O contato com a arte e a cultura é essencial para qualquer pessoa, e deve começar na fase instrucional da criança. A falta de interesse de muitos pais por esses temas fará seus filhos se lamentarem mais tarde de que a falta gosto lhes atingiu porque seus pais agiram preguiçosamente nesses aspectos. Temas culturais e artísticos não são apenas extras na educação, porque fazem vivenciar experiências que unem conhecimento, emoção e realidade, tornam o processo de aprendizagem mais envolvente e significativo, entram em contato com tradições, histórias, valores e conhecimentos que ensinam a interpretar significados, analisar contextos e a refletir sobre questões sociais, políticas e históricas. Todos esses enfoques são fundamentais para potencializar as competências exigidas em qualquer atividade.

         Saber apreciar uma obra artística contribui para a construção da identidade: capacita para observar além das realidades cotidianas, torna a pessoa mais sensível e capaz de expressar suas emoções, estimula a imaginação e a criatividade, permite explorar ideias e desenvolver soluções originais para muitos problemas.

Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

         Não é necessário ser rico para estimular o encontro com a cultura ou admirar-se diante da multiforme capacidade dos artistas para transformar diferentes materiais em objetos plenos de beleza. Saber escolher o que é bom e belo pode ser realizado de diversas formas: selecionar bons vídeos culturais, artísticos e históricos e trocar impressões sobre eles; ir a encontros artísticos gratuitos em espaços públicos; visitar exposições e sites de museus; passear no campo ou parques para despertar o espírito de contemplação ao apreciar a natureza. A mãe de Gaudí, o grande arquiteto espanhol, levou seu filho desde criança para apreciar os campos, e o artista assimilou seus elementos e os colocou na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona, onde as colunas do templo são como imensos caules de árvores segurando as abóbadas. Ao ouvir o canto dos pássaros e os infinitos seres que vivem junto às plantas, as crianças descobrem a beleza nas coisas simples, e não em imagens irreais das telas digitais.

         Cada família tem seu patrimônio cultural que deve ser transmitido às crianças por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos, gravações de viagens… Narrar a vida sacrificada e virtuosa de muitos familiares falecidos deixam marcas profundas e incentivam crianças e adultos a imitarem suas atitudes como uma marca ou tradição da família. As tertúlias ou bate-papo entre familiares e amigos podem abordar descontraidamente temas culturais e artísticos, narrar viagens ou prática esportiva, tocar instrumentos musicais… São momentos de forte imersão para todos, principalmente para as crianças e os adolescentes.

Há muitos modos de fomentar nos filhos o amor à arte e à cultura:

FILMES: o cinema pode se tornar uma metodologia simples e acessível para a educação dos sentimentos, nesta época em que impera a cultura da emoção e da imagem. Os enredos possibilitam o diálogo familiar diante de atitudes de personagens que tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudando a refletir como cada um conduz a própria vida. Os sentimentos, emoções e paixões não devem ser ignorados no processo educativo de adolescentes e jovens, e cabe aos pais e educadores servir-se da afetividade como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual.

TEATRO: é expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o conhecimento pessoal como para a vida, pois com seu forte realismo ganha-se experiência por meio de vidas alheias. O teatro ensina colaborar, escutar e trabalhar em grupo. As boas peças teatrais, mesmo em vídeos, nos colocam com diante do bem e do mal: noAuto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, revela-se o valor da fidelidade, como a de Penélope e Ulisses; Macbeth, de Shakespeare, nos mostra como o desejo de poder pode levar uma pessoa a cometer loucuras; Hamlet traz à baila a tragédia de um príncipe que busca vingar a morte de seu pai, e essa densa narrativa de conflitos familiares, amores, loucura e sanidade desvenda até onde pode chegar a condição humana.

PINTURA: apreciar pinturas pode parecer algo “simples”, mas na verdade traz várias vantagens emocionais e cognitivas. Há obras que despertam sentimentos profundos de calma, nostalgia, alegria e até inquietação, o que ajuda a entrar em contacto com as próprias emoções de forma mais consciente. Melhora a atenção aos detalhes ao treinar o cérebro a notar cores, formas, luz, sombras e composição. Essa observação refinada influencia a forma de ver o mundo no dia a dia. Certas obras fazem viajar no tempo ao abordar temas históricos, contextos sociais e ideias de diferentes épocas. A pintura estimula a criatividade ao ver como os artistas expressam suas ideias. Contemplar um quadro faz desacelerar, porque não é só “olhar”, mas interpretar, sentir e refletir. E quanto mais se aprecia essa arte, mais rica a experiência se torna.

Como animar as crianças a visitar exposições de pintura? Entrar no site da galeria e selecionar junto com o filho, os quadros que ele mais gostou. Ao chegar no local, iniciar uma espécie de jogo de encontrar a obra, e perguntar à criança o que ela acrescentaria na pintura, a fim de que comece a se fixar nos detalhes. Mas não manifeste opinião negativa sobre o gosto da criança para não a desconcertar ou inibir.

ESCULTURA é arte tridimensional: envolve altura, largura e profundidade. Transforma matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore…) em significado estético, que leva o apreciador a admirar-se da capacidade criadora do artista de manejar instrumentos e dar “vida” a materiais inertes. Ao contrário da pintura, a escultura pode ser vista de vários ângulos e, em alguns casos, até tocada, o que cria uma relação mais física e imersiva com a obra. Esta arte carrega emoções e intenções do artista como dor, beleza, tensão, espiritualidade, e quem a observa pode até projetar os seus próprios sentimentos na obra. Muitas esculturas não são apenas decorativas, mas provocam ideias, questionamentos, debates sociais; podem trazer novas perspectivas sobre a vida, momentos históricos ou a condição humana. Frequentemente representam épocas, crenças ou figuras importantes, e fazem conectar-se com outras culturas. A escultura dialoga e transforma e embeleza o espaço público ou privado. O prazer de contemplar formas com equilíbrio e beleza é experiência que acalma, inspira e emociona.

LIVROS DE LITERATURA enriquecem a nossa compreensão de mundo e abre a porta para realidades desconhecidas. “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

As obras de qualidadepermitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. O amor pelos livros é forte antídoto para as crianças se verem livres do vício das telas digitais. Mas para isso, os pais devem se esforçar para ser bons leitores. Contos, romances e novelas oferecem muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos programas de tv, desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A leitura torna criativa a imaginação e desenvolve a inteligência para a compreensão de textos. Um excelente plano é ler para as crianças pequenas e visitar com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e deixá-las escolher um livro. Inscreva seu filho na biblioteca pública do bairro.

POESIA: promover em casa a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Os poetas são os que melhor utilizam as palavras que, para eles, têm cor, cheiro, sabor, musicalidade. Com palavras bem pensadas e artisticamente colocadas, eles transmitem sentimentos e nos levam a expressar melhor o que sentimos, além de ensinar a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.

MÚSICA: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem em exaustão nas mídias ou em pancadões em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam introduzir as crianças ao que é estética e moralmente mais belo. Seja ao vivo ou em vídeos, promover para elas audições musicais de diferentes gêneros: Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz… Fugir da subcultura da moda, que vem causando grandes danos à sensibilidade estética.

         É tarefa dos pais promover um sadio ambiente cultural na família e ampliar a sensibilidade de todos diante das diferentes formas de beleza, dando eles o exemplo, pois “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz aquele com exemplos”, dizia Sêneca. Para isso, os pais podem contar com o apoio e sugestão de pessoas amigas e apaixonadas pela arte e cultura.

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