1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas. 2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares. 3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos. 4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas

     As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados, e desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Crianças e jovens estão expostos a um universo sem fronteiras que oferece benefícios e riscos que não podem ser ignorados, o que torna necessária a proximidade e orientação dos pais, que devem adquirir conhecimentos e alguma prática para formar o seu próprio critério e orientar os filhos.

     As novas tecnologias criaram um ambiente onde se pode passar horas e horas. Pedagogos, psicólogos e orientadores familiares constatam que a criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das telas, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia o raciocínio e a imaginação, e torna a criança passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. E quando sai à rua com os pais ela não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e a imaginação se acomodou.

     Cada vez mais os dispositivos tecnológicos estão conectados à internet, atingem amplas audiências e permitem que qualquer pessoa difunda mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Que tipo de mensagens? Eis a questão. Para não colocar os filhos em riscos desnecessários ou criar vícios é preciso avaliar o momento oportuno para que utilizem equipamentos digitais. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança não precisa de brinquedos, pois se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer atrás da porta, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha… É assim que ela vivencia as próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção. Se se pretende dar algum brinquedo à criança nessas idades, é desnecessário que sejam de pilhas e contenham botões, já que estes devem estar dentro da criança e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A realidade simples e viva é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade, desenvolve sua percepção ao considerar os acontecimentos reais do entrono, entre outros benefícios.

     As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas experiências e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com o mundo ao seu redor. Uma criança não precisa estar conectada à internet; se necessário for, é melhor que siga um plano de acesso por um tempo restrito e em local e horário determinados (à noite, desconectar ou desligar), ao mesmo tempo ensiná-la a se proteger de situações perigosas e falar sempre com os pais se algo estranho ocorrer.

     Muitos educadores afirmam que as crianças não devem ter aparelhos eletrônicos avançados (tabletes, celulares, videogames). E se manuseiam algum equipamento por alguns momentos, por sobriedade e para não criar falsas necessidades, é aconselhável que os aparelhos sejam da família e não delas, e só devem ser utilizados em lugares comuns e com normas e horários, a fim de se habituarem a ter outras atividades mais úteis como estudar, cumprir encargos no lar, descansar no convívio com os familiares (o valor do contato humano não pode ser substituído por telas).

2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares

     O problema não está nas tecnologias, mas no modo como cada um as utiliza. A vida virtuosa é o filtro mais infalível que existe. Os pais devem ensinar os filhos a se comportarem virtuosamente no mundo digital, e isso se consegue não somente com regras e filtros, mesmo que estes válidos para proteger as crianças da pornografia, ameaças sexuais e outros malefícios. O mais importante é educá-los por meio de virtudes, a fim de que queiram ter uma vida reta, limpa, ao direcionar suas paixões e evitar com alegria tudo que é inconveniente na esfera digital. As novas tecnologias devem estar presentes nas conversas e regras da casa, que costumam ser poucas e de acordo com a idade dos filhos. Ensinar a viver as virtudes implica que os pais sejam exigentes consigo próprios ao moderar o uso do celular para aproveitar melhor o tempo e fixar a atenção na criança que lhes deseja falar… A coerência dos pais ao viverem pessoalmente o que indicam é o melhor modo de educar, pois os filhos ao serem testemunhas desses esforços irão imitá-los.

     A família é escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade, e saiba administrar a sua liberdade porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar. Deve desgostar de perder tempo com informações que não servem para nada, e aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados… Estabelecer diretrizes e explicar sobre a importância de utilizar melhor o tempo e não gastá-lo em redes sociais, videogames, jogos online, são conselhos que os filhos necessitam para desprenderem-se de ambientes digitais. Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos nos espaços públicos (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, cuidado com a curiosidade, não permanecer ocioso, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos

     De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos esclarecedores sobre a educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões), a fim de que controlem seus impulsos e tenham presente que o publicado na internet torna-se acessível a todos em qualquer parte do mundo, e deixa rastro que pode ser acessado por tempo indefinido. O mundo digital é um grande espaço que exige mover-se com bom senso: se os pais dizem à criança que na rua não fale com estranhos, o mesmo deve ser dito quando estão no ambiente digital. Uma comunicação franca na família cria um ambiente de confiança onde as dúvidas e as incertezas dos filhos são rapidamente resolvidas.

     Como um bom guia de montanhas, os pais devem acompanhar os filhos no ambiente digital para que estes não sofram e nem causem danos a outros: consultar com eles a internet e “perder tempo” ao jogar um videogame com os filhos tornam-se oportunidades para conversas mais profundas sobre o uso da rede. Essas experiências devem ser transmitidas a outras famílias.

     A infância é o momento de iniciar a prática das virtudes, e de aprender o bom uso da liberdade. No período de zero a seis anos criam-se hábitos que serão básicos na formação do caráter e domínio do temperamento, e se aprende a viver a virtude da ordem nos aspectos material (guardar brinquedos e roupas próprias) e temporal (ter horários para cada atividade). Tais hábitos, uma vez adquiridos, fortalecem a vontade para vencer a preguiça e o comodismo.

     É conveniente mostrar aos filhos o valor da austeridade quanto ao uso de aplicativos, gadgets (dispositivos portáteis), etc. Ensiná-los a viver o desprendimento não é apenas por motivos econômicos, mas para que não sejam dominados pela compulsão de ter as últimas novidades da indústria eletrônica, nem criar falsas necessidades (tem mais quem precisa de menos). Saber esperar até que os objetos úteis barateiem é parte da virtude da pobreza ou do desprendimento dos bens materiais. 

4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

     Na adolescência os filhos anseiam por um grau maior de autonomia, e os pais devem ir soltando as rédeas aos poucos, porque ainda são incapazes de administrar plenamente a liberdade. Mas isso não significa que tenham de ser privados da independência que lhes corresponde. Trata-se de ensinar-lhes a administrar a liberdade responsavelmente, a fim de serem capazes de visualizar objetivos mais altos ao colocar suas capacidades ao serviço do próximo. Autonomia e respeito às regras da disciplina familiar se conseguem com diálogos esclarecedores sobre os porquês ou razões subjacentes a algumas exigências que poderiam parecer limitantes, mas que na realidade não são proibições, e sim afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica que sabe ir contra a corrente de modismos ou campanhas publicitárias que escravizam: o guard rail das estradas não limitam a liberdade do motorista, mas orientam e protegem a sua vida.

     Educar é dotar os filhos de uma sabedoria que lhes permita administrar os sentimentos e afetos por meio da inteligência e vontade bem formadas. Mostrar como a virtude é atrativa e abraça ideais magnânimos: lealdade, respeito aos outros, fidelidade, solidariedade, autodomínio para ter as rédeas das inclinações instintivas, pudor, modéstia, etc.

     A missão dos pais é facilitada quando conhecem as preferências dos filhos, sabem o que lhes entusiasma e se interessam pelos hobbies que praticam. Assim se gera a confiança necessária para que eles compartilhem seus sentimentos. Há jovens que escrevem blogs ou usam as redes sociais para colocar conteúdos, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, o que leva os filhos a julgarem que eles não se interessam ou não apreciam o que fazem. Ler com agrado e interesse o que seus filhos escrevem ou postam enriquecerá o diálogo familiar.


Sugestão de leitura para completar o tema: Boletim Educar na realidade

Texto adaptado por Ari Esteves com base no artigo “Educar en las nuevas tecnologias”, de Juan Carlos Vásconez, (@jucavas). Imagem de Tima Miroshnichenko.

O Autor

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