1 – Conhecer-se para se construir. 2 – O risco de fugir de si. 3 – Ser ou ter, eis a questão. 4 – Verdades perenes. 5 – Elementos para construir o eu. 6 – A função das virtudes.
1 – Conhecer-se para se construir
Quem sou diante dos meus próprios olhos? A necessidade de identidade é profunda no homem, e só quem se conhece poderá chegar à melhor expressão de si mesmo. O “eu” de cada pessoa não se confunde com seus braços, pernas, inteligência ou vontade, porque trata-se de sua dimensão espiritual, a consciência de si, o centro de suas decisões e onde residem o amor e o querer. O “eu” deve ter senhorio sobre as demais potências (inteligência, vontade e afetividade), e isso se alcança por meio de uma contínua formação que alimente a inteligência com a verdade, potencie as qualidades e elimine os defeitos e imperfeições que todos os filhos de Eva possuem.
Ser inconformistas consigo e não conviver com os erros como quem cultiva bactérias dentro de si: “Não digas: Eu sou assim… são coisas do meu caráter. São coisas da tua falta de caráter…” (Caminho, no 4). Quem diz “é que sou assim”, também poderia dizer “eu me fiz assim”. João Paulo II, na Carta aos Artistas (04-05-1999), diz: “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra”.
2 – O risco de fugir de si
O perigo que assedia o homem moderno é o de mexer-se muito e andar na superfície de si: lê biografias, sabe da vida de artistas e esportistas, mas pouco entende de si. O excesso de imagens consumidas diariamente lhe dá a ilusão de que conhece tudo, porém, ao não saber processar tantas informações desencontradas, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas que, ao ser desligadas, também o apaga porque tudo resumiu-se em curiosidades. Foge de refletir sobre si mesmo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som porque teme o silêncio, em casa se lança afoito ao controle da TV a fim de ouvir todos os noticiários do dia. Nos fins de semana curte baladas, festas, toneladas de vídeos. E assim, o barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco para dizer. No domingo à tarde, ao se ver obrigado a frear seu frenesi e encontrar-se consigo, sente tédio. Viver esse tipo de vida só é possível ao narcotizar a consciência e chamar a preguiça de “necessidade de descansar”; a covardia de “não ser intolerante”. Mas isso tem um preço, porque ao desconhecer a verdade sobre as realidades que o cercam produz desconcerto e conflitos pessoais que o conduzirão a terapias.
Um autor, se não me falha a memória é Lopes Quintás, refere-se a certa mãe que responde à filha que lhe foi pedir conselhos porque estava com um problema no casamento: − Você quis se casar, agora aguente!, e se pergunta esse autor: Agiu bem essa mãe? Foi profunda a sua resposta? Aguentar é o termo correto? Bem, podemos imaginar que a mãe talvez passasse muitas horas consumindo informações e curiosidades, mas não soube ter presente os valores que estavam em jogo, a fim de ajudar a filha a ser fiel e a levar adiante o lar, mesmo ao sacrificar algo. Poderia ter ajudado a filha a reconquistar o marido e a seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra diante de Deus, e de educar os filhos que o casal possuía.
3 – Ser ou ter, eis a questão
Num plano mais superficial a necessidade de ser que cada um sente, se confunde com a de ter, de se identificar com os objetos que possui: moto, carro, aparência física para chamar a atenção… E quando se envelhece ou as coisas perdem atualidade, instala-se o desconcerto e o vazio interior.
Quem identifica o seu ser com os seus talentos ou habilidades esportivas, intelectuais, profissionais ou artísticas, também confunde o ter com o ser, pois ao perder essas capacidades pela velhice, doença ou acidente, vem a crise e a falta sentido da vida. É bom sentir-se capaz de realizar algo para servir aos demais. Porém, ninguém vale pelo que sabe ou não fazer, mas porque é uma pessoa cuja alma foi criada por Deus.
Deixar-se levar pelos vícios é mais fácil − e enganoso − , porque prometem muito com pouco esforço, mas ao final dão pouco, embotam a alma e são causas de tristezas. Quem carece de virtudes não será capaz de empreender projetos de envergadura, nem se lançará a realizar grandes ideais. Uma vontade fraca, pouco exercitada, permite que a pessoa seja facilmente arrastada por sentimentos e paixões desordenadas.
4 – Verdades perenes
Quem se nega a descobrir verdades sobre si e acerca de tantos outros temas como família, namoro, casamento, filhos, trabalho como meio e não fim, sexualidade, tentará se dirigir a um ponto de luz onde pensa residir a felicidade, mas quanto mais corre, mais se distanciará dela, e perceberá que se encontra sobre um iceberg à deriva no oceano.
Em qualquer época sempre existiu para o homem verdades perenes que não dependem da opinião: honra, lealdade, fidelidade, não atraiçoar… É fácil aceitar que existam verdades no campo das ciências exatas (química, física, matemática), porque elas não dependem da opinião humana. Porém, existem princípios e verdades que devem nortear a vida do homem, ao aceitá-las livremente: fazer o bem e evitar o mal, não roubar, trabalhar bem, não mentir, ser honesto, entre tantas outras. Se uma sociedade se tornar relativista correrá o perigo de ficar sem bases firmes, e não saberá distinguir entre o bem e o mal. Com isso, ao não saber defender as verdades, as pessoas não se corrigem e em nome da espontaneidade passam a agir como gostam e não como devem, derivando disso muitas injustiças contra o próprio homem. No fundo, tornam-se perenemente presentes as palavras de Pilatos: “O que é a verdade?”.
5 – Elementos para construir o eu
É necessário melhorar o temperamento, o caráter e os sentimentos, pois afetam o nosso modo de ser, compreender e agir. Muitos concentram o seu esforço apenas em aprimorar a instrução profissional, que é só um aspecto da educação humana, e desatendem a sua formação integral: quem estaciona no conhecimento técnico tem uma visão pobre de si, da família, da pessoa humana, da cultura, do bem comum, da religião…
O caráter, que influi na postura que temos diante da vida, se forja e se modifica pela influência dos conhecimentos auferidos na família, trabalho, escola, rua, amigos, meios de comunicação, livros… Tais conhecimentos ofertam conceitos, preconceitos e modo de ver e compreender a realidade. Já o temperamento é genético e faz parte do jeitão de ser de cada um: tímido, extrovertido, ansioso, distraído, colérico… Ao homem lhe é dada a capacidade de atuar sobre o seu temperamento, caráter e afetividade, a fim de melhorá-los.
É tão comum taxar alguém por algum defeito que possui: distraído, pavio curto, paradão, inseguro, mentiroso… O pior é constatar que os anos passam e a pessoa não muda porque não luta, o que afetará seu modo de trabalhar, de reagir diante dos acontecimentos e nas relações com os demais. Não podemos admitir os defeitos em nossa vida como quem admite um fato inexorável, imodificável, pois seria como criar micróbios dentro de si. O impulsivo por temperamento deve lutar para ser paciente, o preguiçoso necessita fazer atos de fortaleza ao não protelar o cumprimento dos deveres, o melancólico pode utilizar sua sensibilidade para fazer amigos e ajudar aos demais, o colérico pode utilizar sua audácia para levar adiante projetos em prol dos mais necessitados, o sanguíneo pode utilizar sua habilidade de comunicação para difundir verdades sobre a família, casamento, bem-comum, vida humana…
O animal não necessita pensar porque suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, acasalar – fazem-no atuar bem e orientam suas ações para a conservação da espécie, e não mais do que isso. Já no homem os instintos são falhos, inseguros, e não garantem a sobrevivência da pessoa nem a da espécie, porque sua capacidade reitora é a inteligência, que supre e corrige as pulsões instintivas quando estas se desordenam.
As pulsões instintivas humanas dão energia, mas podem anarquizar-se. Todos sentimos dentro de nós uma desordem inata que bagunçou a orientação dos instintos humanos (a Igreja Católica chama isso de consequências ou relíquias do pecado original). No ser humano cada instinto busca a própria satisfação, sem importar-se com o corpo como um todo: a gula pode induzir o diabético a comer doce, a entupir o cardíaco de alimentos saturados de colesterol, a encharcar alguém de álcool; o instinto de procriação desorbitado levará o libidinoso a buscar o prazer venéreo e adquirir vícios e adições como o da pornografia pela internet, entre outros.
Ou seja, cada instinto humano se não for orientado pela inteligência e vontade bem formadas, buscará apenas sua satisfação, e desatenderá ao que é melhor para a pessoa. Abandonar-se à lei dos instintos leva o homem ao fracasso rotundo. O ser humano não busca o fim da espécie, como acontece com os animais, mas um fim pessoal, porque pelo livre-arbítrio deverá escolher entre ser médico, sapateiro, chefe de cozinha, mecânico, engenheiro…; como também poderá decidir ser ladrão, estelionatário, traficante, etc.
6 – A função das virtudes
Aristóteles dizia que a virtude torna boa a obra e seu agente. Isso porque são hábitos bons, conscientes, que penetram na alma e suas potências (inteligência, vontade e afetividade), e estabilizam a personalidade ao eliminar o que destoa, e dão facilidade para buscar o bem. As virtudes, uma vez radicadas na alma, ajudam a decidir bem porque fortalecem a vontade e tornam mais fácil a execução do que é correto. Todos temos tendências naturais desordenadas, e devemos descobri-las e lutar para reformá-las por meio das virtudes: o irascível deve exercitar-se no autodomínio, o preguiçoso necessita impor-se um horário para iniciar e concluir suas tarefas, cabe ao dubitativo não protelar suas decisões e ao tímido expor-se mais.
Ganham-se virtudes pela repetição de atos bons, tal como se ganham vícios pela repetição de atos maus. Para que arraigue um hábito operativo bom não basta uma ação isolada, mas muitos atos para que se estabilize o comportamento. E quando ganhamos um hábito bom, pelo princípio da unidade do ser humano, é a pessoa toda que melhora. A fortaleza, por exemplo, se conquista com pequenos atos como iniciar o estudo na hora, colocar as coisas no lugar ao finalizar um trabalho, não desviar-se do dever de cada momento, chegar pontualmente aos compromissos, não protelar o início de uma tarefa…
Cada pessoa necessita tomar as rédeas de sua vida, sendo protagonista dela: non ducor duco (não ser conduzidos, mas conduzir). A luta por melhorar o temperamento e o caráter dá maturidade, autodomínio, força moral e desenvolve muitas virtudes. Um exame de consciência diário de três minutos ao final do dia, identifica se a conduta pessoal está dominada pelos sentimentos − isso se chama sentimentalismo −, ou se as ações temperamentais e de caráter são destoantes. Os defeitos não devem cristalizar-se em pré-disposições ou tendências, pois conduzirão a tomar decisões erradas. Sempre seremos convidados a escolher, e a reiteração de escolhas erradas gera maus hábitos ou vícios: a opção pela desordem e ociosidade leva à preguiça; a tristeza diante do bem alheio conduz à inveja, etc. Portanto, o melhor e o que mais felicidade traz é conduzir-se sempre pela verdade e o bem, por meio de uma luta interior alegre e esportiva.
A cada dia os esportistas começam e recomeçam a fim de melhorar seus índices. Qualquer atleta que sobe ao pódio fracassou muitas vezes, mas não se rendeu, nem desanimou. Não jogar a toalha, nem desistir de melhorar o próprio “eu”. Ao contrário, insistir muitas vezes até alcançar a meta: listar as carências e defeitos pessoais e estabelecer uma luta alegre e esportiva, com atos contrários a cada falha: o desordenado deve esforçar-se para colocar cada coisa no seu lugar; o preguiçoso necessita estabelecer horário para iniciar e concluir as tarefas, e evitar fugir atrás de outras coisas; o egoísta precisa se pôr à disposição das pessoas para servi-las; o sensual deve precaver-se para não se colocar em situações que instiguem a sua sensualidade… Só para quem abandona a luta a derrota é certa.
Texto produzido por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br.
Ariovaldo Esteves Roggerio
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