1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias? 2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo. 3 – Assumir valores que orientem a vida. 4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive. 5 – O que é frívolo empobrece a alma.

1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias?

         Frívolo significa de pouca importância, inconsistente, inútil, superficial, e quem se ocupa de frivolidades é fútil, leviano. Portanto, idiotice frívola e perigosa nas diferentes idades é permitir que penetre pelos sentidos aquilo que não interessa ou não tem importância. Já abordamos este tema no boletim Inteligência ou depósito de futilidades, mas vale a pena tornar a considerar a necessidade de utilizar bem o tempo para potencializar os talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. “Nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que jogamos dentro de nós. Se não somos totalmente responsáveis, pelo menos temos o controle da grande maioria das coisas que comemos, lemos, assistimos, ouvimos e tocamos. Assim, temos que assumir o controle do que permitimos entrar pelos nossos sentidos. Se não assumirmos esse controle, outras pessoas assumirão, e aí perderemos o domínio de nós próprios”, diz Luiz Marins.

         Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma, e por onde entra o bom ou o vil. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Selecionar os conteúdos na internet leva a priorizar assuntos de maior interesse, seja no campo da orientação familiar, profissional, entretenimento, cultura, artes (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Palestras, vídeos, áudios, filmes e artigos estão disponíveis na web, mas é necessário distinguir o brilho falso das lantejoulas, que tornam a vida estéril, para não borboletear nas redes sociais apenas para satisfazer a ânsia de curiosidades, que transforma a memória e a imaginação em loja de bricabraque ou de quinquilharias.

2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo

         O excesso de imagens e informações desencontradas dá a ilusão de se conhecer muitas coisas, mas na realidade fomenta o vazio intelectual porque a inteligência não consegue processar ou encontrar sentido em tantas informações desencontradas. Com isso, a mente se torna preguiçosa, arredia e incapaz de se aprofundar em assuntos que valem a pena, ou manter a atenção em algo que exija esforço.

         Para um descanso criativo, melhor do que gastar seis ou sete horas na semana em redes sociais (cujo efeito é como água que escorre sobre a pedra, sem penetrar), é investir esse tempo, por exemplo, na leitura de um bom livro como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, entre muitos outros, pois são leituras que penetram na alma e a enriquecem, já que os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

3 – Assumir valores que orientem a vida

         Conhecer melhor aquilo que se ama faz parte da natureza humana. Fernando Sarráis, em seu livro Maturidade psicológica, diz que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento. Assim, podemos afirmar que aquele que perde tempo em curiosidades frívolas não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por empenhar-se a conhecer algo com maior fundura.

        O ser humano sempre age em vista de valores que assume como importantes, e que passam a orientar suas ações e escolhas. Portanto, os valores agem como critérios ou guias da existência pessoal. Quando esses valores se orientam à verdade e ao bem, enriquecem a personalidade, mas se buscam apenas um entretenimento superficial, a vida não passará de casca que oculta um buraco negro e vazio.

        Ensinam José Angel Lombo e Francesco Russo que cada pessoa se constrói ao buscar valores hierarquicamente estruturados, e de acordo com o que considera importante para sua vida. Os valores não são neutros, nem apenas algo teórico, mas performativo ao envolver a pessoa inteira pela livre adesão a eles. A hierarquia de valores estabelece as preferências pessoais mediante formas de comportamento: por exemplo, se alguém tem como valor a família, o estudo ou a solidariedade, saberá empenhar-se para vivê-los na prática. Um valor que não é assumido vitalmente, fará a pessoa não se interessar por ele, mesmo que o considere de relevo. Os valores assumidos fazem entrar em ressonância não apenas a inteligência, mas também a afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive

         “A autorrealização do homem será plena na medida em que se orienta a valores mais elevados, e não a valores relativos e passageiros: quem assume como valor maior de sua vida a riqueza, o prazer ou o bem-estar, a sua existência será exposta à instabilidade própria desses bens sensíveis. Se, pelo contrário, referir-se a valores estáveis e universais, a sua liberdade se elevará, no sentido de que as potencialidades espirituais se estenderão a objetos que não se exaurem: a amizade, a solidariedade, o amor a Deus, que não têm limite próprios e não são contingentes”, afirmam José Lombo e Francesco Russo.

         Hoje ocorre a perigosa cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo reconhece e considera verdadeiro, e, portanto, um valor, e o reflexo dessa verdade ou valor na conduta pessoal. Se falta essa coerência, essa autenticidade, os valores acabam por parecer indiferentes e sem força para conduzir a ação ou o comportamento pessoal. Ocorre o relativismo dos valores, que deixam de ser universais e passam a ser um joguete pessoal e subjetivo, portanto volátil. E quando não há coerência entre aquilo que se tem por verdadeiro, a conduta humana perde referências e a pessoa deixa de julgar retamente.

5 – O que é frívolo empobrece a alma

         Cada um é plenamente responsável por selecionar e assumir os valores que considera como verdadeiros, e afastar-se do que é frívolo, faz perder o tempo e empobrece a alma. E como o bem é difusivo, ter o zelo de ajudar os filhos e os amigos a assumirem os valores que enriquecem a alma, e ajudá-los a aproveitar melhor o tempo. Essa responsabilidade inclui a atenção às crianças, que vivem hoje no meio de muitas informações e imagens digitais desnecessárias, e que as tornam passivas, sedentárias, preguiçosas… O que mais necessitam as crianças é da atenção, carinho e do tempo dos pais, além de se aterem às realidade simples ao seu entorno.

Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo (SP), 2020; “Maturidade Psicológica e Felicidade – A educação da afetividade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros; e “Ética, virtudes, valores”, de Luiz Marins, da Integrare Editora e Livraria Ltda, São Paulo (SP), 2022.

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