Há uma diferença essencial entre querer o bem e saber realizá-lo: pode-se querer ser justo e não viver a justiça ou ser rigorosamente excessivo em determinada circunstância; desejar ser corajosos e chegar à temeridade; reconhecer o valor da temperança e perder a justa medida em certas situações. A prudência atua no espaço entre o conhecimento do bem e sua realização, ao ajudar a razão a não ficar apenas em conceitos, mas levar a agir da melhor maneira.
A tradição clássica definiu a prudência como recta ratio agibilium: a reta razão no agir. E a chamou também de auriga virtutum, a condutora das virtudes, e genitrix virtutum, a mãe das virtudes. Uma virtude sem prudência perde-se: generosidade sem prudência se torna prodigalidade; paciência sem prudência se transforma em passividade; tolerância sem prudência degenera em permissividade; compaixão sem prudência cai no sentimentalismo. A prudência permite que cada virtude encontre a sua forma verdadeira.
A vida não acontece no abstrato
Não é possível prever de antemão cada situação e aplicar sobre ela alguma regra. Pessoas, circunstâncias e relações mudam com frequência e exigem diferentes respostas que o prudente sabe perceber. A prudência não oferece uma fórmula para a vida, mas sim algo mais difícil e precioso: a capacidade de discernir. É uma inteligência prática que transforma o conhecimento da realidade em decisão para agir, não se limitando a indagar sobre o que seria desejável em teoria. Não se pode confundir a virtude da prudência com a cautela dos omissos e covardes que fogem de se arriscar.
O agir prudente tem presente o bem a buscar e o modo de o fazer. Oferece à inteligência os princípios para racionar bem, a fim de mover a vontade para realizar esse bem. A pessoa justa deseja a justiça, mas precisa de prudência para saber o que a justiça exige em determinada situação. A pessoa temperada quer viver com sobriedade, mas necessita da prudência para reconhecer qual é a medida adequada.
No agir moral encontram-se três elementos inseparáveis: um bom fim, um bom discernimento e a capacidade de realizar aquilo que foi discernido. Cada virtude orienta o desejo para o bem e dá força para realizá-lo, mesmo que exija renúncia ou sacrifício. Porém, a prudência aperfeiçoa o raciocínio que conduz à melhor escolha. Existe uma espécie de círculo: a virtude precisa da prudência e a prudência precisa da virtude.
A boa formação vai se construindo ao longo da vida
As regras têm papel importante no início da formação, tal como os andaimes são necessários enquanto a casa se ergue. O mesmo ocorre com as virtudes. Por exemplo, primeiramente a criança aprende que certas ações são corretas e outras não: aprende a dizer a verdade, a respeitar, a cumprir o prometido, a pedir desculpa, a esperar, a partilhar. Não compreende as razões, mas confia naqueles que a educam: “não faça isso”, “isso pode”… Ao receber as indicações, a criança ao obedecer vai construindo sua primeira arquitetura moral, mesmo sem ter chegado à maturidade. Mas o verdadeiro objetivo da educação é ajudá-la a que um dia o que foi recebido desde fora passe a viver dentro dela como convicção própria, tornando-a capaz de realizar o que é correto mesmo não havendo quem lhe indique isso. É nesse momento que nasce a verdadeira liberdade. Ser livre não é escolher qualquer coisa, mas escolher o que é correto, justo e verdadeiro. E a prudência é uma das condições para essa liberdade.
O objetivo não é acumular regras.
O grande objetivo da educação é formar pessoas capazes de compreender a verdade. Não basta dizer ao filho “não veja pornografia”, “estude”, “ajude nas tarefas do lar”, “o namoro precoce é um mal”… Mas é necessário oferecer à inteligência dele razões profundas que o conduzam a agir por convicção própria, pois adquiriu a capacidade de julgar bem e de reconhecer a verdade e escolhê-la por si mesmo.
Oferecer razões profundas é o único meio para não criar pessoas eternamente dependentes de indicações externas. Mas para oferecer razões que deem luzes à inteligência dos filhos e fortaleçam a vontade deles, os pais devem melhorar continuamente sua formação por meio da leitura de bons livros, cursos, vídeos e podcasts com palestrantes ofereçam doutrina antropológica verdadeira.
A vontade precisa da inteligência.
Julgar bem é uma das ações mais elevadas da inteligência que aprendeu a analisar a realidade sem sofrer influência de paixões ou sentimentos que podem desfigurar a verdade. A pessoa prudente vê a realidade tal como é para depois perguntar-se: como devo agir?
O imprudente teme ver as coisas como elas realmente são. Por isso, a prudência encontra-se no extremo oposto ao voluntarismo, que não utiliza a inteligência para analisar a situação antes de agir. O voluntarioso antecipa-se a agir forçado por uma vontade pouco esclarecida. A vida moral não se reduz à intensidade do querer da vontade, porque corre-se o risco de desejar o bem, mas escolher mal por não haver compreendido bem determinada situação.
Para querer o bem é necessário reconhecê-lo e possuir a força interior das virtudes para realizá-lo: a inteligência mostra o caminho, a vontade escolhe o correto e a virtude dá a força para o realizar.
Uma aprendizagem para toda a vida
A formação moral não é técnica: é a lenta transformação da pessoa que primeiro aprende, depois pratica e quando erra corrige-se. Assim, pouco a pouco, o que antes exigia esforço começa a se tornar mais fácil, porque o que era uma regra exterior seguida por vezes a contragosto, transforma-se em convicção que cria hábitos que moldam a maneira de ser. Com isso, cada virtude deixa de ser ato isolado e passa a dar unidade à pessoa, tornando-a melhor em todos os aspectos. Esse processo deve iniciar-se na infância para que a pessoa chega à adolescência, juventude e à idade adulta amando o que entende ser o bem e a verdade.
Quem durante anos viveu sem referências morais sólidas, deve iniciar com sincera honestidade e humildade um caminho de conversão ou de transformação ao interiorizar critérios claros que iluminem a inteligência para compreender as razões do que é um bem verdadeiramente humano.
Por isso, formar a prudência é, antes de tudo, ensinar a ver a realidade sem a deformar pelos desejos pessoais. Ver o outro ou as situações além das primeiras impressões, julgar com coragem e agir de acordo com o que se concluiu. Ou seja, é preciso interpretar a realidade distinguindo o essencial do secundário e considerar as consequências.
Da obediência à liberdade
Passar da obediência exterior à liberdade interior de saber escolher o bem e a verdade é o grande ideal educativo. Compreender o motivo profundo das boas indicações leva a pessoa a escolher o bem por si mesma. Paradoxalmente, uma boa formação não necessita de tantas regras. À medida que a pessoa amadurece pela prudência, necessitará de poucas instruções particulares, porque terá adquirido algo mais valioso: a capacidade de julgar bem.
A pessoa prudente não é a que nunca se engana, mas a que aprendeu a olhar, refletir, corrigir-se e recomeçar. A prudência não elimina as incertezas próprias da vida, nem promete respostas perfeitas para todas as situações, mas ensina a procurar a resposta certa e, mesmo que erre, crescerá interiormente porque foi honesta consigo mesma. A prudência é inseparável da maturidade moral ao tornar desnecessário que alguém diga a cada instante o que deve ser feito. O prudente aprendeu a reconhecer por si mesmo o que é bom e verdadeiro: no início lhe foi apresentado esse caminho e finalmente se tornou capaz identificá-lo e de escolhê-lo. Um exemplo: ao filho que foi bem formado desde a infância, não será necessário indicar-lhe que leve o lixo para fora, pois saberá perceber essa entre outras necessidades.
Não há virtude isolada
Prudência, justiça, fortaleza e temperança não são virtudes isoladas. A prudência, mãe de todas as virtudes, não fragmenta a pessoa em infinitas regras, mas dá unidade para viver de acordo com a verdade do real. A prudência permite que a inteligência julgue acertadamente cada situação, e isso dá força à vontade para acolher e realizar esse bem.
E assim se compreende que a verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo aquilo que se quer, mas em ser capaz de querer e realizar o que é bom e verdadeiro. A prudência não é apenas mais uma virtude, mas uma necessidade de quem, ao habitar neste mundo, sabe que está de passagem e chamada a ser e a viver como filho de Deus.
Texto baseado no artigo “Formar personas libres – Algunas cuestiones de Teología Moral aplicadas a la formación”, de Julio Diéguez, em https://pt.scribd.com/document/669041397/Formar-personas-libres-Dieguez
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