As rotinas ou rituais familiares desempenham um papel fundamental no desenvolvimento saudável das crianças, pois oferecem estrutura, previsibilidade e segurança emocional num mundo que, para elas, ainda parece confuso e imprevisível.

         Em primeiro lugar, as rotinas ajudam a criança a sentir-se segura. Saber o que vai acontecer a seguir — a hora de acordar, comer, brincar ou dormir — reduz a ansiedade e aumenta a confiança. Essa previsibilidade cria um ambiente estável, essencial para o bem-estar emocional. O cérebro infantil aprecia rotinas, pois elas ajudam a criança a orientar-se no tempo e nas atividades, fazendo com que o mundo faça sentido.

         Além disso, as rotinas contribuem para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. Quando a criança participa dos hábitos diários, como arrumar os brinquedos, lavar as mãos antes das refeições, ajudar na reparação da mesa para as refeições ou preparar-se para dormir, aprende gradualmente a cuidar de si e a compreender regras e limites.

         Criar rotinas ou rituais familiares oferece estabilidade e paz no lar. Rituais simples como a hora do banho, do jantar e da história antes de dormir criam momentos de conexão emocional que se tornam verdadeiras âncoras na memória afetiva da criança. A experiência mostra que, anos depois, já adultos, os filhos recordam-se não de presentes caros ou viagens exóticas, mas dos rituais simples: as histórias antes de dormir, o bolo no lanche dos domingos, as conversas no carro a caminho da escola, as brincadeiras com os pais e irmãos.

         Alguns rituais diários têm um impacto profundo no emocional infantil. Antes de sair para a escola, por exemplo, um abraço de dez segundos acompanhado de uma frase de encorajamento liberta ocitocina, o hormônio da conexão, e ajuda a definir o tom emocional do dia. O ritual do jantar em família, sem televisão ou celulares, favorece o diálogo, ensina a ouvir e a ser ouvido e cria oportunidades para os pais partilharem como foi o seu dia, pois saber o que os pais fazem no trabalho desperta grande interesse na criança, a ponto de elas contarem isso à outras crianças.

         O ritual de dormir merece especial atenção, e deve seguir uma sequência previsível que sinalize ao cérebro que é hora de desacelerar: conversa sobre o dia, jantar, banho, pijama, escovar os dentes, contar uma história, oração de agradecimento e beijo de boa noite, sempre na mesma ordem e no mesmo horário. Isso não é rigidez, mas amor expresso em pequenos cuidados. Famílias que enfrentam conflitos constantes na hora de dormir se beneficiam enormemente quando implantam um ritual consistente, pois o cérebro da criança aprende rapidamente a transitar do estado de alerta para o de repouso e sono.

         Outro ritual poderoso é o da reconexão. Ao chegar do trabalho, antes de iniciar as tarefas domésticas, os pais podem dedicar cerca de 15 minutos de atenção exclusiva ao filho: deixar o celular de lado, sentar-se no chão, perguntar como foi o dia e escutar com presença verdadeira e brincar com a criança. Esses minutos previnem horas de birras e comportamentos desafiadores no fim do dia, pois a criança recebe aquilo de que mais precisa: a atenção dos pais.

         Os rituais também transmitem valores importantes. A oração antes do jantar ensina agradecer o dom de poder trabalhar para obter o sustento do lar; ajudar nas tarefas domésticas promove o cuidado e o pensar nos demais; visitar os avós reforça o respeito pelos mais velhos e a valorização da família. Assim, os rituais tornam-se parte da identidade familiar, criam sentido de pertença e constroem memórias compartilhadas que acompanham a criança até a vida adulta.

         É importante, contudo, que os rituais sejam realistas e sustentáveis. Um ritual simples e consistente é mais eficaz do que um complexo e difícil de manter. A consistência é mais importante do que a perfeição. Além disso, os rituais devem evoluir à medida que a criança cresce: o que funciona para uma criança de três anos não será adequado para um adolescente de quinze. O princípio, porém, permanece o mesmo: criar momentos previsíveis de conexão que comunicam “você é importante, é amado.”

         Outro aspeto relevante é o impacto das rotinas no desenvolvimento cognitivo e comportamental. Rotinas bem estabelecidas favorecem a concentração, facilitam a aprendizagem e ajudam a regular o comportamento, reduzindo birras e conflitos, especialmente nas transições entre atividades.

         As rotinas são também essenciais para a saúde física, sobretudo no que diz respeito ao sono e à alimentação. Horários regulares promovem um sono mais reparador, melhor digestão e níveis de energia mais equilibrados ao longo do dia.

         Por fim, é importante lembrar que as rotinas devem ser flexíveis e adaptadas à idade e às necessidades da criança. Não se trata de rigidez, mas de consistência aliada ao afeto, ao diálogo e à adaptação. Em resumo, as rotinas são uma base sólida para o crescimento equilibrado das crianças, ajudando-as a desenvolver segurança, autonomia, saúde emocional e competências essenciais para a vida.

         Leia também o boletim “A rotina na vida da criança”: https://www.ariesteves.com.br/2021/02/a-rotina-na-vida-das-criancas/, de Ari Esteves.

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