Quando se evita as pequenas dificuldades da criança, retira-se dela a oportunidade de compreender o verdadeiro valor das coisas. Como um filho valorizará o par de sapatos ou tênis limpos se nunca os limpou? Como agradecerá uma mochila organizada se nunca a arrumou?

         A gratidão não se ensina com discursos: nasce do esforço, da espera e da conquista. Se a mãe sempre leva a toalha para o filho antes de sair do banho, ele nunca a agradecerá por isso porque julga que é dever dela. Agora, se foi ensinado para que ele mesmo leve a toalha, mas um dia a esquece, saberá agradecer sua mãe pelo gesto de levar até ele. Delegar tarefas adequadas à idade de cada filho é ensinar responsabilidade, espírito de serviço e autonomia. Ao se facilitar tudo para os filhos elimina-se o esforço que deveria fazer e retira-se dele algo fundamental para seu desenvolvimento como pessoa: o valor das conquistas pessoais.

         Crianças sonham com presentes! Se os pais agem como fada madrinha ao realizar prontamente o seu desejo, roubam delas a importante experiência da vida de saber esperar, pois sempre há um percurso entre o desejo e a conquista. Se cada capricho do filho é rapidamente atendido, os pais fazem com que ele perca o sentido do esforço, a capacidade de esperar e suprime-se dele a criatividade para buscar soluções e a consequente alegria de uma conquista baseada no esforço pessoal.

         Não realize seus desejos imediatamente. Pergunte a ele, se pede um patinete, como pensa juntar dinheiro para comprá-lo. Talvez ele sugira poupar o dinheiro dos refrigerantes e doces que costuma comprar na escola, guardará a mesada dos próximos meses, poderá sugerir que lavará o carro da tia para receber algo por isso, venderá trufas na escola e pedirá ao pai que as venda no emprego dele…

         A cultura da satisfação imediata liga-se ao erro que padece a sociedade atual, e que pode ser replicado no próprio lar sem que se perceba: o vício da intemperança e da impaciência, o viver obcecado por novidades, o consumismo fácil, a busca constante por entretenimento. Soma-se a essa postura algo sútil como a de obter sucesso em tudo, apresentar-se socialmente como vencedor, desejar brilhar e só pensar em si mesmo. Para não transferir essa sutil pressão aos filhos, ao invés de elogiar o desenho que ficou bonito, elogie o esforço, as horas de concentração e as várias tentativas que não deram certo. Assim, ele perceberá que o mais importante não foi o sucesso, mas o esforço para alcançar o objetivo desejado. Se a criança lavou os pratos, mas não ficou bem limpo, não a critique por isso, mas elogie o esforço para levar os pratos.

         A vida não está no sucesso, mas nas tentativas em cada passo do caminho. Elogiar apenas o resultado é transmitir que o valor está no sucesso e não no esforço, o que cria insegurança e medo de falhar.

         Mude o foco dos elogios: ao invés de dizer “Que nota boa!”, diga “Percebi o quanto você estudou para essa prova”. Em vez de dizer: “Parabéns, você ganhou!”, diga “Sua determinação foi incrível, e isso valeu tudo, mesmo que você não tivesse ganhado!”. Assim, transmite-se que o verdadeiro valor está no empenho e na perseverança.

Permita que seu filho experimente perdas

         Não impeça que seu filho sinta frustração. Perder um jogo ou não conseguir o que deseja logo na primeira tentativa faz parte da vida. Acolha sua tristeza, console-o, mas mostre que essa é uma oportunidade de aprender e crescer. É assim que se constrói a fortaleza emocional.

         A perda da noção do valor do esforço, a satisfação imediata dos desejos e a obsessão pelos resultados é caminho para a ingratidão, para uma relação que, embora tenha nascido do amor, impede a criança de aprender a ser grata. O erro não está no amor dos pais, mas no modo como este amor foi compreendido e demonstrado: no excesso de facilidades que impediram as conquistas próprias, nas cobranças pelo sucesso e no silêncio diante dos esforços empreendidos. Tudo isso faz a criança sofrer mais.

         Se a criança vive numa bolha onde tudo está facilmente disponível, o carinho perde significado e deixa de ser percebido como um presente e passa a ser visto como um direito. A ingratidão é o grito silencioso de uma alma que, mesmo cercada de bens materiais, sente o vazio provocado pela ausência do valor da gratidão. Essa é uma verdade dolorosa: as tentativas de proteger o filho de toda dificuldade privaram-no da capacidade de ser grato.

         Porém, a boa notícia é que tudo isso pode ser mudado. Essa transformação não exige brigas, castigos ou grandes sacrifícios: começa e termina na maneira dos próprios pais entenderem o significado do verdadeiro amor.

         Evitar a proteção exagerada, permitir pequenas privações planejadas e incentivar o esforço reduz a ingratidão e cria filhos fortes, independentes, mais conectados e agradecidos. A transformação é possível e pode começar hoje. A criança deixará de ser ingrata quando vivenciar uma forma de amor que a prepara para a vida e a ensina a valorizar cada gesto de carinho. Essa nova maneira de compreender o papel de pai ou mãe é a senda que tornará cada filho mais agradecido e completo.

Texto produzido por Ari Esteves com base no vídeo “La psicología del hijo ingrato: lo que ningún padre quiere aceptar”, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DRB91T8OUZU

O Autor

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