Nos diálogos cotidianos, duas atitudes são frequentes: ouvir com atenção e interesse ou, ao contrário, escutar de corpo presente, mas com a mente em outro lugar. No entanto, toda boa conversa necessita da escuta atenta para compreender melhor ao outro e construir vínculos profundos e relacionamentos mais humanos: ouvir com atenção é reconhecer que a pessoa que nos fala é naquele momento a mais importante.

         O livro Manu, a menina que sabia ouvir, de Michael Ende, ilustra com ternura a virtude de bem ouvir: Manu escutava com tal empatia e atenção seus interlocutores que, ao desabafarem, acabavam encontrando por si mesmos as respostas que buscavam.

         Os diálogos verdadeiros deixam marcas, provocam reflexões e fazem compreender os sentimentos mútuos. Mesmo quando o assunto não interessa, ouvir com atenção não é hipocrisia, mas obra de caridade, esforço sincero para superar os próprios gostos e tornar agradável a vida aos demais. Quem ouve com atenção passa a ter como próprias as alegrias ou inquietações de quem fala. Além disso, compreender os sentimentos do outro abre campos de conversação e enriquece a ambos os interlocutores.

         Ao se ouvir dizer que tal pessoa sabe escutar, logo vem à mente tratar-se de alguém cujo olhar parece indicar: – O meu tempo é seu; pode falar, pois quero ouvir você. O modelo maior dessa virtude tão atrativa é Cristo, que ouvia com atenção as dores e preocupações dos que falavam com Ele: o jovem rico, as crianças, Nicodemos, a Samaritana, o cego Bartimeu…

         É comum crianças e adolescentes afirmarem que seus pais não lhes dão atenção quando falam, porque não se interessam pelos seus temas. Ter boa comunicação com os filhos é o que todos os pais têm de ansiar, pois se esta porta se fecha não há como educar. A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir de forma aberta e interessada. Ou seja: falar com o filho (dialogar) e não falar para o filho (monologar), pois estes precisam se sentir aceitos pelos pais, com demonstrações práticas de afetos: – Compreendo, filho, o que você está me dizendo; ou por meio de linguagens não verbais que revelam os sentimentos paternos ou maternos pela postura, sem que digam palavra alguma: olhar nos olhos, ouvir com atenção, expressões faciais e tom de voz são mensagens positivas que abrem caminho para uma grata conversação (leia o boletim Comunicação com os filhos)

         Sugestões para uma escuta virtuosa, base para um diálogo enriquecedor:

  • Nunca interrompa quem fala; acolha-o com paciência: quem não encontra espaço para falar percebe que seu interlocutor só se preocupa consigo mesmo.
  • Ao escutar, não fique pensando na resposta que dará ao que fala, como quem quer adaptar a realidade aos próprios interesses: apenas ouça-o com empatia.
  • Fuja de respostas insubstanciais, estereotipadas e que caem no tópico ou frase feita porque não compreendeu ou se desinteressou pelo que foi dito.
  • Evite a presunção de valorizar a própria opinião e os gestos afetados e prepotentes e ao falar.
  • Combata a soberba de ficar suscetível diante de opiniões que discordem de seu parecer, de tratar continuamente sobre si mesmo e de querer dar a última palavra em tudo.
  • Não seja professoral ou como quem fala de cima para baixo, mas ofereça apenas um testemunho pessoal, sem fazer afirmações veementes.
  • Quando alguém se aproximar para conversar, suspenda o que estiver fazendo e dedique toda a atenção a ele.

         Ouvir é mais que uma técnica: é virtude, modo de amar com verdadeira caridade; é sinal de maturidade; é se tornar pessoa confiável, profundamente humana que criadora de relações duradouras: quem ouve atentamente está mais próximo de aconselhar com prudência e acerto. A arte de falar leva em conta a arte de escutar para saber o que dizer. O espírito de quem sabe ouvir se renova constantemente com as novas ideias que recebe com sinceridade e interesse.

O Autor

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