Ajudar a criança a ser a verdadeira protagonista de suas ações a fará desenvolver uma personalidade rica. Para isso, ela deverá agir por motivo ou estímulo interno, e não externo. Se a criança teima em fazer o que não deve, e os pais dizem a ela que não receberá o presente prometido, a motivação para atuar corretamente será externa (ganhar o presente); se diante de uma ação errada ela se surpreende ao receber imediatamente uma medida corretiva, a motivação também será externa (evitar o castigo). Tanto o prêmio como o castigo dado de bate-pronto são mensagens vindas de fora (motivações externas), que pouco ajudam na formação da personalidade da criança: o prêmio cria dependência; o castigo imposto no repente da situação não permitirá que a criança reflita antecipadamente sobre as consequências de seu comportamento, e procederá por medo e não por decisão própria.
Quando a motivação de um comportamento não parte da criança, mas é provocado por circunstâncias externas, os psicólogos chamam tal atitude de locus de controle externo. Locus significa “lugar”, e locus de controle indica se a origem do comportamento é externa ou interna. Se a criança desenvolver o locus de controle interno, não irá a reboque das circunstâncias de fora, mas agirá por sua própria vontade. Ao ser a protagonista de suas ações, ela avaliará melhor o próprio comportamento… Constata-se atualmente que crianças viciadas em telas digitais são induzidas por motivações externas.
As medidas corretivas são necessárias na educação da criança. Porém, os pais devem aplicá-las com sabedoria ao pensar antes qual será a correção mais adequada diante de um proceder indesejado, e informar antecipadamente a criança sobre isso. Assim, evitam-se correções destemperadas e impostas de bate-pronto por surpresa ou raiva. Ao informar com antecedência, de modo sereno, sorrindo e fixando-se nos olhos da criança, qual será a consequência natural se vier a ocorrer determinada conduta, a criança terá oportunidade de avaliar previamente suas atitudes, e se sentirá responsável pelas consequências de seus atos. Ao refletir com tempo acerca do que ocorrerá diante de uma teimosia, birra ou se deixar desordenados seus brinquedos e roupas, a própria criança compreenderá que o castigo virá como uma escolha dela, o que reforçará a motivação ou locus de controle interno.
Quanto mais cedo a criança desenvolver o locus de controle interno, mais agirá livremente e adquirirá hábitos que a tornarão virtuosa: ao não abrir a geladeira fora de hora será temperada e terá autocontrole; ao cumprir os horários da casa, tornar-se-á disciplinada; diante do estudo e do cumprimento dos encargos do lar, terá mais força e constância para vencer a preguiça, desenvolverá o espírito de serviço e de preocupação pelos demais.
As medidas corretivas aplicadas com sabedoria evitam que a criança manipule os pais com shows de birras no supermercado, ao receber um não para que lhe comprem uma barra de chocolate… Educar as reações temperamentais e ajudar a que as crianças formem um caráter reto é tarefa apaixonante, conseguida pelos pais com bom humor e paciência, ao aproveitar as pequenas ocasiões que surgem no dia a dia da vida familiar.
Leia também o boletim A Sabedoria de dizer não às crianças
Texto elaborado por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br, inspirado no livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, São Paulo, 2018. Imagem de Imagem de Cottonbro Studio.
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Ariovaldo Esteves Roggerio
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