O vício das apostas online vem revelando fragilidade comportamental entre adolescentes e jovens, facilmente aliciados pela falsa promessa de dinheiro sem esforço, levando a maioria a prejuízos financeiros e sofrimentos emocionais. Adolescentes, cujo autocontrole ainda está em formação, tornam-se especialmente vulneráveis ao vício das apostas. Pais e responsáveis precisam estar atentos e se preparar para conversar sobre esses riscos.

Como surge o vício

         O jogo das apostas ativa sistemas de busca de recompensa no cérebro que podem levar à compulsão. As plataformas de apostas online exploram mecanismos de reforçamento intermitente, um dos mais potentes na manutenção de comportamentos. O reforçamento intermitente é um conceito da análise do comportamento que descreve a situação em que uma resposta ou comportamento não é reforçada todas as vezes que ocorre, mas sim de forma ocasional ou imprevisível. Por exemplo, uma máquina caça-níquel, onde a pessoa puxa a alavanca várias vezes sem saber nunca quando vai ganhar, reforça um tipo de comportamento mais resistente à extinção, ou seja, a pessoa continua insistindo mesmo quando não está recebendo nenhum reforço ou ganho.

         No caso das apostas online, o reforçamento intermitente é um dos grandes responsáveis por manter o comportamento de apostar, porque o jogador experimenta vitórias esporádicas, o que aumenta a expectativa e a persistência, mesmo com prejuízos. O comportamento de apostar é reforçado de forma imprevisível (às vezes há um ganho e muitas vezes não). Isso mantém o indivíduo engajado por mais tempo, mesmo diante de perdas sucessivas, pois o cérebro passa a esperar a próxima “recompensa”. A promessa de ganhos rápidos mascara um padrão de perdas progressivas e respostas compulsivas.

Prejuízos Econômicos do Vício em Apostas Online

         As apostas online têm impactado significativamente o orçamento das famílias das classes C e D no Brasil. Entre 2018 e 2023, os gastos com apostas nessas classes aumentaram 419%, passando de 0,27% para 1,98% do orçamento familiar. Esse aumento tem levado à redução de despesas em áreas como lazer e cultura, que caíram de 1,7% para 1,5% no mesmo período.

         Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 50% dos brasileiros das classes C, D e E utilizam dinheiro de poupança e economias em restaurantes para financiar apostas esportivas. Essa realocação de recursos vem comprometendo a estabilidade financeira dessas famílias ao aumentar o risco de endividamento.

Consequências do vício das apostas:

  • Endividamento: Pessoas viciadas tendem a gastar além do que podem, recorrendo a empréstimos, cartões de crédito e até penhorando bens.
  • Perda de renda familiar: O dinheiro que seria usado para despesas básicas (como alimentação, aluguel e contas) é direcionado para apostas.
  • Ruptura de relações: Conflitos familiares aumentam, levando a separações, perda de confiança e até abandono de responsabilidades.
  • Desemprego e baixa produtividade: O vício pode afetar o desempenho no trabalho ou nos estudos, levando à perda de oportunidades profissionais.
  • Impacto psicológico e financeiro combinado: A ansiedade e depressão causadas pelas perdas agravam o ciclo do vício, gerando mais prejuízo.

Legislação brasileira

  • Antes de 2018: as apostas esportivas eram proibidas no Brasil, mas muitos brasileiros apostavam em sites estrangeiros, o que não era regulamentado.
  • Lei 13.756/2018: autorizou as apostas esportivas de quota fixa (onde o apostador sabe quanto pode ganhar). A regulamentação, no entanto, ainda não tinha sido finalizada.
  • Avanço em 2023-2024: o governo federal avançou na regulamentação, criando regras para a operação, tributação e fiscalização das casas de apostas (conhecidas como bets).
  • 2024 em diante: empresas passaram a poder operar legalmente no Brasil mediante licença do Ministério da Fazenda, pagando impostos e seguindo regras de proteção ao consumidor e combate ao jogo ilegal.

Medidas para corrigir o vício das apostas online

         A atuação preventiva de pais e responsáveis é essencial para promover a conscientização sobre os riscos associados às apostas online e implementar políticas públicas que protejam os consumidores mais vulneráveis.

         Para combater o vício das apostas online é importante adotar medidas em várias frentes: familiar, educacional, psicológica, legislativa e tecnológica. Mas, antes de tudo, é necessário reconhecer o problema e aceitar que se possui o vício, e que ele está afetando a vida pessoal, emocional e/ou financeira. Perguntar a si mesmo: “Já tentei parar e não consegui?” ou “Estou escondendo isso das pessoas?”.

Formas eficazes de proteção:

         1. Fale com alguém de confiança: conte a um amigo ou familiar, pois ter alguém que saiba da situação ajuda no processo. O apoio emocional pode ser essencial para fazer frente ao vício.

         2. Apoio familiar: envolver a família no processo de recuperação. Criar um ambiente de diálogo aberto. Conversar sobre os riscos, supervisionar o uso de tela e estabelecer limites, estimular o pensamento crítico. É importante apresentar formas seguras de obter ganhos com o trabalho, buscar outras formas de entretenimento, ensinar a lidar com a frustração e ter paciência para obter verdadeiras conquistas.

         3. Tecnologia de proteção: instale softwares de bloqueio de sites e apps de apostas como Gamban e BetBlocker, pois ajudam a restringir o acesso a sites de apostas; alertas automáticos com mensagens dentro dos apps/sites mostrando quanto o usuário já perdeu ou passou do limite. Solicite autoexclusão nas plataformas onde se possui conta e evite guardar senhas e dados de cartões em dispositivos.

         4. Reorganize as finanças: cancele ou limite o uso de cartões de crédito. Entregue o controle financeiro temporariamente a alguém de confiança, se necessário. Construa um orçamento realista e acompanhe seus gastos semanalmente.

         5. Preencha o tempo com novas rotinas; substitua o tempo dedicado às apostas por hobbies, exercícios, leituras, voluntariados: quanto mais ocupado estiver, menor a chance de recaída.

         6. Trabalhe o emocional: ansiedade, frustração e solidão costumam alimentar o vício. Práticas como meditação, journaling (diário emocional), esporte e terapia são grandes aliadas.

         7. Tenha paciência com o processo de recuperação: recaídas podem acontecer, e isso não significa fracasso. O importante é voltar ao plano e seguir em frente. Celebre cada semana ou mês sem apostas. Controle os impulsos por meio de virtudes como fortaleza, temperança, ordem e aproveitamento do tempo.

         8. Educação e prevenção: participe de campanhas públicas de conscientização sobre os riscos do jogo e incentive a educação financeira em escolas. Exija das autoridades regulação mais rígida para sites e proibição de publicidade em horários de grande audiência; tornar obrigatória a ferramentas de autoexclusão nas plataformas.

         9. Busque ajuda profissional: apoio psicológico e tratamento terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma abordagem eficaz para tratar o vício dos jogos. Grupos de apoio como Jogadores Anônimos (JA) oferecem suporte emocional e troca de experiências. O SUS (Sistema Único de Saúde), através dos CAPS-AD (Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), oferece serviço público especializado em dependência química ou vícios comportamentais, como o de apostas, por meio de oficinas terapêuticas, grupos de apoio, prescrição de medicamentos (se necessário), acompanhamento, apoio à família, visitas domiciliares e ações comunitárias. Vá a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima e peça encaminhamento, ou vá direto ao CAPS-AD de sua cidade (alguns funcionam por demanda espontânea, sem agendamento).

Jogo do Tigrinho:

         É um tipo de jogo de cassino online, geralmente apresentado como uma máquina caça-níquel (slot machine). O jogo é baseado na sorte, e a maioria dos jogadores perde dinheiro. Popularizou-se no Brasil por ser simples, visualmente colorido e por prometer ganhos rápidos — o que o torna atrativo, especialmente para públicos mais vulneráveis. É divulgado nas redes sociais por influenciadores que mostram supostos ganhos altos para atrair mais jogadores.

         Características principais: funciona como um jogo caça-níquel onde o jogador gira os rolos com o objetivo de combinar símbolos. Possui uma estética infantilizada, com personagens como tigres fofinhos e sons chamativos.

         Problemas e riscos: vicia em jogos (ludopatia) por envolver dinheiro e prometer lucros fáceis, pode causar dependência, perdas financeiras, pois a grande maioria dos usuários perde mais do que ganha.

         Propaganda enganosa: muitos dos “ganhos” mostrados por influenciadores são falsos ou manipulados.

         Legalidade duvidosa: muitos desses jogos são hospedados em plataformas não regulamentadas no Brasil, o que pode envolver lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros.

Como são divulgados: as estratégias são usadas para atrair jogadores, principalmente crianças e adolescentes, que é um público vulnerável. Influenciadores nas redes sociais utilizam vídeos curtos no TikTok, Instagram e Kwai mostram pessoas “ganhando” muito dinheiro em poucos segundos. Os vídeos têm frases como: “Joguei 50 reais e ganhei 5 mil!”, “Esse jogo mudou minha vida!”, “É só jogar nesse horário que você ganha!”. Muitas vezes são montagens ou contas fake pagas para divulgar. Alguns vídeos mostram o jogo editado para parecer que a pessoa ganhou.

         Promessas de vida fácil: a ideia de sair da pobreza rapidamente apela diretamente para quem está em situação difícil. Os anúncios dizem que você pode “ganhar sem sair de casa”, “fugir do patrão”, ou “ficar rico do nada”.

         Estética infantil e apelativa: o jogo utiliza personagens fofinhos como tigres, pandas, ou animais sorridentes. As cores são vibrantes, cheias de luzes e sons que lembram jogos infantis, o que atrai crianças e adolescentes. Parece inofensivo, mas envolve apostas com dinheiro real.

         Bônus falsos e manipulação: sites e apps oferecem “bônus de boas-vindas”, mas muitos são armadilhas: você precisa apostar muito mais antes de poder sacar qualquer valor.

         Links com “comissão”: influenciadores ganham dinheiro se alguém entra no jogo por um link de afiliado. Quanto mais pessoas apostam, mais o divulgador recebe, mesmo que os outros estejam perdendo dinheiro.

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