“Não o esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. Não cries necessidades” (Caminho, 630).

         Vivemos numa sociedade dominada pela idolatria do consumo. . A todo momento, somos bombardeados por apelos para adquirir alguma coisa: mais aparelhos eletrônicos, mais viagens, mais carros, mais artigos esportivos, mais roupas, mais, mais, mais… Os arquitetos do consumismo querem nos convencer de que nunca temos o suficiente, de que só seremos felizes se possuirmos aquilo que nos oferecem e de que nossa personalidade deve se confundir com os objetos que possuímos. Trata-se de uma busca interminável por conforto e comodidades. Assim que adquirimos algo surgem novas ofertas, que nos instigam a comprar sempre mais. Desse modo, dispersamos nossas energias em interesses cada vez mais díspares e corremos o risco de perder a unidade interior. Por fim, “as nossas opções fundamentais são postas à prova” (Leão XIV).

         Quando os bens materiais deixam de ser meios para facilitar a vida e se tornam metas ou finalidades da existência, passamos a ser dominados por eles: em vez de possuí-los, somos possuídos. O desejo de ter transforma-se num redemoinho que absorve os pensamentos, consome o tempo e rouba a paz interior. O desmedido afã de possuir objetos e comodidades alimentam diariamente a cobiça de pessoas e famílias como se fossem esses o fim do homem na terra.

         Ao não colocar limites em nossos desejos, passamos a confundir necessidades reais com as artificiais que são despertadas pela publicidade, pela comparação com os outros e pela busca de reconhecimento. Chegamos até a confundir nosso valor como pessoa com a imagem dos objetos que aspiramos ou possuímos. Precisamos ser exigentes conosco para não inventar falsos problemas, necessidades que procedem do capricho e de um espírito comodista.

         Os bens materiais são úteis quando atendem a necessidades reais, facilitam a vida, contribuem para o desenvolvimento pessoal e permitem servir melhor aos demais. O perigo surge quando se deposita neles a esperança de encontrar a felicidade, atribuindo-lhes um lugar que não lhes corresponde. Não se preenche o coração humano com coisas, mas com amor. Nenhum objeto, por valioso que seja, substitui o afeto da família, as amizades sinceras, a paz de consciência, as alegrias da fé em Deus e a satisfação de prestar um serviço aos outros por meio de um trabalho bem-feito.

         Como superar, então, essa visão materialista da vida? É preciso alimentar a inteligência com motivos profundos que orientem a vontade para o que realmente vale a pena. Essa formação se concretiza nas virtudes, como a sobriedade, o desprendimento e a disposição de compartilhar. Pela inteligência, aprendemos a discernir o que é necessário, útil ou supérfluo; pela vontade, fortalecida pelas virtudes, adquirimos a capacidade de moderar nossos desejos e de não nos deixarmos governar pela paixão de possuir. Não se trata de desprezar os bens materiais, mas de colocá-los no lugar que lhes corresponde.

         Ao distinguir o necessário do supérfluo, descobrimos que a vida oferece riquezas que não dependem do poder de compra. O desprendimento ilumina a inteligência e abre espaço no coração para os bens espirituais e o desejo de ocupar-se dos demais. Apreciar a boa literatura, assistir a bons filmes, aprofundar a fé, cultivar as amizades e melhorar o temperamento e o caráter são formas de crescimento que enriquecem verdadeiramente a existência. As virtudes da sobriedade e do desprendimento também nos dão coragem para não nos deixarmos conduzir pela opinião alheia nem pela ideia de que nossa dignidade depende daquilo que possuímos. Quando alguém mede-se não pela consciência honesta que tem de seu caráter, mas pelo carro que dirige, pela roupa que veste ou pelos objetos que exibe, tem uma imagem falsa e pobre de si, e se torna dependente da opinião alheia. Quem é rico interiormente não depende de objetos ou da opinião alheia.

         Alimentar cada vez mais o desejo de possuir não significa ir ao encontro da felicidade, mas atar-se por muitos fios carregados de preocupações, ansiedades e insatisfações. Quanto maior for a dependência de objetos externos, menor a liberdade interior. Por isso, contentar-se com passar a vida sóbria e temperadamente é sabedoria que ordena os afetos, modera os desejos e dá asas ao espírito para voar mais alto.

         A verdadeira riqueza está em saber o que realmente precisamos, agradecer pelo que temos e compartilhar com os que não possuem. E quando nos faltar alguma coisa, em vez de nos deixarmos dominar pela tristeza ou inveja, recordar o exemplo de Cristo que, podendo dispor de todas as riquezas do mundo, escolheu uma vida de pobreza e desprendimento para nos ensinar que não podemos servir a dois senhores: a Deus e aos bens, pois escolheremos um e odiaremos o outro (Mt 6,24).

         O sentir-nos verdadeiramente livres começa justamente quando descobrimos que não precisamos de muitas coisas para sermos felizes. Afinal, tem mais quem precisa de menos! Tem mais quem sabe discernir o essencial e conserva o coração livre para amar a Deus, as pessoas e ao que verdadeiramente dá sentido à vida.

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