1. A família: o primeiro ambiente de formação da pessoa
Nascemos em uma família e nela estabelecemos nossos primeiros vínculos afetivos. É também nela que encontramos segurança e proteção durante os primeiros anos de vida, até conquistarmos nossa autonomia. Os pais transmitem a vida aos filhos e, por isso, têm a grave responsabilidade de educá-los. Devem ser reconhecidos, portanto, como seus primeiros e principais educadores.
A família é a primeira escola das virtudes sociais de que a sociedade necessita. É nela que encontramos as primeiras experiências de uma convivência humana saudável e aprendemos a nos relacionar com os outros. Os membros de uma família compartilham o mesmo espaço, as refeições, os objetos e as experiências cotidianas. Nessa convivência, cada pessoa é conhecida em sua individualidade e acolhida pelo que é, e não simplesmente pelo que faz ou pela função que desempenha.
Na empresa, por exemplo, as pessoas costumam ser reconhecidas pela profissão, pela especialização ou pelo trabalho que realizam. Na família, ao contrário, a pessoa é acolhida simplesmente porque pertence a ela. Essa é uma característica fundamental da família: ela é uma sociedade natural, fundada nos vínculos entre as pessoas, e não uma organização constituída apenas para alcançar determinada finalidade, como acontece com uma empresa ou uma instituição.
2. A segurança familiar e o sentimento de pertencimento
A família proporciona à pessoa a segurança que nasce desua aceitação incondicional. Fora dela, podemos conquistar a confiança e o reconhecimento de outras pessoas ou organizações, mas essas relações geralmente dependem de nossas realizações e do papel que desempenhamos.
Na família, porém, o valor de cada pessoa está ligado ao que ela é. Sua aceitação não depende de seu desempenho, embora isso não signifique que seus comportamentos não possam e não devam melhorar. Para crescer, todo ser humano precisa de raízes afetivas, históricas e de pertencimento. Precisa sentir que faz parte de uma história que começou antes dele e que continuará no futuro. A segurança familiar proporciona esse enraizamento tão necessário ao desenvolvimento pessoal.
O próprio ambiente da casa contribui para isso. As fotografias dos antepassados, os objetos que pertenceram aos avós, uma jarra de louça herdada da bisavó e tantas outras lembranças ajudam cada membro a perceber que está inserido em uma história familiar que lhe pertence. Esses elementos criam um ambiente próprio, que não se repete em nenhuma outra família. São referências que transmitem identidade, continuidade e proteção.
Quando os filhos saem de casa e enfrentam as contradições, as dificuldades e as decepções do mundo, mas no ambiente familiar encontram a segurança do acolhimento, a confiança dos pais e a permanência dos vínculos afetivos. Essa segurança não impede o crescimento nem a autonomia. Pelo contrário, oferece a base necessária para que cada um desenvolva sua personalidade e enfrente o mundo com confiança.
3. A família favorece o desenvolvimento da intimidade e da liberdade
A família, por ser uma organização natural, possui condições próprias para favorecer o aperfeiçoamento de seus membros. Sua missão é ajudar cada pessoa a desenvolver aquilo que tem de mais próprio e singular: sua intimidade, suas capacidades e suas potencialidades.
Para desenvolver a intimidade e, com ela, a liberdade, é necessário começar pelo conhecimento pessoal. Cada um precisa descobrir suas possibilidades, reconhecer suas limitações e aprender a aprimorar suas capacidades. Esse processo exige a aquisição de bons hábitos de comportamento, que permitem à pessoa progredir em três aspectos fundamentais: conhecer-se, dominar-se e entregar-se ao serviço dos outros. É justamente nesse processo que as virtudes humanas desempenham um papel essencial. Elas ajudam a pessoa a orientar sua inteligência, fortalecer sua vontade e agir livremente, de acordo com aquilo que reconhece como bom. Podemos afirmar, portanto, que a maturidade humana resulta do desenvolvimento harmonioso das virtudes. E a sociedade necessita de pessoas que tenham alcançado essa maturidade.
4. A motivação para viver as virtudes: o amor
Para desenvolver uma virtude, são necessários dois fatores: a intensidade com que ela é praticada e a retidão das motivações que levam a pessoa a praticá-la. Em muitos ambientes sociais, o desenvolvimento de determinadas qualidades está associado à obtenção de resultados econômicos, ao reconhecimento ou à conquista de poder. Na família, porém, existe uma possibilidade muito mais profunda: ajudar seus membros a desenvolver as virtudes por amor, pelo desejo sincero de que os outros cresçam e melhorem.
Quando convivemos intimamente, percebemos que fazemos parte de uma mesma realidade familiar. Por isso, o progresso de cada um interessa a todos. Ajudar um filho, um irmão ou os próprios pais a melhorar não é apenas cumprir uma obrigação: é uma manifestação concreta de amor.
A família também exerce uma função importante ao ajudar seus membros a assimilar as influências culturais e sociais que recebem do ambiente externo. Ela os ensina a discernir o que é verdadeiramente importante, incorporando aquilo que contribui para seu crescimento e para o bem da sociedade.
5. A unidade familiar e seu estilo próprio
A unidade da família não significa que todos devam pensar, agir ou se comportar da mesma maneira. Ela consiste no fato de seus membros compartilharem e respeitarem determinados critérios, valores e princípios verdadeiros. Quando existe concordância sobre esses fundamentos, cada pessoa pode desenvolver seu próprio estilo, sua personalidade e suas capacidades.
Cada família constrói um estilo próprio à medida que seus membros se esforçam por cultivar determinadas virtudes e viver valores comuns. Uma família sem estilo é aquela em que falta uma unidade de propósito, uma intenção compartilhada que oriente a convivência.
Um dos valores mais importantes que a família pode descobrir e transmitir é o desejo de aperfeiçoamento pessoal a serviço dos outros. Isso exige que os pais não anulem as possibilidades de crescimento e de convivência íntima dos filhos, mas criem condições para que todos alcancem uma maturidade humana e espiritual cada vez maior. Uma das maneiras de impedir esse desenvolvimento é concentrar a atenção da família em comportamentos triviais, sem significado, deixando de lado o que realmente importa.
Há famílias em que a convivência acaba dominada por invejas, censuras, cobranças, ressentimentos e humilhações. Em contrapartida, quando existe confiança nas pessoas e esperança em suas possibilidades, os filhos aprendem a reconhecer o valor de cada um e a desenvolver suas capacidades. Esse ambiente de confiança amplia seus horizontes e os ajuda a descobrir que a vida não deve estar centrada apenas nos próprios interesses, mas também no amor e no serviço aos outros.
6. O desenvolvimento integral da pessoa
Cada pessoa possui qualidades, características e potencialidades que, muitas vezes, permanecem adormecidas. Quanto mais consegue desenvolvê-las, mais condições terá de colocá-las a serviço dos outros. Estamos falando da formação integral: desenvolver harmoniosamente as capacidades humanas, a intimidade, a liberdade e as virtudes. Graças aos seus vínculos naturais, a família favorece esse desenvolvimento de maneira muito particular. É nela que a pessoa encontra as primeiras condições para descobrir quem é, reconhecer suas limitações, desenvolver suas capacidades e aprender a conviver.
Se compreendermos o ser humano como um ser livre, perceberemos que ele necessita da família para conhecer suas possibilidades e limitações, superar umas e aproveitar outras. Tudo isso tem como finalidade alcançar um maior domínio de si mesmo, para poder servir melhor aos demais. Da mesma maneira, se entendermos a sociedade como uma comunidade de pessoas livres, veremos que ela também necessita da família.
A qualidade da sociedade depende, em grande parte, da riqueza humana e das virtudes desenvolvidas por seus integrantes. Quando, ao contrário, a sociedade deixa de reconhecer a liberdade e a individualidade das pessoas, corre o risco de reduzi-las a funções e comportamentos padronizados. Nesse modelo, cada um é valorizado pelo papel que desempenha, e não por aquilo que é. A família, em sua natureza própria, favorece justamente o contrário: o desenvolvimento de pessoas livres, com identidade, personalidade e capacidade de contribuir para o bem comum.
7. A generosidade: uma virtude que nasce na família
A família é uma organização natural de relações entre pessoas que podem descobrir, na própria convivência, uma finalidade comum: ajudar umas às outras a se aperfeiçoarem e a amarem. É nela que encontramos o primeiro ambiente de aprendizagem da generosidade e experimentamos a satisfação profunda que nasce da preocupação com os outros. Ao mesmo tempo que aprendemos a nos doar, recebemos a atenção e o amor dos demais.
A pessoa encontra na família uma primeira experiência de satisfação e segurança porque se sente objeto de um amor que acolhe os aspectos mais próprios e singulares de seu ser. Essa experiência inicial será enriquecida pelo trabalho, pelas amizades e pelas demais relações sociais e profissionais. Precisamos aprender a desenvolver nossa capacidade de amar e de nos entregar aos outros em todos esses ambientes, e também em nossa relação com Deus. O trabalho bem realizado, o reconhecimento dos amigos e a possibilidade de ajudar outras pessoas também contribuem para nossa realização.
Entretanto, a satisfação mais profunda nasce de uma vida orientada para o bem, na qual procuramos contribuir para o bem-estar físico e espiritual dos outros. Essa finalidade se manifesta nas realidades mais naturais da existência: na família, nas relações humanas, no trabalho e na própria natureza. Diante da imensidão da criação, reconhecemos nossa pequenez, mas também nossa importância como parte de um conjunto e nossa missão de glorificar a Deus.
8. A família como origem e fundamento do desenvolvimento das virtudes
A família é um ambiente privilegiado para o desenvolvimento das virtudes humanas. Sem ela, seria muito mais difícil adquirir determinados hábitos bons com a intensidade e a retidão de intenção necessárias. Sua própria estrutura oferece condições que favorecem o crescimento pessoal. Posteriormente, algumas dessas experiências poderão ser enriquecidas em outros ambientes e relações, mas a família constitui o primeiro espaço natural em que elas se desenvolvem.
São muitos os valores que podem ser vividos e descobertos no seio familiar: o sorriso confiante de uma criança pequena, a lembrança das dificuldades enfrentadas em conjunto, a memória dos sonhos e projetos compartilhados, a paz e a alegria que sentimos ao dizer: minha casa. Essas experiências revelam algo muito profundo: a família é mais do que um espaço físico ou uma organização de pessoas. É uma comunidade de amor, pertencimento e confiança, na qual cada um pode descobrir seu próprio valor e aprender a colocar suas capacidades a serviço dos demais. Por isso, a família possui um valor permanente e insubstituível na formação da pessoa e na construção de uma sociedade verdadeiramente humana.
Resumo do capítulo “O valor permanente da família”, do livro “A educação das virtudes humanas e sua avaliação” de David Isaacs, impresso por Várzea da Rainha Impressores, 2015, Portugal.
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