os limites

         O limite só funciona quando é estável e permanente: ser firme hoje e permissivo amanhã transforma a reclamação em ferramenta. Crianças testam os limites porque procuram saber até onde o mundo é seguro, não por rebeldia, mas para saber se o adulto vacilará e, se vacilar, a criança não se sentirá vitoriosa, mas perdida. Filhos que parecem “mandar” são inseguros e desejam adultos fortes, que sustentam o que dizem e aguentam tempestades emocionais. Por isso, quando os limites são consistentes, o comportamento melhora por segurança, não por coincidência, já que um “não” firme dito com amor traz cooperação e tranquilidade.

         Um filho não precisa de pais perfeitos, mas previsíveis, que fazem o que dizem, acolhem sem se dobrar, ouvem sem serem dominados por emoções. Um dia, esses pais ouvirão o filho pedir desculpa espontaneamente, autocontrolar-se e crescer em maturidade. E tudo foi construído com pequenas ações diárias que moldaram o mapa emocional do filho. Sustentar os limites com amor oferece herança vital: a capacidade de lidar com o mundo sem quebrar-se nem manipular os demais.

         A confiança nasce quando os pais são previsíveis, coerentes e estáveis emocionalmente, permitindo ao filho sentir que, mesmo nos piores dias, o pai ou a mãe são referência. Com isso, os gritos diminuem, as manipulações perdem força, os conflitos encurtam e as conversas se aprofundam. Assim, o filho aprende a expressar emoções sem agressão, a respeitar limites como proteção, assumir responsabilidades e amar com maturidade. No futuro, os pais verão que aquele filho que bateu portas e manipulou tornou-se um adulto sereno e seguro porque eles tiveram coragem de não ceder ao primeiro grito, e sustentaram os limites, mesmo quando doeu; e porque souberam distinguir amor e permissividade. A educação é um ato de coragem e entrega, e os filhos não recordarão os “nãos” que receberam, mas a presença firme, justa e amorosa que construiu o seu caráter.

Saber dizer não

         Alguns pontos são essenciais: dizer sempre um “não” inteiro, sem ironia ou gritos, e que não vire um “está bem, só desta vez”, nem se dilui em explicações intermináveis por parte dos pais, como quem quer se desculpar por exigir o que é correto. O controle emocional do adulto está em respirar, baixar o tom de voz e adiar a conversa para um horário combinado, caso a turbulência tenda a crescer, e depois, cumprir com o adiamento. Assim, os adultos da casa mostrarão segurança e coerência, especialmente se os pais são separados, porque incoerência alimenta a manipulação.

         Pais firmes criam filhos estáveis, seguros e empáticos. A educação faz crescer pais e filhos juntos, e quando o limite é claro e explicado antecipadamente, a criança aprende a relação entre ação e consequência, enquanto punições impulsivas apenas ferem, envergonham e confundem. Educar exige coragem dos pais para dizer “não”, enfrentar conflitos e aceitar a dor da frustração como parte do crescimento de ambos, e desenvolve nos filhos maior segurança e consciência.

A frustração da criança faz parte do processo educativo

         A tempestade emocional provocada pela criança não é fracasso dos pais, mas ocorre porque o filho está reorganização seu cérebro ao perceber que tentar repetir padrões anteriores já não funciona: se o adulto não cede e espera a emoção do filho baixar, vence a manipulação; depois, com calma, explicará brevemente o que não foi correto e encerrará o assunto, evitando discursos longos durante o caos.

         Com o tempo, o padrão do filho mudará ao aceitar as negativas sem colapsar, e proporá alternativas ou dirá simplesmente “tá bom, entendi”, e os pais perceberão que valeu a pena sustentar o limite, que transformou o lar num lugar firme e grato. O limite fecha brechas utilizadas para pressionar. No início provocará desconforto, mas ensinará a sustentar a frustração de forma madura, crescer em resiliência, em capacidade de esperar e maturidade emocional, essenciais porque a vida fora do lar irá frustrar repetidamente.

Reagir com serenidade diante dos gritos dos filhos é educativo

         A forma como os pais reagem às emoções do filho ensina a este o modo de reagir às próprias emoções: se cada explosão gera explosão, o filho aprende que conflitos são guerras; se cada grito recebe um grito maior, aprende que vence quem faz maior barulho; se cada perda de controle da criança provoca perda de controle do adulto, aprende que controlar sentimentos é impossível. Porém, se o adulto permanece equilibrado, transmite a poderosa lição de que a emoção pode ser forte, mas podemos ser maiores que ela.

         Educar exige ação diária, mesmo diante de cansaços e dúvidas, porque o futuro de cada filho depende da presença firme, dos limites constantes e do amor que acolhe e protege. Nesse caminhar não há manual perfeito, mas consciência, coragem e disposição para aprender sempre, pois quando os pais crescem, o filho cresce junto; quando os pais melhoram, o lar melhora, e quando educam com amor firme, muitos bens se irradiarão dessa família.

O Autor

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