1 – A função da afetividade humana. 2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões. 3 – Os afetos não devem comandar as decisões. 4 – A virtude da prudência. 5 – A educação da afetividade. 6 – Querer agir bem por amor.
1 – A função da afetividade humana
Há quem tem dificuldade para lidar e nomear seus sentimentos, emoções e paixões, e se surpreende com seus estados de ânimo e reações, a ponto de desejar saber o que lhe acontece e por que se sente desta ou daquela maneira.
A afetividade surge na pessoa como uma reação em forma de sentimento, emoção ou paixão ao se relacionar com o mundo, consigo mesma ou com os demais. Diante de qualquer acontecimento significativo, todos notamos uma sensação interior que pode ser agradável ou desagradável, e por isso dizemos que tal coisa nos afetou, e nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis diante de fatos positivos ou negativos.
A afetividade tem uma função importante ao informar que algo é agradável ou desagradável, o que leva a pessoa a procurar ou a evitar esse algo. Seria o equivalente à sensação de prazer ou dor física em relação ao corpo. A afetividade reflete a unidade entre o corpo, mente e espírito porque as emoções, sentimentos e paixões provocam com frequência reações psicossomáticas: taquicardia, sudorese, palidez, enrubescimento, desconforto estomacal, dor de cabeça ou nas costas, etc.
2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões
As emoções costumam surgir rapidamente e com grande intensidade, mas duram pouco: a repentina alegria perante uma boa notícia, a indignação automática diante de um insulto, a emoção que um filme ou a leitura de um romance pode causar…
Os sentimentos são estáveis e menos intensos que as emoções e paixões, e perduram por mais tempo porque não são uma reação pontual, mas um estado duradouro, tal como o amor, a misericórdia, a compaixão ou o ódio, a inveja, os ciúmes (há sentimentos bons e maus).
As paixões têm características comuns aos dois anteriores: são intensas e duradouras. Sua principal característica é a de arrastar para a ação de modo mais ou menos veemente e irresistível, em função da personalidade do sujeito: um apaixonado pelo futebol passa a semana toda pendente da partida do seu time e não deixa de assisti-la por nada neste mundo. As paixões se derivam de dois apetites: concupiscível e irascível. Se algo é bom ou prazeroso (um bom filme, uma boa refeição ou um plano de passeio, etc.) é desejado pelo apetite concupiscível: se se consegue realizar a ação vem o deleite; mas se algo é mau, o apetite concupiscível inclina a pessoa a fugir dele: se a fuga não for possível (fugir de uma doença) vem a dor, tristeza, angústia ou aborrecimento. Já o apetite irascível (de ira) faz a pessoa se sentir forte e com esperança de vencer um obstáculo que lhe custa, pois julga que poderá ultrapassá-lo: preparar-se com audácia e determinação para enfrentar um concurso ou o vestibular de uma instituição pública: se alcança o objetivo vem o deleite; se não há esperança de conquistá-lo virá o desespero, a raiva ou a vingança.
A afetividade é algo que se sente ou se padece. Em princípio, o sujeito não é responsável por ter paixões (a menos que se coloque em ocasião de ser provocado). Normalmente é algo que vem de fora e a pessoa até preferiria não a experimentar, mas acaba sofrendo-a ou padecendo-a. Entretanto, mesmo vindo de fora, está ao alcance de cada um esforçar-se por moderar e não dar tanta atenção a essas sensações interiores. Para isso, deverá fomentar reações positivas e contrárias para arrefecer as negativas: alguém que recebe um insulto poderá ficar remoendo e dando voltas e mais voltas a ele na cabeça, de modo a ficar cada vez mais raivoso. Para serenar e não se deixar arrastar pela paixão da ira poderá tentar justificar que o outro reagiu sem pensar e não pretendia ofender, ou porque sofria alguma contrariedade intensa, ou porque todos podem errar e o perdão é uma atitude que se pode oferecer a um ofensor.
3 – Os afetos não devem comandar as decisões
Se os afetos e sentimentos se fazem sentir, isso não significa que devam ser os reitores das ações, pois a pessoa tem sempre a última palavra sobre o que deve ou não fazer. Ou seja, não podemos ser escravos dos nossos sentimentos. Mas, se a vontade for débil ou até mesmo enferma, como ocorre com quem padece de algum vício ou compulsão, será mais difícil manter a afetividade sob controle.
A afetividade opera no curto prazo e tem um papel muito importante na vida ao indicar o que é agradável ou desagradável, o que é causa de prazer ou de temor, e leva a pessoa a agir em consequência. Contudo, a afetividade deve ser analisada de forma crítica, pois ela possui limitações: as emoções, afetos e paixões são muito individualistas e cada uma puxa a sardinha para a sua brasa (a paixão da gula pouco se importa com a diabete ou colesterol do sujeito). No caso do medo, a afetividade leva a fugir pelo caminho mais rápido se algo pode causar um mal ou desconforto. Porém, fugir nem sempre é a melhor atitude, pois há circunstâncias em que está em jogo um bem maior que obriga a enfrentar os temores com valentia e audácia.
A afetividade é como uma criança pequena que se deixa levar pelo que agrada e foge do que desagrada: come um pacote de doce porque lhe apetece, sem se preocupar se fará mal, mas não come salada. A mãe terá que explicar a ela que alguns alimentos agradam ao paladar, mas não fazem bem à saúde; outros, mesmo sendo desagradáveis são necessários para que ela fique forte e saudável.
A linguagem dos afetos é a percepção do que é agradável ou desagradável, e não do que é bom ou mau do ponto de vista moral, pois essa análise cabe à inteligência ou consciência prática. A instância superior da consciência, encarregada de analisar a dimensão moral das ações, indicará se a tendência afetiva deve ser seguida, porque está conduzida pela virtude e nos ajudará a fazer melhor o que deve ser feito ou, ao contrário, não deve ser seguida por se apresentar de forma desordenada, por exemplo, porque está motivada pela vingança, gula ou luxúria.
4 – A virtude da prudência
A afetividade por ser irracional necessita de um regente de orquestra que ponha ordem em tantas inclinações por vezes contraditórias. Esse papel cabe à virtude da prudência, que orienta cada afeto ou sentimento para ser uma força interior que apoie as ações retas: é melhor professor aquele que põe sentimentos no que faz; um jovem apaixonado por aviões que pretende ser aviador, enfrentará melhor as dificuldades para tirar o brevê, que lhe permitirá pilotar, mesmo que tenha que fazer o ensino médio pela manhã, trabalhar durante a tarde em alguma empresa para obter o dinheiro com o qual pagará o curso de aviador que terá de fazê-lo de noite (sem a força que lhe dá os sentimentos talvez desistisse logo).
A virtude da prudência precisa de um norte, de uma direção ou meta para onde canalizar as energias dos afetos. Essa meta é a que cada um livremente escolhe dar à sua vida. Os afetos são bons e fazem parte da natureza humana e por isso estão incluídos na satisfação que Deus teve ao lançar seu primeiro olhar à sua Criação recém-terminada: “Contemplou toda a sua obra, e viu que era tudo muito bom” (Gen. 1,31). Não apenas bom, mas muito bom, como que se regozijando pela obra saída de suas mãos. Somente Deus poderia ter feito algo assim. Porém, às vezes, a afetividade leva a pessoa a se equivocar, pois todos carregamos dentro um princípio inato de desordem (pecado original) que pode obscurecer a inteligência e enfraquecer a vontade para que esta ceda diante de um bem parcial e imediato que falsamente se apresenta como um bem absoluto. Como foi mencionado, administrar sentimentos e paixões não é tarefa fácil, pois cada tendência puxa para o seu lado, esgarçando ou dividindo a pessoa. Daí a necessidade de educar a afetividade por meio de virtudes, pois estas tornam agradável a busca do bem, e assim fica mais fácil reconduzir sentimentos desordenados.
5 – A educação da afetividade
Cabe a cada um educar a própria afetividade para que a aparição e a intensidade das emoções, sentimentos e paixões estejam de acordo com o que é o correto, razoável e verdadeiro, e ter apreço pelo que é bom e aversão pelo que é mau. O gosto pelo que é agradável não pode arrastar a vontade a procurá-lo desordenadamente, a ponto de a pessoa abandonar suas responsabilidades; nem poderá rechaçar o dever que não é agradável, quando isso for uma desordem.
Cada pessoa percebe dentro de si uma batalha interior que pode levá-la a não fazer o bem que gostaria, e a ceder ao mal que não queria realizar. A afetividade humana quando desordenada pode inclinar a pessoa a decidir por coisas que não convêm racionalmente: descarregar a ira sobre alguém, comer com gula um doce que não poderia, tomar bebida alcoólica imoderadamente, buscar relações sexuais fora do casamento, roubar para se enriquecer… As virtudes, que são hábitos operativos bons, fortalecem a pessoa para corrigir as tendências desordenadas da afetividade. A formação da afetividade dá à pessoa algo como uma segunda natureza que a faz atrair-se e deleitar-se com o bem, mesmo que seja árduo, ou que tenha que prescindir de planos bons, mas incompatíveis com a orientação que deu à própria vida.
É necessário educar a razão ou inteligência não apenas com a informação do que é bom ou mau, mas ao mostrar o motivo das ações, o seu porquê. Com isso, a vontade terá forças para resistir as atrações desornadas da afetividade para perseverar na busca do bem. Evita-se, assim, três patologias: o sentimentalismo (agir só em função do que se sente), o voluntarismo (prevalência da vontade sobre a razão e os sentimentos) e o intelectualismo (dar primazia à inteligência, sacrificando a vontade e os afetos). Qualquer dessas patologias indica um domínio excessivo sobre a pessoa.
6 – Querer agir bem por amor
O sentido do dever, necessário para dar um norte às ações, não deve ser anulado. Porém, não devemos funcionar apenas pelo sentido do dever a cumprir, pois isso é insuficiente e se torna exaustivo. Devemos agir bem porque queremos, por amor, pois isso é que dá sabor e sentido à vida. Uma afetividade bem formada faz desejar e buscar o que é bom. A pessoa aprende desse modo a escutar a sua afetividade e a segui-la por decisão própria (racionalmente), e sem se deixar arrastar por ela, tal como o guarda de trânsito controla o fluxo de carros em um cruzamento: se ouve uma ambulância, faz parar todos os carros para dar prioridade a ela; se depara com um motorista imprudente, fá-lo parar e não permite que prossiga para não causar acidentes. Outra imagem interessante é a do cavaleiro que com sua inteligência e vontade dirige os impetuosos cavalos − imagem dos sentimentos, emoções e paixões −, dando a eles a direção que convém: cabeça e coração, inteligência e afetos não devem entrar em conflito, mas caminhar em harmonia.
Vale a pena assistir o desenho “Divertida Mente”, da Disney, 2015, porque mostra como funcionam em nossa cabeça as emoções básicas que tendem a influenciar o comportamento: alegria, tristeza, medo, nojo e raiva. Essas emoções estão em contínuo diálogo entre si, nem sempre de forma pacífica básicas.
Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “A formação da afetividade” (capítulo O que é a afetividade) de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP.
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