1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato. 2 – O olhar da curiosidade vã. 3 – Pensar bem antes de clicar o play. 4 – Frutos da temperança.

1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato

    Há muitas maneiras de olhar para o que nos rodeia. O fotógrafo e o pintor têm um olhar estético para a mesa ornada com muitos pratos, e tentará captar a beleza que a arte culinária orna a necessidade primária de alimentar-se. Já o glutão tem para a mesma mesa um olhar possessivo e empastado. As diferentes formas de apreciar a realidade manifestam como uma pessoa se relaciona com o mundo. Há quem passa diante de um jardim com os olhos grudados nas imagens do celular, e não percebe a beleza que ali reina entre plantas, flores, arbustos, pássaros, e mal sabe nomear ou identificar cada um desses seres.

    Ver a realidade de uma maneira nova exige desprender-se de si para não ver as coisas apenas do ponto de vista da utilidade que elas têm para o proveito próprio. O olhar contemplativo longe está de ser egoísta ou possessivo porque, transfigurado pela virtude da temperança, admira o brilho divino que cada realidade possui em si mesma.

2 – O olhar da curiosidade vã

    O olhar do intemperado considera as pessoas e as realidades do ponto de vista do benefício que estas podem trazer para si, do favor que podem prestar, sendo incapaz de ver o que o outro necessita, o que poderá fazer por ele ou apenas para admirar o que é belo sem desejar apropriar-se dele. Manipular a realidade com desejos egoístas traz cegueira ao espírito. A falta de temperança destrói o ser humano porque o torna insensível para o verdadeiro conhecimento das pessoas e das realidades, o que conduz a erros de conduta. O olhar não enriquecido pela virtude da temperança impregna a pessoa de interesses egoístas, possessivos, tal como o de um animal que se fixa na sua presa. Esse olhar que divaga de imagem em imagem nas telas digitais é predador porque busca apenas satisfazer a paixão pela curiosidade superficial, e revela um modo de ver tudo pelo prisma do próprio interesse, e não sabe apreciar o que cada realidade transmite porque se prende rigidamente a um único ângulo, tal como o do glutão diante de uma mesa artisticamente preparada ou do olhar do animal para com sua presa, pois só desejam a satisfazer o estômago.

    O olhar intemperado se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, sem fixar-se em nada, e se detém o tempo mínimo indispensável para satisfazer a ânsia de uma curiosidade insaciável. Tomás de Aquino chamou esse olhar de curiositas, vício oposto à virtude da studiositas, que consiste em dar a justa medida ao desejo de conhecer, e remove os obstáculos que impedem ver com profundidade e com o esforço de concentração que todo processo de aprendizagem e de admiração trazem consigo. O olhar da curiositas  faz o papel de coletor de lixo das redes sociais e internet que varre para dentro da razão milhares de imagens e informações desencontradas, impossíveis de serem correlacionadas ou integradas, afetando a aprendizagem e tornando cega a inteligência: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mt 6,22). A falta de conteúdos significativos impede a pessoa de oferecer seus dons para o bem dos demais, pois se tornou frívola, superficial e incapaz de habitar em si mesma.

3 – Pensar bem antes de clicar o play

    É necessário desenvolver um sereno processo de discernimento para dedicar tempo e fazer crescer as potencialidades ou dotes pessoais, com o fim de aplicá-los à solução das necessidades que carecem tantas pessoas ao redor. Fugir do imediatismo da vã curiosidade: antes de clicar o play de um vídeo, ou navegar sem rumo na internet, pensar para onde isso conduzirá, e saber prescindir do que faz mal à própria alma, tendo a convicção de que esse discernimento não diminuirá a liberdade pessoal, mas livrará o coração de ser escravo de banalidades.

    O olhar desprendido do temperado capacita-o para descobrir a beleza que se oculta nas coisas simples, faz aprofundar na verdade das coisas, pois o mundo revela e fala de Quem o criou. O olhar temperado faz descobrir maravilhas insuspeitadas porque a moderação liberta e purifica o coração, e facilita uma relação serena com as pessoas e as coisas (o egoísta e o invejoso são infelizes porque nada os saciam). O primeiro efeito da temperança é a “tranquilidade de espírito”, fruto da ordem interior da pessoa. O olhar desprendido e limpo repara nos verdadeiros tesouros da vida e da convivência, e neles encontra um autêntico repouso.

4 – Frutos da temperança

    A temperança leva a não olhar desnecessariamente o celular durante o trabalho ou na convivência com as pessoas. Essa renúncia que parece de pouco valor é decisiva para concentrar os cinco sentidos naquilo que deve ser feito: dizer “não” ao que dispersa a mente é dizer “sim” ao que realmente importa. Tal esforço desenvolve a interioridade e contribui para despojar-se do que é superficial e da perda de tempo: “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, diz Escrivá de Balaguer.

Texto produzido por Ari Esteves.

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