A integração dos afetos na unidade da pessoa é um tema complexo, porque envolve diversos aspectos da personalidade que precisam ser compreendidos conjuntamente. Uma das dificuldades fundamentais é que, em geral, não sabemos o que significam e como interagem afetos e sentimentos.
Ao longo da modernidade (anos 1500 a 1800), houve uma fragmentação na compreensão da pessoa, com a valorização excessiva e unilateral de diferentes dimensões. Nos primeiros séculos predominou o racionalismo, porque a razão desempenha um papel extremamente importante na tomada de decisões livres e, portanto, também na formação, na autoformação da nossa personalidade. Mas o racionalismo, como tal, é insuficiente e tende a gerar caracteres quadrados, apegados a regras e a modos de funcionamento. No final das contas, absolutizar a razão reduz a nossa liberdade, porque faz com que olhemos somente para uma parte de nós mesmos.
Posteriormente, entre os anos 1800 e 2000, houve uma valorização excessiva da vontade, que passou a ser colocada na posição principal dos resultados, dando origem ao voluntarismo, que prescinde do discurso racional para a tomada de decisão: o importante é a ação, tenho que fazer as coisas porque é minha vontade que determina a realidade daquilo que eu faço, daquilo que eu sou. Houve um excesso de importância dado à ação, à produtividade… Tanto o racionalismo quanto o voluntarismo acabaram enfatizando apenas uma dimensão da pessoa, e isso reflete na espiritualidade e na maneira de enxergar-se como pessoa. Nesse processo, as emoções, os sentimentos e os afetos se tornaram os “órfãos” da história pessoal.
Atualmente, o sentimentalismo passou a constituir uma forma de fragmentação ao concentrar a atenção nos afetos mais intensos, imediatos e primários, especialmente nas emoções. A pessoa sentimental reage fortemente ao que lhe agrada ou desagrada, dando demasiada importância ao medo, à ansiedade, ao cansaço, aos prazeres imediatos e à necessidade de sentir-se bem.
A busca constante por sensações passou a gera dependência de estímulos externos, como telas, filmes, vídeos, cores, movimento e entretenimentos. Criou-se a ideia de que para se sentir bem o fundamental é cuidar das sensações. Com isso, a pessoa ficou à mercê das circunstâncias externas: uma crítica ou contrariedade provoca atualmente grande desabamento interior.
O sentimentalismo aprisiona a pessoa no presente, pois o passado deixou de ser elemento a ser considerado e o futuro não é o mais importante para orientar as escolhas (não me interessam os fins, desde que os meios de agora me sejam agradáveis). As decisões passam a ser tomadas principalmente a partir do que proporciona satisfação imediata. Isso produz comportamentos instáveis: a pessoa inicia um curso, uma profissão ou uma atividade porque se sente bem com isso, mas abandona tudo ao surgir alguma dificuldade ou situação desagradável.
Se a personalidade com o racionalismo tende a ser rígida e quadrada, com o voluntarismo voltar-se excessivamente à ação e aos resultados e com o sentimentalismo a ser fragmentada e instável, torna-se necessário reconstruir a vida interior ao integrar essas três dimensões numa personalidade única e plena.
Quanto aos afetos, que como o nome indica é tudo aquilo que nos afeta, para compreendê-los e integrá-los à totalidade da pessoa, torna-se necessário considerar os instintos, que são impulsos claros e definidos que determinam modos de avaliação e esquemas de ação. São sete instintos, relacionados também à tradição dos pecados capitais: alimentação, reprodução, propriedade, social, hierárquico, fuga e agressão.
Os cinco primeiros instintos pertencem às chamadas paixões concupiscíveis, ao desejo e ao prazer: a alimentação corresponde à gula; a reprodução, à luxúria; a propriedade, à avareza ou à ambição; o instinto social relaciona-se à inveja ou à vaidade; e o instinto hierárquico corresponde à soberba. Os dois últimos pertencem às paixões irascíveis: o instinto de fuga relaciona-se à covardia e à preguiça, enquanto o instinto de agressão corresponde à ira ou à raiva.
Cada instinto possui suas próprias de emoções. As emoções são avaliações de situações concretas e momentâneas. Quando sentimos o cheiro de churrasco surge a fome e o desejo de comer churrasco, e isso desencadeia determinadas ações. Percebe-se que a emoção não foi a causa última da ação, pois apenas representou uma avaliação do que se recebeu do exterior: foi o instinto que orientou a ação. É importante esclarecer que o ser humano possui uma capacidade que ultrapassa as respostas imediatas dos instintos porque, sendo racional, pode refletir sobre si mesmo e não aceitar a resposta instintiva de comer, por exemplo, um doce por causa da diabete.
Com isso, distinguimos as emoções dos sentimentos: as emoções são momentâneas e constituem avaliações de situações concretas provocadas pelos instintos (algo é percebido como bom ou mau, desejável ou rejeitável, agradável ou desagradável). Os sentimentos, por sua vez, são emoções abstraídas e possuem duração maior, sendo menos intensos que as emoções, porém mais duradouros e capazes de permanecer como um pano de fundo da personalidade: amor, ódio, inveja, solidariedade, compaixão…
Os valores ou princípios também integram o comportamento pessoal, pois constituem uma forma ainda mais abstrata e duradoura das emoções que se foram formando ao longo da vida, e aceitas pela consciência. Mesmo antes de refletir sobre algo, a primeira impressão será considerar algo como desejável ou indesejável, porque se desenvolveram critérios ou virtudes que levam a reagir quase sem uma avaliação prévia, já realizada no passado, e que agora integram a personalidade como valor principal: por exemplo ser honesto, cumprir sempre com a palavra dada, ser fiel ao outro cônjuge…
Emoções, sentimentos e valores formam uma espécie de coluna central ou estrutura dentro da personalidade, ao fazer a intermediação entre o aspecto externo – as coisas que acontecem conosco, as situações da nossa vida, todos os problemas, as preocupações, os ideais e tudo o mais – e nós mesmos. Essa estrutura recebe algo avalia e participa da orientação das ações: “Isto sim; isto não; isto mais tarde”, e assim por diante”. Esse conjunto pode ser compreendido como coração ou memória, que são dois aspectos dessa mesma realidade, que é a coluna central da nossa personalidade, na qual processamos o que vem de fora e de onde nasce aquilo que nós queremos fazer.
Por isso, não basta por ser incompleto considerar isoladamente a razão, a vontade ou sentimentos como suficientes para formar a personalidade: é necessário integrar esses três aspectos.
Emoções, sentimentos e valores não são realidades facilmente traduzíveis em palavras ou conceitos precisos. Por isso, os expressamos por meio de imagens e metáforas do tipo “me sinto como aplastado por uma pedra”; “estou tão insensível quanto a este banco de pedra”, “me sinto forte como um leão”…
Além das metáforas, pode-se expressar e compreender a vida afetiva por meio de narrativas ou histórias que constroem a autobiografia interior: quem sou, de onde vim, o que vivi, como cheguei a ser quem sou. As narrativas fazem compartilhar imagens ou conceitos que expressam os próprios sentimentos, o que é essencial para estabelecer contato pessoal com os demais.
Compreender os afetos significa compreender uma dimensão central da pessoa. O objetivo não é escolher entre razão, vontade e afetividade, mas integrá-los. A personalidade plena nasce quando razão, vontade, emoções, sentimentos e valores deixam de funcionar como partes isoladas e passam a constituir uma unidade.
Texto elaborado por Ari Esteves com base nas lições do Prof. Henrique Elfes, em seu canal do Youtube: https://bit.ly/4AzB2wR
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