1 – Os benefícios das rotinas para as crianças. 2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem. 3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança.

1 – Os benefícios das rotinas para as crianças

    A rotina se insere dentro da virtude da ordem, e são imensos os benefícios que ela traz à criança: é fonte de estabilidade e segurança ao dar confiança sobre o que fazer em cada momento, promove a disciplina interior, ajuda a controlar a afetividade, facilita a obediência, faz o ambiente do lar serenar, o que é importante para a criança.

    É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar a criança em robô. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno da criança. A rotina é o caminho para ela alcançar disciplina interior, controlar a afetividade ao se dirigir às próximas atividades, facilitar a obediência, ganhar habilidades motoras em aprendizados que a ajudarão a dominar o seu mundo afetivo, vivenciando, assim, sua primeira interioridade.

    De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade e brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. A criança não é um mini adulto que procura desafiar os pais, e que precisa ser adestrado: se os pais não a ajudam a ter rotinas, ela ficará desorientada e à mercê de caprichos.

2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem

    A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material (guardar os objetos em seu lugar), ordem temporal (onde se insere cada rotina), ordem afetiva (dos sentimentos, emoções, paixões, que deve começar o quanto antes) e ordem mental (a partir dos seis ou sete anos).

    A rotina pertence à ordem temporal. Os adultos também necessitam fazer as coisas em função do tempo, e não em função das coisas ou tarefas. Gastar três horas para preparar um bolo fará atropelar afazeres mais importantes e essa desordem será causa de afobações e atropelos. A ordem temporal dá paz e ajuda a colocar a cabeça nas pessoas que dependem de nós, sendo mais fácil viver o amor e o serviço a eles. O bolo não pode ser a desculpa para desatender compromissos mais importantes. Uma pessoa que trabalha em função do tempo, e não das coisas, consegue se organizar para os deveres de daqui a pouco, de manhã, da semana que vem, do final do mês…

    Até os cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, pois isso dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar a sua sensibilidade (ordem afetiva).

3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança

    O confinamento imposto pela pandemia revelou que os pais não estão preparados para criar rotinas na vida das crianças. Em atividades online e em outras deixaram os filhos sozinhos ao acreditar que eram pequenos adultos que saberiam se conduzir. As coisas não funcionam assim. Ou seja, não tiveram a paciência de ajudá-los, sentando-se ao lado deles para ensiná-los a se conduzir. Sem isso, a criança se impacienta e desiste logo. Para criar uma rotina é preciso ter paciência e insistir por semanas, e parabenizar o esforço da criança cada vez que alcançou uma etapa.

    A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar livros. A limpeza de uma prateleira de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na estante e retirar o seguinte.

4 – A criança não compreende a sucessão do tempo

    O primeiro aspecto da ordem para a criança é a ordenação material dos objetos: com um ano e pouco aprende a guardar seus brinquedos nas respectivas caixas. Depois, deve ser ajudada a saber o que fazer em seguida (ordem temporal), pois, ao não ter ainda racionalidade, ela não tem senso de previsibilidade ou de sucessão temporal e poderá ficar apenas à mercê de seus caprichos, sem se importar com mais nada. É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas, ao não saber o que fazer, ela se inquieta, torna-se confusa e pode chegar à irritação ou habituar-se às desordens.

    A criança pequena não distingue o passado e o futuro, mas apenas o presente. Dizer para uma criança que irá passear daqui a uma semana não quer dizer nada, pois apenas consegue ver o dia de hoje. Ela não tem noção de que é um dia tem vinte e quatro horas, que uma semana tem sete dias e um mês trinta dias. Ao ouvir contar as histórias da Bíblia, ela pensa que Abraão, Moisés e Cristo eram coleguinhas que viveram na mesma época (séculos, o que é isso?).

    A criança nunca sabe o que vem depois: se é hora de lanchar ou de brincar. O mesmo acontece com um adulto colocado em ambiente onde não sabe o que fazer, tal como em um acampamento militar, não sendo militar: ficará desorientado. É preciso mostrar a sequência de atividades de um modo que ela entenda, por exemplo, colocando na parede uma cartela com desenhos coloridos que indiquem a sequência das atividades. Em cada sala de aula da Escola Porto Real, no Rio de Janeiro, há uma pequena cartela com as 15 atividades que as crianças desenvolverão no período integral. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, as crianças não saberiam o que fazer e iriam ou para o lanche ou para o pátio antes da hora prevista.

    A criança deve fazer as coisas ao seu ritmo, e não no dos adultos. A ajuda na sucessão das atividades deve ser feita com paz e serenidade, pois isso tranquiliza a criança. Somente por volta dos sete ou oito anos é que ela saberá se organizar sozinha; antes disso dificilmente conseguirá.

Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, com base na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.

O Autor

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